"Não é falta de meios. É falta de coragem para mudar” - VIDA DE BOMBEIRO

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sábado, 10 de janeiro de 2026

"Não é falta de meios. É falta de coragem para mudar”

 


Há muitos anos que assistimos ao mesmo cenário, repetido até à exaustão:

Ambulâncias paradas à porta dos hospitais, profissionais exaustos, doentes à espera... famílias em angústia.


E, perante isto, a resposta política continua quase sempre a ser a mesma: “faltam ambulâncias”.


Não, não faltam.


É tempo de o dizer com clareza e sem rodeios: o problema não são a falta de ambulâncias. O problema está dentro dos hospitais.


Quem conhece um pouquinho o terreno sabe que uma ambulância não é uma cama, não é um serviço de urgência e não pode ser tratada como um parque de estacionamento humano. Quando uma ambulância chega a um hospital e não consegue transferir o doente por falta de uma maca hospitalar disponível, o sistema bloqueia. E esse bloqueio tem consequências graves para todo o país.


Hoje e desde há muitos anos, não falamos de percepções nem de relatos. Falamos de factos noticiados:


Pessoas morreram por falta de socorro atempado, porque centenas de ambulâncias estavam retidas nos hospitais, impossibilitadas de responder a novas emergências.


Isto não é opinião.


São vidas perdidas.


Cada ambulância imobilizada é uma resposta que não chega noutro ponto do território. É uma aldeia, uma estrada, uma casa onde alguém precisa de ajuda e essa ajuda demora ou não vem. E nalguns casos, como já se sabe, esse atraso foi fatal.


Perante esta realidade, a pergunta impõe-se com sentido cívico e responsabilidade:


Não faria muito mais sentido investir em macas hospitalares próprias, garantindo a receção imediata dos doentes e libertando rapidamente as ambulâncias para regressarem ao terreno?


Uma maca custa uma pequena fração do preço de uma ambulância. Mas o seu impacto é enorme: liberta meios de emergência, reduz tempos de resposta, melhora a segurança do socorro e salva vidas.


E é importante dizê-lo com frontalidade: investir em mais macas implica, necessariamente, investir também nas urgências hospitalares.


Implica reforçar espaços, reorganizar circuitos, criar capacidade real de resposta.


E implica, acima de tudo, investir em profissionais de saúde, médicos, enfermeiros e assistentes operacionais, porque sem pessoas não há sistema de saúde que funcione.


Esse investimento não é um luxo nem um exagero.


É assumir, finalmente, a dimensão real do problema e responder onde ele nasce.


Continuar a imobilizar ambulâncias à porta dos hospitais é esconder a sobrelotação dos hospitais em vez de a resolver.


Comprar mais ambulâncias para ficarem paradas não resolve o problema, bem pelo contrário, agrava-o, porque cria a ilusão de reforço enquanto o sistema continua bloqueado. Dá anúncios e fotografias, mas não dá eficiência nem segurança à população.


Não podemos continuar a normalizar doentes horas em corredores, em macas improvisadas ou dentro de ambulâncias.


Não é digno.


Não é aceitável.


E não é compatível com um país que se quer justo e humano.


Dizer isto não é atacar hospitais nem profissionais de saúde. Pelo contrário.


É exigir planeamento, responsabilidade e decisões que funcionem no mundo real.


É recusar que o peso das falhas do sistema continue a cair sobre quem está no terreno a fazer o possível e o impossível.


Quando há mortes associadas à falha do socorro, já não estamos apenas a falar de má gestão.


Estamos a falar de uma falha grave do dever do Estado de proteger a vida.


A saúde pública não se governa com propaganda.


Governa-se com escolhas difíceis, mas certas.


E uma dessas escolhas é clara: investir nos hospitais para libertar as ambulâncias para salvar e proteger vidas.


Ignorar esta realidade, depois do que já aconteceu, não é apenas um erro.


É persistir numa falha que o país não pode continuar a aceitar.

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