Sim, o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR) pode colapsar. Embora a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) dimensione o dispositivo com milhares de operacionais e dezenas de meios aéreos, o sistema entra em rutura sob condições extremas.
O colapso do dispositivo ocorre por uma combinação de fatores:
Saturação de meios: Em situações de múltiplos fogos simultâneos (mega-incêndios), o rácio entre a capacidade de extinção e a extensão da frente de fogo torna-se desproporcional.
Avarias e falta de recursos: Podem registar-se atrasos operacionais, com falhas na disponibilidade de meios aéreos (como a falta de helicópteros contratados).
Rutura de infraestruturas: Durante grandes incêndios, o próprio sistema de abastecimento de água local pode entrar em colapso devido a falhas de energia ou consumo excessivo, dificultando o reabastecimento dos tanques.
O comandante nacional da Proteção Civil disse que o dispositivo de combate a incêndios rurais está dimensionado para a realidade do país e para aquilo que é expectável acontecer, mas realçou que está dependente da dimensão dos fogos.
"O dispositivo de combate a incêndios no fundo tenta mitigar os impactos que temos no país, mas eu diria que o dispositivo está dimensionado àquilo que é a realidade e que é expectável que aconteça", disse Mário Silvestre em entrevista à Lusa na véspera do Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Rurais (DECIR) reforçar os meios de combate.
O DECIR vai ter este ano um ligeiro aumento de meios, nomeadamente operacionais e aeronaves, em relação a 2025, numa altura em que o Governo já alertou que 2026 pode ser muito difícil em termos de incêndios rurais, especialmente depois da tempestade Kristin que afetou especialmente a região centro no final do mês de janeiro.
Questionado se perante este cenário os meios previstos no DECIR são os necessários, o comandante nacional de emergência e proteção civil afirmou que o dispositivo "depende do número de ocorrências, da dimensão dos incêndios e do comportamento humano".
"Dimensionamos o dispositivo para aquilo que será, não para o pior cenário, nós não podemos dimensionar o dispositivo para o pior cenário, mas dimensionamos o dispositivo para aquilo que é expectável de acontecer", disse.
Mário Silvestre referiu que, se ocorrer um incêndio numa zona onde o risco é potencialmente baixo, não existe problema em deflagrarem grandes incêndios.
"O nosso problema está nas ocorrências que vão e que têm lugar em zonas onde o potencial de incêndio é muito grande. Existem zonas do país onde rapidamente chegamos a valores na casa de 100 mil hectares de potencial a arder", afirmou.
O comandante disse também que o DECIR não é um documento fechado, podendo sofrer alterações de acordo com as avaliações feitas a cada momento.
“Actual dispositivo de combate a incêndios é insuficiente e desajustado”
O presidente da direção dos bombeiros de Arcos de Valdevez defendeu a profissionalização no combate ao fogo e o fim do atual modelo sazonal de combate aos incêndios, assente num reforço de meios no período considerado crítico.
“Não podemos continuar a reagir ao fogo. Temos de antecipá-lo. E isso só se faz com um dispositivo permanente, profissionalizado e devidamente articulado”, sustenta, em comunicado, Germano Amorim, a propósito do “elevado número de incêndios rurais deflagrados nos últimos dias” no concelho de Arcos de Valdevez.
O responsável defende o fim do DECIR – Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais e a criação de um dispositivo permanente, ativo durante todo o ano.
De acordo com Germano Amorim, “a situação operacional demonstra que o modelo sazonal já não responde à realidade climática, territorial e criminal que o país enfrenta”.
Por isso, o atual dispositivo de combate a incêndios tornou-se “insuficiente e desajustado”.
“Hoje, em Arcos de Valdevez e nos concelhos vizinhos, temos múltiplos incêndios ativos. Isto não é exceção — é a nova normalidade. O risco é permanente. O apoio também tem de ser”, alertou.
O responsável sublinha que “os bombeiros estão no terreno muito antes da ativação oficial do DECIR, enfrentando ocorrências exigentes com meios limitados, equipamentos desgastados e viaturas que acumulam avarias devido ao esforço contínuo”.
“Continuamos sem o reforço que só chega no verão. Isto não é planeamento. É improvisação”, lamenta.
Germano Amorim critica a lógica de “reforço apenas durante alguns meses do ano”, afirmando que a abordagem “não só é ineficaz, como coloca bombeiros e populações em risco”.
Por outro lado, é precisa a profissionalização total dos bombeiros, pois “Portugal não pode continuar a depender de um sistema assente no voluntariado para enfrentar um risco permanente”.
“Não podemos continuar a pedir a voluntários que enfrentem um risco permanente com estruturas temporárias. O país precisa de bombeiros profissionais, dedicados a tempo inteiro, com carreiras estáveis, formação contínua e meios adequados”, avisa.
Reconhecendo o voluntariado como “uma força essencial e insubstituível”, o responsável refere que “não pode ser a base estrutural de um sistema que enfrenta riscos permanentes, complexos e cada vez mais violentos”.
“O voluntariado deve ser valorizado, mas não pode continuar a ser o pilar central de um sistema que exige resposta permanente, técnica e altamente especializada”, diz.
Germano Amorim sugere, por isso, a criação de “equipas profissionais reforçadas durante todo o ano”, a manutenção contínua de viaturas e equipamentos, um investimento estável e não sazonal, a articulação operacional permanente entre bombeiros, proteção civil e forças de segurança e “estratégias de prevenção que não dependam do verão”.
A tudo isto podemos juntar a cada vez maior escassez de meios humanos, equipas de ECIN incompletas, equipas de ECIN "fantasma" pois só existem no papel, bombeiros desmotivados entre muito mais, e temos todos os ingredientes para que quando os incêndios "apertarem", o dispositivo colapse.

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