Desabafo: "Simplesmente Triste, Simplesmente Vergonhoso" - VIDA DE BOMBEIRO

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Desabafo: "Simplesmente Triste, Simplesmente Vergonhoso"

 


Bombeiros de Portugal.

De uma vez por todas, devemos saber para onde vamos e o que pretendem desta “mão-de-obra barata” que diariamente está ao serviço das populações mas que é permanentemente ignorada e mal tratada.


No ano de 2005, na altura o ministro da administração interna e hoje primeiro-ministro, meteu na cabeça que podia viver na área da protecção civil sem os Bombeiros, (e ainda não lhe passou). Foram sendo retiradas competências criadas novas estruturas, remodeladas e adaptadas outras e alteradas “leis”, que sistematicamente desautorizaram comandos e relevaram para segundo, ou terceiro plano os Bombeiros deste país.


Em data não muito distante da que nos encontramos fomos a muito custo incluídos num dossier preparado por mais uma entidade afecta à defesa da floresta contra incêndios a tão “famosa” AGIF e mais uma vez muito subtilmente os Bombeiros foram preteridos na sua competência e anarquicamente foram introduzidas condições de actuação e de operacionalidade, dando a entender que mais uma vez não seriamos necessários (pelo menos nos moldes em vigor), para estarmos na linha da frente no combate a este flagelo que são os incêndios florestais (para os mais modernos incêndios rurais). 


Claro que todas estas ideias não passam de uma leitura enviesada dos “famosos” relatórios produzidos em 2017 que tentavam explicar o inexplicável e que conseguiram no mesmo parágrafo diagnosticar a doença e passar o receituário e ainda dizer uma coisa e o seu contrário como que a dizer “não temos a certeza do que dizemos nem sabemos se assim é”, mas, está dito está dito e escrito.

E a pregunta é:

Somos ou não somos necessários e em que moldes?


Todos os anos existe uma grande incerteza e a incapacidade de, olhos nos olhos nos dizerem o que pretendem de nós.


Mas claro quando chega a hora, lá estamos nós a troco de uns míseros soldos e de perna aberta a sermos mal tratados e responsabilizados sempre que algo corre menos bem, e a sermos quase sempre manipulados como de simples marionetas se tratasse e sempre da forma que “eles” entendem.


Mas tudo isto tem uma razão de ser.


Nos últimos tempos, temos assistido a um baixar de braços por parte dos nossos responsáveis e quando digo responsáveis refiro-me a todos desde a LBP até ao Bombeiro de 3a passando pelos dirigentes e pelos comandos, que muitos deles ainda não sabem muito bem o que andam a fazer, e para que lado querem cair, sempre com medo de que uma qualquer palavra ou atitude possa ser impedimento para um qualquer cargo ou tacho que se possa perspectivar.


Nada mais actual que esta situação de descontrolo que se verifica na gestão da Pandemia pelo SARS- COV 2, quer pela vertente política, social e económica, quer pela vertente sanitária e de saúde pública.


Comparando esta situação dramática com um grande incêndio florestal (rural para os mais evoluídos) temos aqui o que se pode chamar um TO (teatro de Operações) complexo.


Como qualquer TO este também deve assentar no sistema de comando único em que a cada momento, SÓ existe um único elemento a comandar, que é denominado como COS (Comandante de Operações de Socorro).


Numa situação de incêndio florestal e caso a situação passe de conclusão a resolução, segue-se todo um processo de consolidação e rescaldo que é sempre orientado pelo tal COS, estando assim a responsabilidade de toda a operação sobre os seus ombros.


Nesta pandemia não se estão a aplicar as mesmas regras dos TO complexos como está definido no SGO (Sistema de Gestão Operações) e tão pouco está a ser seguido cabalmente o instituído na lei de bases da protecção civil, pois basta ver que muitos responsáveis deste país não sabem as responsabilidades e competências que lhe estão adstritas, bem como as ferramentas que certos documentos colocam à sua disposição.


Vamos então usar neste texto uma pequena analogia:

No início da pandemia, mais uma vez os Bombeiros foram considerados com dispensáveis, para o transporte e socorro de vítimas positivas para a COVID-19 ou até mesmo suspeitos. Claro que foi sol de pouca dura e hoje vê-se que estavam completamente errados. Mais uma vez se verificou que somos peça importante e que não devemos ser preteridos em fase de planeamento.


Ao fim de poucos meses de pandemia, alguém entendeu que a situação estaria controlada e logo se aliviaram as medidas de prevenção, o que se apelidou de desconfinamento, tendo sido desmobilizados meios e canceladas medidas, o que motivou (como se denomina nos incêndios rurais) muitas “reactivações” e “reacendimentos”, entenda-se, muitos infectados, muitos mortos, muitas cadeias de transmissão que não foram interrompidas entre muitas outras situações que por vezes identificamos e comparamos com o habitualmente observado em países do 3o mundo, (claro que nós continuamos com a mania que somos do primeiro).


Neste momento existem várias frentes activas de transmissibilidade espalhadas por todo o território nacional onde já existem falta de meios de combate á pandemia, provocando um continuar de propagações sem controlo e com consequências devastadoras.


As medidas e os meios de combate à pandemia estão a ser insuficientes tal como por vezes acontece nos TO de incêndios rurais mais complexos.


O comandamento desta operação não assenta num só “comandante” nem num só posto de comando onde as ordens, as tomadas de posição e as regras a cumprir daí são emanadas. Esta situação verifica-se a todos os níveis desde o nível municipal ao nível nacional.


Estamos perante uma situação em que todos falam do que sabem e do que não sabem, em que os escassos meios existentes começa a ser rateados e a ser utilizados em regime de primeira necessidade, o que leva a decisões difíceis como as de quem vive e de quem morre.


O que se espera para os próximos tempos não é nada de bom, as pessoas continuam a morrer e a ser infectadas e as respostas são cada vez mais frágeis, pelo que se entende que as políticas de saúde e de segurança pública adoptadas nos últimos anos não foram nem são as mais adequadas, tal como as referentes à defesa da floresta contra incêndios e às de protecção civil.


Espero que tudo possa passar rapidamente à fase de rescaldo e a ocorrência seja dada como terminada, podendo assim regressar a calma desejada a todos os operacionais.


Espero também que o COS, seja ele qual for, não seja incriminado por falta de planeamento nem de apresentação atempada do PEA (Plano Estratégico de Acção) e também pela tomada de decisões atempadas.

Juntos seremos mais fortes.


Neves Marques, Comdt.QH Bombeiros Voluntários de Ansião

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