O Inferno é Aqui e Está Longe de Terminar - VIDA DE BOMBEIRO

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terça-feira, 7 de agosto de 2018

O Inferno é Aqui e Está Longe de Terminar


José Jacinto, 60 anos, que tem pais velhos na Perna da Negra, o lugar da "deflagração explosiva" de sexta, e que trata de um canil no ermo do Cabeço da Águia, vai chorar duas vezes. No meio ficará a mirar o chão num silêncio de pedra. Primeiro fala dos animais. O canil na serra tinha 38 cães de caça ao javali; 12 arderam anteontem a agonizar após os habitantes do lugar saírem retirados pela GNR, estão ali inchados mortos, os cães, ou reduzidos a ossos e carvão; oito fugiram e não voltaram; salvaram-se 18, que arfam agora de olhos e caudas caídas, pelados, esganados pelo ar. E o ar é cinza, borralha e calor.

"Não entendo. Andam aqui mil bombeiros ou mais e nós não vimos aqui nem um! Bastava um autotanque e salvavam-se. Então o presidente [Rui André, da Câmara de Monchique] não disse que tinha um programa para recolher animais? Aonde?!" A seguir fala dos pais - "estão bem, estão" -, Luís e Helena, 83 anos, que vivem da horta mas a horta ardeu. "Para quem é pobre, ficar sem a horta é ficar sem nada. Vão agora viver de quê?", e a pergunta sai-lhe fininha, a fugir, e o homem chora outra vez. "Vá lá, tenho um bocadinho de horta, vamos ter que nos apertar...".

Aquele lugar, como o que vamos ver a seguir, Porto Largo, onde também só se chega na terra batida e borrada de árvores esturradas, está rodeado de sobreiros e os matos estavam limpos. É a casa de Avelino Pedro, "sou o Barroca", e ali anteontem foram todos evacuados à força pela GNR. O Barroca, 77 anos, que mora ali com a mulher, Graciete, ela tem uma muleta, teve até que ser algemado, queixa-se de um braço torcido, berrava e não queria sair.

"Defender o que é meu"

"Pois não! Queria defender o que é meu. Aqui não vimos bombeiros, onde estão? Só veio a GNR para nos expulsar." O Barroca foi forçado, largaram-no no quartel, mas escapuliu-se e meia hora depois já andava de novo em casa. "Quem a protege se não for eu?" A luz ainda não voltou, ele bebe água fresca do tanque pelo cucharro, é uma colher de cortiça, diz que nada lhe ardeu. Mas teme "a suestada", o novo vento que se levanta no céu cru muito amarelo, muito fumado, cheio de cinza a voar.

Maria do Rosário Maio, 63 anos, está curvada, aturdida, a mexer em destroços. Voltou a casa às 7 da manhã e viu que a casa toda lhe ardeu. Vive ali ela, o marido, dois filhos, uma neta, e anteontem também foram forçados pela GNR a sair, eram 5 da tarde. Está desolada: "Aqui, no Monte das Pedras, moram 20 pessoas. Muitas esconderam-se da Guarda nos milharais, não foram levadas e salvaram as casas. A nossa ardeu. Não, aqui não vimos bombeiros. Era uma casa de uma vida. Agora como vai ser?"A mulher segura-se: "Olhe, estamos vivos, vivos vamos ficar." Mas a casa está inabitável e terão que voltar a Monchique, onde amigos os vão acolher.

Antes de se chegar ali, na Portela da Serenada, EN266, a estrada da Sabóia agora cheia de árvores-esquissos torcidos e terra a fumar, ardeu outra casa: a de José Gervásio, que não estava cá, dizem vizinhos da Cascalheira, mais os anexos, dois carros e máquinas. Estrada fora há mais carros, dois carochas VW que são esqueletos de metal.

Para outro lado, EN267 para Alferce, a estrada da cinza, jazem mais carros queimados. À frente, lugar do Alto, incendiou-se outra casa, mais carros, mais máquinas, e ao lado, lugar da Casa Velha, há outra casa que ardeu. A Proteção Civil ainda não as reconheceu, continua a dizer que "podem ter ardido".

Fonte: JN

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