Há muitos anos que assistimos ao mesmo cenário, repetido até à exaustão:
Ambulâncias paradas à porta dos hospitais, profissionais exaustos, doentes à espera... famílias em angústia.
E, perante isto, a resposta política continua quase sempre a ser a mesma: “faltam ambulâncias”.
Não, não faltam.
É tempo de o dizer com clareza e sem rodeios: o problema não são a falta de ambulâncias. O problema está dentro dos hospitais.
Quem conhece um pouquinho o terreno sabe que uma ambulância não é uma cama, não é um serviço de urgência e não pode ser tratada como um parque de estacionamento humano. Quando uma ambulância chega a um hospital e não consegue transferir o doente por falta de uma maca hospitalar disponível, o sistema bloqueia. E esse bloqueio tem consequências graves para todo o país.
Hoje e desde há muitos anos, não falamos de percepções nem de relatos. Falamos de factos noticiados:
Pessoas morreram por falta de socorro atempado, porque centenas de ambulâncias estavam retidas nos hospitais, impossibilitadas de responder a novas emergências.
Isto não é opinião.
São vidas perdidas.
Cada ambulância imobilizada é uma resposta que não chega noutro ponto do território. É uma aldeia, uma estrada, uma casa onde alguém precisa de ajuda e essa ajuda demora ou não vem. E nalguns casos, como já se sabe, esse atraso foi fatal.
Perante esta realidade, a pergunta impõe-se com sentido cívico e responsabilidade:
Não faria muito mais sentido investir em macas hospitalares próprias, garantindo a receção imediata dos doentes e libertando rapidamente as ambulâncias para regressarem ao terreno?
Uma maca custa uma pequena fração do preço de uma ambulância. Mas o seu impacto é enorme: liberta meios de emergência, reduz tempos de resposta, melhora a segurança do socorro e salva vidas.
E é importante dizê-lo com frontalidade: investir em mais macas implica, necessariamente, investir também nas urgências hospitalares.
Implica reforçar espaços, reorganizar circuitos, criar capacidade real de resposta.
E implica, acima de tudo, investir em profissionais de saúde, médicos, enfermeiros e assistentes operacionais, porque sem pessoas não há sistema de saúde que funcione.
Esse investimento não é um luxo nem um exagero.
É assumir, finalmente, a dimensão real do problema e responder onde ele nasce.
Continuar a imobilizar ambulâncias à porta dos hospitais é esconder a sobrelotação dos hospitais em vez de a resolver.
Comprar mais ambulâncias para ficarem paradas não resolve o problema, bem pelo contrário, agrava-o, porque cria a ilusão de reforço enquanto o sistema continua bloqueado. Dá anúncios e fotografias, mas não dá eficiência nem segurança à população.
Não podemos continuar a normalizar doentes horas em corredores, em macas improvisadas ou dentro de ambulâncias.
Não é digno.
Não é aceitável.
E não é compatível com um país que se quer justo e humano.
Dizer isto não é atacar hospitais nem profissionais de saúde. Pelo contrário.
É exigir planeamento, responsabilidade e decisões que funcionem no mundo real.
É recusar que o peso das falhas do sistema continue a cair sobre quem está no terreno a fazer o possível e o impossível.
Quando há mortes associadas à falha do socorro, já não estamos apenas a falar de má gestão.
Estamos a falar de uma falha grave do dever do Estado de proteger a vida.
A saúde pública não se governa com propaganda.
Governa-se com escolhas difíceis, mas certas.
E uma dessas escolhas é clara: investir nos hospitais para libertar as ambulâncias para salvar e proteger vidas.
Ignorar esta realidade, depois do que já aconteceu, não é apenas um erro.
É persistir numa falha que o país não pode continuar a aceitar.

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