Falamos muito de bombeiros. Falamos de estruturas, de ocorrências, de fogos, de cheias, de heroísmo e de sacrifício. Falamos do que se vê. Do que sai nas notícias. Do que dá fotografia.
Mas quase ninguém fala do resto.
Este texto é apenas uma reflexão pessoal sobre o impacto emocional da possibilidade de um processo disciplinar. Não é acusação. Não é ataque. É o lado humano de algo que, a existir formalmente, seguirá os seus trâmites e o respetivo direito de defesa.
Processos existem. Porque todos falham. Somos humanos antes de sermos operacionais. Erramos antes de acertar. Sentimos antes de agir.
Quando surge a expressão possível processo disciplinar, ela instala-se como aquela frase antiga, quando chegarmos a casa falamos. Fica-se ali suspenso. Sem saber se haverá sermão, chinelo simbólico ou apenas esclarecimento. A incerteza pesa mais do que qualquer decisão.
Recebi a notícia e começaram os questionamentos.
Questionei-me.
Questionei decisões.
Questionei palavras.
Questionei a farda.
Questionei a missão.
Não por falta de amor. Mas porque aquilo que somos merece ser revisto quando é posto em causa.
Ainda há fogo dentro. Não é revolta. É consciência.
Há algo que não pode ser esquecido. O peso de um processo não fica na farda pendurada depois do turno. Não se despe no balneário. Não se arquiva no gabinete. Acompanha a pessoa. Vai para casa. Senta-se à mesa. Interrompe o sono. Permanece até ao dia do juízo final, seja esse processo justo ou não.
Ninguém está sozinho nisto. Não é vergonha. É momento. É aprendizagem. É dor, às vezes. Mas dor não é desonra.
Os bombeiros são muito mais do que aquilo que vemos. São pessoas. Pessoas que continuam, mesmo quando carregam pesos invisíveis.
Por agora aguardamos o próximo capítulo...
E até lá não estou de pé.
Hoje deitei.
Vi várias mãos estendidas para me pôr de pé.
Agradeço cada uma delas.
Mas hoje não.
Hoje, apesar de não estar sozinha, sinto que preciso disto. De parar. De me encontrar. De prometer a mim mesma que não me vou perder neste caminho.
Porque cair não é o fim.
Perder-me seria.
Ariana Ribeiro

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