A Proteção Civil vai introduzir este ano no combate várias medidas para melhorar a capacidade de análise, antecipação e extinção do incêndio, como um maior número de aeronaves a utilizar retardante de fogo.
“Para este ano, o que tentámos fazer foi incorporar não só as aprendizagens de 2025, mas também as de 2024, e garantir que temos maior capacidade de análise, de antecipação e, com base nisso também, criámos um conjunto de novas medidas que aumentam a nossa capacidade de extinção do incêndio, sobretudo na sua fase inicial”, disse o comandante nacional de emergência e proteção civil, em entrevista à agência Lusa.
Mário Silvestre avançou que “uma das grandes apostas” é a utilização do retardante (substância química usada para reduzir, atrasar ou impedir a propagação do incêndio e consequentemente auxilia no controlo e extinção do fogo), que já foi usado em 2025 num Centro de Meios Aéreos, passando este ano a estar disponível em cinco.
“Este ano teremos mais quatro centros de meios aéreos a operar com o retardante. Vamos passar para cinco. Aquilo que queremos é tentar que a taxa de sucesso que temos neste momento no ataque inicial aumente ainda mais”, afirmou.
Mário Silvestre frisou que atualmente os incêndios são mais violentos e arrancam a uma maior velocidade de propagação, sendo por isso necessário ter outros meios de extinção para garantir maior sucesso no ataque inicial e “o retardante é sem dúvida uma das grandes tentativas de melhoria contínua que o sistema está a implementar”.
O comandante nacional avançou também que outra melhoria introduzida no sistema passa por uma reformulação dos grupos de combate de ataque ampliado dos corpos de bombeiros que foram reforçados do ponto de vista da sua constituição.
“Fizemos uma análise em conjunto com os comandantes dos corpos de bombeiros e concluímos que havia um conjunto de alterações que deviam ser introduzidas nesse grupo. Estamos a constituir os grupos para se ter outra capacidade e para que os comandantes desses grupos tenham outra capacidade de gestão, mantendo o grupo mais tempo em combate do ponto de vista do incêndio e da supressão”, referiu.
Mário Silvestre realçou que há um conjunto de mudanças no Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR) deste ano, que muitas vezes “são cirúrgicas, mas que permitem ter outro tipo de coordenação e capacidade, comando e controlo nos teatros de operações”.
O mesmo responsável deu igualmente conta de que este ano a Proteção Civil vai também “tentar potenciar a capacidade de análise e uso do fogo” ao ter introduzido em cada uma das sub-regiões do país equipas especializadas para analisar os grandes incêndios.
De acordo com comandante nacional, estas equipas de reconhecimento e avaliação da situação vão passar a informação sobre o risco e o tipo de incêndio ao comandante do setor e das operações, permitindo assim “uma maior capacidade de antecipação” e melhorar a comunicação e a coordenação.
Mário Silvestre acrescentou que está ainda a ser feito “treino operacional para garantir que os processos de comunicação são mais céleres e que toda a gente está na mesma página e percebe exatamente quais as conduta e doutrina que têm de adotar”.
“São um conjunto de circunstâncias e de melhorias que resultam todas elas dos processos de avaliação e da melhoria contínua que temos que implementar no sistema”, disse, afirmando que, após a avaliação feita aos incêndios de 2025 com todos os atores do sistema, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANPEC) tentou introduzir no sistema algumas das melhorias identificadas.
Questionado sobre as críticas recorrentes da falta de coordenação e de comunicação durante o combate dos grandes incêndios, Mário Silvestre admitiu que possa existir “pequenas falhas”, mas “são momentâneas e depois são automaticamente corrigidos pelos postos de comando”.
Esclarecendo que “o teatro de operações de um grande incêndio é uma situação complexa e que as solicitações aos diversos agentes “são imensas”, referiu ser “normal que pontualmente haja uma comunicação que não foi percebida e que haja uma comunicação que não chegou”, mas garantiu que “o sistema está coordenado e responde de forma coordenada”.
Dispositivo de combate dimensionado para a realidade do país
O comandante nacional da Proteção Civil disse que o dispositivo de combate a incêndios rurais está dimensionado para a realidade do país e para aquilo que é expectável acontecer, mas realçou que está dependente da dimensão dos fogos. “O dispositivo de combate a incêndios no fundo tenta mitigar os impactos que temos no país, mas eu diria que o dispositivo está dimensionado àquilo que é a realidade e que é expectável que aconteça”, disse Mário Silvestre.
O DECIR vai ter este ano um ligeiro aumento de meios, nomeadamente operacionais e aeronaves, em relação a 2025, numa altura em que o Governo já alertou que 2026 pode ser muito difícil em termos de incêndios rurais, especialmente depois da tempestade Kristin que afetou especialmente a região centro no final do mês de janeiro.
Questionado se perante este cenário os meios previstos no DECIR são os necessários, o comandante nacional de emergência e proteção civil afirmou que o dispositivo “depende do número de ocorrências, da dimensão dos incêndios e do comportamento humano”. “Dimensionamos o dispositivo para aquilo que será, não para o pior cenário, nós não podemos dimensionar o dispositivo para o pior cenário, mas dimensionamos o dispositivo para aquilo que é expectável de acontecer”, disse.
Mário Silvestre referiu que, se ocorrer um incêndio numa zona onde o risco é potencialmente baixo, não existe problema em deflagrarem grandes incêndios. “O nosso problema está nas ocorrências que vão e que têm lugar em zonas onde o potencial de incêndio é muito grande. Existem zonas do país onde rapidamente chegamos a valores na casa de 100 mil hectares de potencial a arder”, afirmou.
O comandante disse também que o DECIR não é um documento fechado, podendo sofrer alterações de acordo com as avaliações feitas a cada momento.
Os meios de combate a incêndios rurais vão ser reforçados a partir de sexta-feira, passando a estar em permanência no terreno 11.955 operacionais de 2031 equipas, 2599 veículos e 37 meios aéreos, além dos três helicópteros da AFOCELCA (empresa privada de proteção florestal vocacionada para o combate a incêndios rurais).
O primeiro reforço de meios acontece a 15 de maio, no que é denominado ‘nível Bravo”, numa fase que se prolonga até ao dia 31 de maio, altura em que os meios voltam a aumentar. A fase mais crítica, entre julho e setembro, é aquela que mobiliza o maior dispositivo e vai contar este ano com 15.149 operacionais de 2.596 equipas, 3.463 viaturas e 81 meios aéreos, incluindo os três da AFOCELCA, um ligeiro aumento relação ao ano passado.

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