Não Somos Heróis...Mas Também Não Somos Carne para Canhão - VIDA DE BOMBEIRO

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sábado, 21 de agosto de 2021

Não Somos Heróis...Mas Também Não Somos Carne para Canhão

 


Não somos heróis... mas também não somos carne para canhão


Este desabafo não é uma resposta à menina Laura que podia ser minha filha, e que esta semana, como muitos milhares, perdeu alguns dos seus haveres e da sua história. Não é em defesa da Proteção Civil que, apesar de tudo tem tido uma evolução satisfatória em alguns dos seus setores e tem nos Postos de Comando destes incêndios elementos de Comando extremamente competentes e experientes para dar o melhor de si. Não é em defesa das políticas, porque dessas não há defesa... há julgamento no momento certo e mudança de agentes quando o Povo assim o quiser.

Este texto é na defesa dos meus camaradas que todos os dias correm monte e estrada e das milhares de mulheres e homens que comem pó e fumo para salvar o que não lhes pertence, e que não dizem não a mais uma missão, atrás de outra, mesmo que as pernas falhem e o cansaço os queira vencer.

Também eu estive seis dias fora de casa em prevenção num Distrito bem longe do meu, e muito mais longe do Algarve ou do Alentejo, e não imaginam muitos especialistas das redes sociais o quanto nos apetecia a todos os 30 do meu grupo de combate, saltar para os velhos carros, fazer 10 horas de asfalto e apoiar as populações de Castro Marim e Odemira bem como render os nossos camaradas para poderem tomar um banho, comer qualquer coisa ou descansar um pouco.

Mas não o fizemos porque há aí uma “Proteção Civil” que não nos mandou, que não nos deu a ordem, e que não nos deixou fazer o que mais amamos... socorrer o próximo. Desenganem-se pois se pensam assim, porque para além destes locais há um País no seu todo que tem de ser salvaguardado e não se pode pôr a carne toda no assador, sob pena de todas as dezenas de ignições pelo País fora não serem controladas a tempo e se tornarem em dezenas de infernos como pudemos assistir em Outubro de 2017.

Há falta de uma política de rescaldos consistente? Há. Há recursos materiais obsoletos e veículos de museu a combater que não correspondem às necessidades? Há. Há sobreposição de agentes a fazer o mesmo trabalho? Há. Há graves falhas a montante do combate que condicionam o mesmo? Há. Há Câmaras Municipais que não se lembram que têm Bombeiros para apoiar e equipar e logística para planear? Há. Há tanto a mudar no pós 2017... pós 2003... pós tanta coisa que se passa ciclicamente e quem de direito não o quer ver? Há certamente. Há elementos no Comando de alguns Corpos de Bombeiros com pouca experiência e conhecimento científico para responder a estes eventos? Há... cada vez menos. Há gente competente e conhecedora desta realidade e com capacidade de resolver rápido o que poderia levar semanas na Proteção Civil? Há... cada vez mais.

O que não há é uma verdadeira CULTURA DE SEGURANÇA nas populações, muito por culpa delas mas em especial por culpa de quem não implementa essa formação e esses ensinamentos desde pequenos, que não percebe que os incêndios se combatem nas “não ignições” e se resolvem mais rápido quando TODOS tratarmos das nossas matas, dos espaços à volta das casas, das aldeias, dos lugares e de tudo o resto.

Este monstro, do qual muitas vezes também temos medo e o qual enfrentamos vezes sem conta sem ter a noção do que ele é capaz, já ceifou a vida a dezenas de camaradas nestes últimos anos e deixou uma dor imensa a cada vez que fazemos chorar as nossas sirenes ao despedirmo-nos de cada um. Há que perceber que haverá sempre locais onde não chegaremos, pois ao mesmo tempo há dezenas de pessoas a chamar-nos e somos poucos para gerir o que é mais importante... SALVAR PESSOAS, SALVAR ANIMAIS, SALVAR BENS e criar as condições para resolver os incêndios em segurança.

A energia libertada por centenas de metros de frente de incêndio não se apaga muitas vezes, porque tal é impossível, e estes mega incêndios irão continuar a ceifar matos, culturas, casas e projetos de vida se não se fizer o que tem de ser feito a montante. Pelo Governo, pelas Câmaras Municipais e pelas pessoas a cuidar do que é seu.

Percebemos que não é fácil para quem se vê a perder os seus bens entender que alguns bombeiros estão ali perto “sem fazer nada”, mas muitas vezes estamos posicionados num local para direcionar os fogos para zonas em que seja possível aproveitar janelas de oportunidade para os resolver, com menos desgaste físico (pois é preciso durante horas manter a prontidão), em pontos de ancoragem que evitem ou diminuam a probabilidade de reacendimentos, e com menos risco... pois os nossos NÃO NOS QUEREM PERDER.

A todos os camaradas de todos os Agentes de Proteção e Socorro, o meu reconhecimento por tudo o que fazem por estas gentes que muitas vezes nos batem palmas, mas muitas mais nos apontam o dedo por não perceberem o que fazemos, porque fazemos e as estratégias que estão por trás destas decisões. E para finalizar, muita força para continuar a executar a missão, neste ano que ainda quase não começou e que provavelmente terá um Setembro e Outubro ainda mais negros. NÓS ESTAREMOS CÁ DE QUALQUER FORMA.


Comandante António Amaral

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