Comandante Júlio Pereira: “Ser Bombeiro é Dar Um Pouco Daquilo que Somos a Troco de Nada” - VIDA DE BOMBEIRO

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Comandante Júlio Pereira: “Ser Bombeiro é Dar Um Pouco Daquilo que Somos a Troco de Nada”

 


A porta de entrada nos Bombeiros Voluntários de Felgueiras foi feita pelo mãos do pai, mas a permanência, há cerca de 40 anos, deve-se “à entrega e à dedicação” prestada desde os 17 anos. Este domingo, 26 de novembro, e no âmbito do 125.º aniversário dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras, Júlio Pereira, comandante da corporação foi distinguido com o crachá de ouro, um dos mais altos galardões da Liga dos Bombeiros Portugueses.


Uma condecoração “que não é para todos, modéstia à parte”, diz-nos Júlio Pereira, que considera a distinção um reconhecimento pelo “percurso e carreira nos bombeiros” e pela “entrega” nos lugares que tem ocupado, “não só como comandante, mas também nos vários órgãos a nível distrital e nacional dos bombeiros. Já são alguns anos“.


Natural da freguesia de Margaride, o atual comandante da corporação felgueirense foi bombeiro durante 16 anos, passou ao quadro de honra e esteve nos corpos sociais da associação durante dois mandatos. Posteriormente, foi convidado para o lugar comandante, onde permanece há 15 anos. “Se calhar sou um dos poucos comandantes, ainda, em regime de voluntariado. A maioria já são todos remunerados”, frisa.


E o que faz alguém continuar a dedicar-se a uma causa de forma voluntária? “É muito difícil de explicar, porque quem entra para os bombeiros e consegue estar quatro ou cinco anos, depois dificilmente sai. No meu caso, quando entrei tinha familiares na corporação, um irmão que chegou a chefe e o meu pai que pertenceu aos órgãos sociais da associação. Foram pessoas que me influenciaram. Aliás, minha inscrição como bombeiro, aos 17 anos, foi feita pelo meu pai. Devo-lhes a eles, também, a carreira que estou a fazer nos bombeiros”, garante.


Com apenas 17 anos “já tinha a noção da responsabilidade que era fazer parte do corpo de bombeiros“, porque “acompanhava sempre” o irmão que era bombeiro e o pai “quando havia desfiles, formaturas, levava-me sempre”. Impulsionado pela família, Júlio Pereira continua, após longos anos, a dedicar-se de “alma e coração” aos Bombeiros Voluntários de Felgueiras.


“Lamentavelmente” é uma herança que não conseguiu transmitir aos dois filhos, de 30 e 32 anos, “nenhum quis seguir a carreira do pai, se calhar sabendo aquilo que passaram. Foram muitos momentos de ausência, porque nós passamos muitas horas longe da família. Temos de estar sempre prontos para sair quando é necessário”, explica o felgueirense, que recorda os “dias passados fora em grandes incêndios. Estamos sempre sujeitos a isso. São coisas que só nós que estamos cá dentro é que sentimos e sabemos. Quem está do lado de fora não consegue perceber o que nos leva a ser bombeiros voluntários, não sabem o que nos move e não dá para explicar”.


As emoções “são muitas, principalmente quando toca a sirene. Agora é raro, mas é um sentimento único, ouvimos e largamos tudo para ir ao toque da sirene ou por qualquer motivo não conseguimos ir. São momentos que mexem connosco. Não se consegue explicar o porquê”.


Aos 61 anos – 40 no corpo de bombeiros – Júlio Pereira afirma que ser bombeiro “é dar um pouco daquilo que nós somos a troco de nada“, um lema que tem conduzido “a uma crise de voluntariado, porque os jovens agora são muito materialistas. A primeira coisa que perguntam quando nas entrevistas é quanto é que vão ganhar. No passado não era assim, os corpos eram 100% voluntários, agora já não é bem assim, há uma parte que é assalariada, e ainda bem”.


O comandante dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras aponta para a “falta de apoios aos jovens. Não há nada que os motive a ser bombeiros. E não é preciso dinheiro, mas sim alguns incentivos. O único que têm é uma compensação nas propinas, no valor máximo do ordenado mínimo e têm de ter dois anos de bombeiro. De resto, não tem mais nenhum, é só o amor à causa, que se tem vindo a perder. No passado, ser bombeiro passava de pais para filhos, tios para sobrinhos … agora já não se verifica isso. de uma forma lenta vai-se perdendo e isso tem reflexos no voluntariado”, sublinha.


Já no final da conversa, e retomando a condecoração proposta conjuntamente pela Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras e da Federação dos Bombeiros do Distrito do Porto, Júlio Pereira frisa que a condecoração é de “todos aqueles que ao longo da carreira (que terminará em breve, porque só podemos estar no ativo ate aos 65 anos) foram a minha referência como comandantes; dos colegas que começaram comigo quando tinha 17 anos, na minha recruta; de todos aqueles bombeiros com quem aprendi muito durante a minha vida de bombeiro; e de toda minha família, que este privada de muitos momentos da minha companhia. Portanto, é um bocadinho deles também”, termina.


Jornal A Verdade

Sem comentários:

Enviar um comentário