Um homem morreu no sábado, nas Taipas, à espera do INEM. Foram acionados os bombeiros de Guimarães para o socorrer, quando a corporação local tinha meios disponíveis. O caso é apenas mais um dos que têm ocorrido de forma recorrente. A ANTEM fala em "degradação estrutural" do modelo de socorro.
Eram 12h52 de sábado, 11 de julho, quando o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) recebeu uma chamada para uma paragem cardiorrespiratória de um homem, de 48 anos, na vila das Taipas, concelho de Guimarães.
Foram acionados os bombeiros de Guimarães para socorrer um homem, apesar da corporação local ter todos os meios disponíveis. E o homem acabou por morrer no local.
Os Bombeiros Voluntários das Taipas demorariam entre 3 e 5 minutos a chegar à vítima, segundo o comandante em exercício desta corporação, enquanto os Bombeiros de Guimarães distam cerca de 9 quilómetros e perto de 14 minutos da Avenida dos Combatentes do Ultramar, local da ocorrência e que é área de atuação da corporação das Taipas.
Contactado pela Lusa, o comandante em exercício dos Bombeiros Voluntários das Taipas confirmou que a corporação tinha todos os meios operacionais disponíveis e diz-se surpreendido pelo sucedido.
"O CODU acionou diretamente os bombeiros de Guimarães"
"O CODU [Centro de Orientação de Doentes Urgentes] acionou diretamente os bombeiros de Guimarães em vez do nosso corpo de bombeiros, porque a área de atuação é nossa. Estamos operacionais e tínhamos os meios disponíveis. Ficámos estupefactos quando vimos nas redes sociais que Guimarães veio à nossa área de atuação por indicação do CODU, quando temos a nossa parte operacional em condições, os meios em prontidão e não fomos notificados para esta ocorrência", sublinhou José Augusto Ferreira.
Este operacional admitiu que possa "ter havido algum erro na parte da triagem e atribuição do corpo de bombeiros por causa da georreferenciação, por parte do CODU", acrescentando que está a tentar averiguar "o que realmente se passou", aguardando uma explicação "concreta" por parte do CODU para a situação, pois "tinham todos os meios para fazerem o serviço".
O comandante em exercício dos bombeiros da vila das Taipas, concelho de Guimarães, distrito de Braga, revela ainda que, após o óbito, as autoridades policiais acionaram, "aí sim", a corporação das Taipas para a "remoção do cadáver".
"Ocorrência será objeto de análise interna"
Já o INEM adiantou que "relativamente ao acionamento dos meios, a ocorrência será objeto de análise interna, com vista à verificação de todos os procedimentos adotados e à análise das circunstâncias em que foi efetuado o despacho dos meios de emergência".
O instituto explicou que após a realização da triagem clínica pelo CODU, "a situação foi classificada como prioridade máxima (P1), tendo sido imediatamente determinada a ativação de uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) e de uma ambulância de emergência médica".
Em simultâneo, acrescentou o INEM, "o CODU prestou assistência telefónica ao contactante, orientando a realização de manobras de Suporte Básico de Vida até à chegada dos meios de emergência ao local".
A VMER de Guimarães foi acionada às 12h55, a ambulância dos Bombeiros Voluntários de Guimarães às 12h58 e às 13h05 foi também acionada a equipa de psicólogos do INEM.
Às 13h26, a equipa da VMER comunicou ao CODU que foi verificado o óbito da vítima, tendo sido acionada a autoridade competente.
"O acionamento dos meios de emergência é efetuado pelo CODU com base na avaliação clínica da ocorrência e na informação operacional disponível no momento do despacho, com o objetivo de assegurar a resposta mais rápida e adequada à situação clínica", referiu o INEM.
Morte revela falência do modelo
Já no domingo, a Associação Nacional dos Técnicos de Emergência Médica (ANTEM) considerou que o caso revela a falência do atual modelo.
Em comunicado, a associação considerou que o episódio representa "mais um sinal preocupante" do estado do Sistema Integrado de Emergência Médica e da capacidade do INEM para coordenar e regular a resposta pré-hospitalar.
"Independentemente das conclusões da averiguação em curso, existe uma realidade que não pode continuar a ser ignorada", defendeu a ANTEM, sustentando que os problemas do instituto não são pontuais nem um episódio isolado.
Segundo a associação, existe uma "degradação estrutural, operacional e organizacional que tem vindo a comprometer a resposta de emergência pré-hospitalar".
A ANTEM criticou ainda o recurso recorrente a averiguações internas, defendendo que devem ser assumidas responsabilidades políticas e de gestão.
A associação responsabilizou a liderança do INEM, que acusa de não conseguir inverter a situação da instituição, e a ministra da Saúde, por a anunciada "refundação" do instituto não ter produzido as mudanças esperadas.
"Uma reforma não se faz com anúncios, discursos ou medidas avulsas. Faz-se com conhecimento técnico, planeamento, investimento e uma visão moderna de Serviço Médico de Emergência, alinhada com os modelos internacionais", sublinhou.
A ANTEM defendeu uma alteração estrutural do sistema pré-hospitalar e rejeitou que a responsabilidade pelas falhas continue a ser transferida para os profissionais que trabalham no terreno.
"Cada minuto numa emergência conta. Cada falha evitável tem consequências. E a responsabilidade de garantir um sistema eficaz não pode continuar a ser transferida para os profissionais que diariamente trabalham no terreno, mas sim assumida por quem tem o poder de decisão", reforçou no mesmo comunicado.
Sucessão de casos
Nos últimos anos, registou-se uma sucessão de casos semelhantes ao de sábado, nas Taipas, cuja demora no socorro levou a um fim trágico.
Só nos últimos meses foram vários os noticiados. Em janeiro, três pessoas morreram enquanto esperavam pelo INEM em apenas uma semana: um homem de 68 anos, em Tavira, um homem de 78, no Seixal, e uma mulher com cerca de 70, em Sesimbra.
Mais recentemente, uma mulher, de 73 anos, morreu em Santarém, após 30 minutos à espera do INEM e um homem de 48 anos morreu em Ourém após quase uma hora à espera de socorro, depois de vários erros, desde aa morada errada, às VMERS inoperacionais ou ocupadas, passando pela falta de desfibrilhador. Mas são muitos mais os casos noticiados no último ano.
Recentemente, o Correio da Manhã revelou que, em pelo menos dois dos casos referidos acima - do homem de 78 anos que esteve 3h à espera de socorro no Seixal e do homem, de 68 anos, que esteve mais de uma hora a aguardar socorro do INEM em Tavira - os inquéritos continuam à espera de relatórios para que possam ser concluídos.
No caso do idoso do Seixal, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) referiu que está a aguardar o relatório de autópsia, para poder ser concluído.
Já no caso do outro homem, o processo "encontra-se atualmente na fase de realização de perícia médica na especialidade de cardiologia", essencial para a elaboração do relatório final.
A ministra da Saúde, Ana Paula Martins ainda não reagiu a esta mais recente morte.
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