Hoje quero falar-vos sobre a legítima manifestação dos bombeiros voluntários/assalariados em frente a assembleia da República, aqueles que, apesar de terem vínculo voluntário ou assalariado nas Associações Humanitárias, continuam a carregar no peito o mesmo símbolo de entrega e missão como qualquer Bombeiro Profissional.
Há quem os olhe de lado, como se por serem voluntários ou assalariados perdessem o brilho da palavra “profissional”. Mas será justo pensar assim? Será que o salário que recebem paga o risco da vida, o desgaste da alma, a ausência das famílias, as noites sem sono e os dias de luta? Não. O salário para os assalariados é apenas uma forma de garantir que estas mulheres e homens estão disponíveis, de prontidão, para que a sociedade possa dormir mais tranquila.
A manifestação que hoje vemos não é um capricho nem um ato de ingratidão. É um grito de alerta. É a lembrança de que estes voluntários/assalariados, que carregam o peso de missões impossíveis, também têm direito à dignidade, a condições de trabalho justas, a serem respeitados pelas entidades que muitas vezes se escondem atrás da palavra “heróis” para não enfrentar a verdade.
É fácil falar em missão, em valores, em solidariedade. É fácil escrever relatórios e proclamar discursos floridos que os Bombeiros são os heróis do País. Mas a prática mostra outra face: quando chega o momento de estar ao lado de quem serviu, de quem se entregou, a resposta é fria, distante ou inexistente.
Heróis sim, mas de carne e osso. Com contas para pagar, com dores físicas e emocionais, com famílias que esperam em casa. A legitimidade desta manifestação nasce exatamente aí: no equilíbrio que as entidades teimam em esquecer. Porque não basta aplaudir de vez em quando ou encher-nos de palavras bonitas nas cerimónias de aniversário das Associações. É preciso valorizar de facto, com justiça e respeito.
Os bombeiros voluntários e assalariados das Associações humanitárias não pedem luxo, pedem apenas dignidade. E quando quem protege a vida precisa de lutar pela sua própria, é sinal de que algo está profundamente errado. Talvez esta manifestação seja o choque de realidade que muitos precisam para acordar.
Vivemos a vida a criar expectativas nas instituições, nos sistemas que deviam ser de suporte. Acreditamos que, se dermos tudo de nós, receberemos pelo menos um pouco em troca. Mas a realidade é dura: muitas vezes, quem dá de si sem reservas acaba esquecido, ignorado ou mesmo descartado.
E assim, as instituições que deveriam ser casa e porto seguro transformam-se em paredes ocas. Alimentam-se da entrega de muitos, mas não devolvem cuidado quando esses mesmos muitos mais precisam. Criam-se desilusões profundas, que não são apenas individuais, mas sociais. Porque cada vez que alguém que deu tudo é deixado sozinho, todas as instituições falham.
A expectativa dos Bombeiros Assalariados e voluntários das Associações Humanitárias é legítima: se caminhamos juntos, devemos cuidar uns dos outros. Mas enquanto a cultura de exigir sem dar continuar a ser regra, o ciclo repete-se. As pessoas cansam-se, desmotivam-se, e os que vêm a seguir já não acreditam.
No fundo, as expectativas que temos revelam mais sobre a necessidade de humanidade do que sobre nós próprios. E as desilusões, essas, são o retrato cru de uma sociedade que insiste em esquecer que ninguém aguenta carregar tudo sozinho.
Autor, José Batista Martins in INSÓNIAS

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