Estamos em 2026 e a história dos Hospitais é a mesma que eu vivi em Dezembro/Janeiro de 2023/2024. Só mudou o filtro... agora está mais escuro, mais pesado, mais difícil de disfarçar. O que se passa nas urgências não é “o inverno”, nem “um pico inesperado”. É o resultado de anos a governar a saúde como se fosse uma folha de Excel, onde pessoas são números e as macas e camas são quadradinhos verdes ou vermelhos.
Quando vemos dezenas de ambulâncias presas à porta de um hospital, 60, 70, às vezes mais, aquilo não é um problema logístico.
Aquilo é socorro roubado à rua!!
Cada maca entalada num corredor é uma ambulância que deixou de existir... É uma equipa que já não pode ir a uma súbita, um enfarte, a um atropelamento, a uma criança em paragem respiratória, etc...
E ficam lá porquê?
Porque o hospital já não aguenta mais nada!!
A urgência está cheia, os internamentos estão bloqueados, ninguém sobe, ninguém sai. O doente fica na maca dos bombeiros, não há macas hospitalares disponíveis porque o sistema colapsou antes dele. É um efeito dominó miserável que começa no gabinete de um ministro e acaba num corredor cheio de macas e gente a sofrer...
Depois do desastre de 2023 e 2024 vieram as promessas... ULS, reestruturações, planos, comunicados bonitos.
Na vida real? Zero...
O problema não está nos profissionais de saúde!! Está numa política que desde 2007 decidiu fechar hospitais e urgências “periféricas” para poupar dinheiro.
Falo do que conheço e sei...
Se Cantanhede tivesse urgência aberta a sério, Coimbra não estava constantemente a rebentar. Se Anadia não tivesse sido sacrificada, Coimbra e Aveiro respiravam melhor.
Fecharam tudo à volta para empurrar para os grandes centros, e agora fingem espanto quando esses centros colapsam?!
Criaram um sistema gordo no meio e frágil nas extremidades. E quando ele tenta respirar, já não consegue...
Sei que existem bons e maus em todo o lado, mas é obsceno ouvir críticas a médicos, enfermeiros e técnicos nestas alturas. Falam de atrasos, de falta de atenção, como se estas pessoas não estivessem em guerra todos os dias. Sei do que falo, vivi e experienciei isso, infelizmente...
São turnos em cima de turnos porque não há gente suficiente!!
São horas sem parar para comer, sentar, ir à casa de banho!!
É a violência mental de ter de decidir quem é atendido primeiro quando todos estão a cair!!
Vocês que criticam, acham que faziam melhor?
Desde os TEPH e os Bombeiros presos a uma maca num hospital, até às equipas de enfermagem e técnicos, internamento e exames a levar com uma urgência em rutura, o SNS só ainda não caiu porque estas pessoas se recusam a deixá-lo cair!!! Acreditem...
Não é o médico exausto. Não é o enfermeiro em burnout. Não é o bombeiro que não chegou porque a ambulância ficou transformada em cama hospitalar.
A culpa é política!!
É de quem prometeu mudar e escolheu maquilhar. Dois invernos depois do último colapso, estamos no mesmo inferno. Isso não é azar... É decisão!!
E no meio disto tudo ficam os doentes, abandonados por um sistema que já não aguenta, e os profissionais de saúde TODOS, heróis à força, a segurar com as mãos aquilo que já devia ter sido reconstruído há anos.

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