“Quando Não Tivermos o Equipamento Completo, Paramos com o Nosso Serviço” - VIDA DE BOMBEIRO

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segunda-feira, 20 de abril de 2020

“Quando Não Tivermos o Equipamento Completo, Paramos com o Nosso Serviço”


Paulo Matos Almeida, comandante dos Bombeiros Voluntários de Castro Daire, critica a falta de fornecimento por parte da autoridade nacional da emergência e protecção civil de equipamento de protecção individual

Castro Daire é um dos concelhos do distrito com o número mais alto de casos positivos de covid-19. Como está a situação no concelho actualmente?

Temos 106 casos positivos, com maior enfoque em dois lares, em São Joaninho e em Mosteiro, mas neste momento a situação está normalizada, dentro do possível. Os outros casos no concelho são casos pontuais, sendo que, de acordo com o delegado de saúde, também já há transmissão comunitária activa, ou seja alguns casos em que não se consegue perceber ou detectar como é que as pessoas foram infectadas. Os lares foram ambos totalmente desinfectados e estão a trabalhar com duas alas: uma com os infectados e outra ala com os não infectados e recuperados, completamente distintas e separadas por andares, a respeitar as medidas de contingência.

Como é que a corporação está a trabalhar neste momento para responder às solicitações?

Já tivemos sete bombeiros de quarentena e foram todos testados com resultado negativo. Não temos nenhum caso positivo, mas também nos organizamos devidamente para o evitar. Formámos dois grupos de 14 operacionais, com os bombeiros profissionais que temos, excluindo apenas aqueles que apresentam factores de risco. Essas equipas fazem 10 dias seguidos de serviço, 24 sobre 24 horas, que depois ficam 10 dias em casa, enquanto fica o outro grupo de serviço. Temos todos os voluntários como um terceiro grupo, que é activado quando temos situações como incêndios e acidentes, para que não haja interacção entre eles.

Na sua opinião, a que se deve o aumento exponencial de casos positivos no concelho?

As pessoas podem estar infectadas sem que seja detectado, e durante esse período podem infectar muita gente. O problema maior terá sido nos lares, mas mesmo os casos na comunidade têm a ver com o efeito bola de neve que também afectou os lares. Nestes meios pequenos, há pessoas de muitas localidades que trabalham nos lares e surgindo um problema ele é levado para casa de cada um, passando a haver alguma promiscuidade e isso poderá ter potenciado o aparecimento de mais casos noutros lares. O primeiro caso que tivemos foi em São Joaninho e parece-me que daí decorreu também o de Mosteiro. Outros casos poderiam ter surgido, mas creio que foram detectados a tempo e se conseguiu suster uma maior contaminação, senão teríamos um problema ainda mais complicado no concelho.

Nesta altura, quais são as maiores carências com que os bombeiros se debatem?

Os nossos maiores gastos são com os equipamentos de protecção individual (EPI), mas dentro destas limitações todas sempre temos tido o suficiente, porque houve um elencar prévio de prioridades e de necessidades, e já estávamos à espera que isto pudesse disparar, porque é uma doença infecto-contagiosa e é próprio das pandemias a agudização do problema. Mas temos tido também o envolvimento e o auxílio da comunidade, através das redes sociais, mas também de particulares e empresas, que nos têm auxiliado. O que eu posso afirmar, porque é isso que vai acontecer, é que se um dia não tiver o equipamento completo para equipar os meus operacionais, passamos a não fazer o serviço. Não o digo a pensar que isto algum dia irá acontecer, eu penso que há uma tendência para a normalização em termos de fornecimento de equipamentos e, portanto, penso que isso não se colocará no futuro. Não estamos com problemas, para já, mas o problema que decorre daqui é o número de vezes que precisamos de utilizar esse equipamento, nomeadamente no transporte de doentes às unidades hospitalares. Em cada ambulância, temos sempre dois bombeiros que têm de estar devidamente equipados. Basta atentar no número de casos surgidos para termos uma ideia de quantas viagens temos de fazer e do equipamento que necessitamos, porque os hospitais não têm capacidade de resposta para ficar com todos os casos positivos, devolvendo-os à procedência, aos lares.

