Num momento particularmente sensível para o universo dos Bombeiros, é inevitável reconhecer a apreensão que episódios graves, ainda em investigação, provocam no seio das nossas comunidades. A confiança pública, elemento basilar da missão de qualquer agente de proteção e socorro, sofre sempre abalos quando comportamentos individuais contrariam o que se espera de quem enverga um uniforme que simboliza serviço, entrega e humanismo.
Importa, contudo, recordar uma verdade essencial: mais de um século de história destas instituições é feito, esmagadoramente, de atos de coragem, de abnegação e de profundo sentido de dever. São dezenas de milhares de intervenções que salvam vidas, protegem famílias e atenuam sofrimento. São homens e mulheres que interrompem a própria vida para acudir à vida do outro. Esse legado não desaparece perante um episódio, por mais perturbador que seja; não pode ser apagado, nem relativizado, pelo comportamento de uns poucos.
Mas tão importante como defender esse legado é garantir que a conduta moral, ética e deontológica dos corpos ativos se mantém inabalável. A confiança da população só se consolida quando existe transparência, responsabilização e respeito absoluto pela dignidade humana, dentro e fora do quartel. Nenhuma instituição pode, nem deve, fechar os olhos perante alegações graves. Uma resposta firme, rigorosa e alinhada com os valores que nos regem é a única via possível.
É precisamente neste equilíbrio difícil que se pede, à população, calma e prudência. Generalizar é sempre injusto. E os relatos de ataques a viaturas de emergência representam não só uma reação desproporcionada, mas um perigo real para quem depende desses meios para sobreviver. A justiça faz-se nos tribunais e nos órgãos disciplinares, não na rua.
O impacto que toda esta situação tem na saúde psicológica, na estabilidade emocional e no bem-estar dos operacionais que nada têm a ver com estes acontecimentos é profundo e, muitas vezes, invisível. Muitos são voluntários: membros ativos da comunidade, profissionais das mais diversas áreas, pais, mães, filhos e filhas que agora enfrentam olhares de desconfiança por um episódio que não protagonizaram nem representam. Também as suas famílias vivem o peso deste escrutínio social que extravasa a razoabilidade e que ameaça rotular um coletivo por ações individuais.
É precisamente por isso que importa reafirmar, com clareza e convicção, o que verdadeiramente define os bombeiros em Portugal: a ética do cuidado, o compromisso com a vida, o respeito pelo outro, a disciplina, a camaradagem, a formação contínua e a integridade moral que deve pautar todos os gestos e decisões. São estes valores e não outros, que têm sustentado a confiança pública ao longo de décadas.
Hoje, mais do que nunca, é necessário proteger quem cumpre, apoiar quem serve e distinguir com rigor e justiça quem falhou de quem continua, diariamente, a entregar-se por completo ao bem comum. A resposta coletiva a este momento exige serenidade, proporcionalidade e uma fidelidade absoluta aos princípios que fazem dos bombeiros uma referência ética da nossa sociedade.
Um sentido abraço,
Nuno Delicado

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