Têm recebido apoios por parte das autoridades de saúde e protecção civil?

Na realidade, o que nós temos recebido da área da saúde, via INEM, é zero. Não recebemos qualquer tipo de equipamento, o que é um bocado estranho, porque eu acho que compete à saúde o fornecimento desses equipamentos. No entanto, temos recebido alguma coisa, mas nunca perto de equipamentos completos, recebemos parcelas, como máscaras, aventais, luvas, batas, mas nunca recebemos, até agora, equipamentos completos por parte da autoridade nacional de emergência e protecção civil. Tirando isso, temos a nossa relação com o município, que já nos forneceu EPI, temos o Grupo Emergência Covid-19 Castro Daire, que já nos forneceu batas, e vamos tendo a oferta de empresas, de mecenas e de particulares, e o próprio investimento da nossa direcção, que tem investido imenso em EPI. Mas para nós não há “meios equipamentos” ou o “está quase bem equipado”, se alguma vez acontecer não termos o equipamento completo, paramos este tipo de serviço, não vamos colocar os bombeiros em risco.

Possuem equipamento para continuarem a executar esse serviço até quando?

Para já, temos a situação controlada. O problema é que mesmo estando a comprar os artigos, estes não nos chegam com a celeridade que nós precisamos. Para já, está controlada a situação, porque os números foram estabilizando, crescem todos os dias mas pouco, felizmente, e isso permite-nos ir tendo capacidade de resposta. Agora, se tivermos mais dois ou três problemas em lares, não sei. Mas acho que os próprios lares também se começaram a organizar melhor, nós aconselhámos alguns deles a tomarem um determinado tipo de medidas de prevenção, que têm ajudado a que não tenha havido problemas. Mas não é impossível voltarmos a ter problemas.

Que comentário lhe suscita o comportamento cívico da população nesta fase?

De um modo geral e desde que os apelos têm sido efectuados, tem sido de um grande nível de civismo. Agora, como em todo o lado, há sempre uma pequena percentagem de pessoas que teima em remar contra a maré. A chegada indiscriminada dos emigrantes podia ter tido graves consequências, porque não se verificou, em muitos casos, a indispensável quarentena. Também houve, pela Páscoa, muita movimentação de famílias em direcção ao nosso concelho, aproveitando os últimos dias sem restrições de mobilidade, que não se coibiram de viajar no mesmo carro, ir às compras em conjunto, e isso significa maior possibilidade de contágio e a contribuição para o descontrolo da situação pandémica.

Nessa medida, o uso de máscaras é mesmo essencial?

Temos de ter uma atitude cívica de auto-protecção e não só, porque nós para nos protegermos temos de nos preocupar em proteger os outros. Vamos ter de conviver muito tempo com as máscaras, até haver uma vacina ou um tratamento eficaz, porque isto não está assim tão controlado como acho que os nossos governantes pretendem fazer passar. Parece um pouco a situação verificada com os números, que também estão um bocado desfasados da realidade, tomando como exemplo o meu concelho

Mas os números divulgados pelo município não estão, no seu entender, correctos?

São os correctos em termos oficiais, porque se se realizarem poucos testes não se tem uma noção correcta da realidade. Agora, em função do que se tem testado, os números que a comissão, através da comunicação efectuada diariamente pelo município, são os correctos desde que os delega-dos de saúde nos entreguem os números correctos, porque durante algum tempo, como é sabido, houve um certo boicote à passagem de informação, porque há ACES que estão a dar os números e há outras que dizem que não os fornecem. No distrito de Viseu, há corpos de bombeiros a saberem os números e outras que não sabem. Creio que seria importante uniformizar estes critérios, para a segurança de todos.

Fonte: Diário de Viseu

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