“Teremos de Decidir em Relação a Pessoas que Vão ficar Dias em Isolamento à Espera da Morte” - VIDA DE BOMBEIRO

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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

“Teremos de Decidir em Relação a Pessoas que Vão ficar Dias em Isolamento à Espera da Morte”

 


Em entrevista à Renascença, o médico especialista em situações de catástrofe afirma que, perante o avolumar de casos nos cuidados intensivos, há decisões dramáticas que vão ter de ser tomadas em breve se o número de infeções diárias não baixar. Gustavo Carona diz ainda que a rutura da capacidade dos hospitais já está a acontecer.


Gustavo Carona, médico intensivista e anestesista do Hospital Pedro Hispano em Matosinhos, está habituado a lidar com situações em que a vida e a morte se decide em poucos instantes, não fosse ele tarimbado em situações de catástrofe, com passagens em mais de uma dezena de missões humanitárias em países como Iraque, Síria, Paquistão, Afeganistão, República Centro-Africana ou Congo. Mas mesmo com este histórico, é ele mesmo que confessa que nunca "viveu algo tão intenso como esta experiência". Ela tem um nome: Covid-19. E tomou-lhe conta de quase todos os minutos nos últimos nove meses.


Aos 40 anos, este clínico teme que esteja para breve o momento em que se terá de começar a tomar decisões sobre quem tratar e salvar, e em relação à chegada desse momento intensifica o tom: "A maior parte das pessoas não compreende o que é sair do seu local de trabalho com as lágrimas nos olhos, e sofrer com as suas decisões, a remoê-las e a revisitar esses processos dolorosos para todo o sempre."

Foi através das redes sociais que este médico chegou a 726 mil portugueses, através de um vídeo na rede social Instagram em que alertava para a responsabilidade individual de cada um no combate à pandemia. Muitos reagiram ao alerta, rotulando-o de alarmista. Ele defende-se e responde que é "realista". Afirma ainda que não sabe como se alerta para um perigo sem causar alarme.


Em relação à dimensão do fenómeno que estamos a viver, combate com todas as forças os que apelida de negacionistas ou os que relativizam a Covid chamando-lhe "gripe", e deixa um aviso: "Já não temos a capacidade de dar o melhor tratamento a todos os doentes."


Gostava que começasse por relatar como é que é um dia-tipo no serviço em que trabalha no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, agora que os casos de Covid-19 no Norte do país dispararam?



É cada vez mais difícil. À medida que vamos ganhando responsabilidade temos que ter uma visão daquilo que é o nosso trabalho nos cuidados intensivos, mas também em relação àqueles que estão prestes a precisar de cuidados intensivos, e ainda os que vão aparecendo no serviço de urgência. Temos de ter uma visão 360 graus em relação aos doentes críticos e aos potencialmente críticos, e eles não param de crescer.


A nossa dificuldade é não só a de gerir as nossas tarefas clínicas, mas também a ansiedade de nunca prever o dia de amanhã. E perceber que, cada vez mais, estamos limitados em termos de recursos humanos e de espaço físico para dar resposta às necessidades. Isso causa em nós um acrescento de stress enormíssimo.


Temos de fazer o nosso trabalho, e ensinar os mais novos que, entretanto, se vão adaptando para reforçar as equipas. Temos ainda de reaprender protocolos e formas de atuação quer do ponto de vista clínico, quer do ponto de vista da organização, que nos exigem uma concentração e uma resiliência emotiva muito grande.


E se hoje já é tão difícil de gerir o que temos, como é que vai ser amanhã, depois de amanhã e para a semana?


O que encontra no hospital piora a cada dia que passa?


Está sempre a piorar..


Há a sensação que depois da primeira vaga e da promessa de que o sistema de saúde se estava a preparar para a segunda vaga, que todos sabiam que ia chegar, houve muito que ficou por fazer. Até há ventiladores que não funcionam. Esta é a perceção que tem no local em que trabalha?


A maioria destas discussões públicas estão contaminadas por uma enormíssima falta de pragmatismo. Se é verdade que mais ventiladores nos permitiriam mais capacidade de resposta, e se há coisa com que não queremos falhar é com o material, nós percebemos que o afunilamento da nossa capacidade de resposta a esta pandemia e as suas consequências diretas e indiretas nunca seriam os ventiladores, seriam sempre os recursos humanos, que não se conseguem exponenciar, nem aumentar da noite para o dia.


"Se hoje já é tão difícil de gerir o que temos, como é que vai ser amanhã, depois de amanhã e para a semana?"

À semelhança do que acontece noutros temas, há muita ignorância médica nessas opiniões que tentam reduzir a nossa capacidade de resposta ao número de camas, ao número de ventiladores, ou a uma aplicação. Isto contamina aquilo que é o mais importante, que é a nossa resposta em termos de sociedade civil. Poderíamos sempre ter feito mais, é impossível não dizer que podíamos ter feito mais...


Portanto não é o material que está a faltar...


Na minha opinião e na minha experiência não. E nos hospitais do Grande Porto − com quem vou tendo algum contacto e do que vou vendo na televisão de pessoas que têm a mesma visão do terreno que eu tenho − não falha o material. Isto falha nos recursos humanos. É impossível o mesmo número de pessoas tratar dez vezes mais doentes. É impossível. Nunca estaríamos preparados para isto.


Estamos perante um desafio que quase que duplica as necessidades dos serviços de saúde a variadíssimos níveis. Nos cuidados intensivos estamos à volta dos 400 doentes Covid positivo. Esta é a capacidade de cuidados intensivos prévia à pandemia. E todos os outros doentes? Como é que nós temos capacidade, e qualidade, e certificação de que não cometemos erros e de que as pessoas mais competentes estão a supervisionar os atos mais diferenciados? É impossível. O Serviço Nacional de Saúde de nenhum país nunca estaria preparado para uma coisa de uma dimensão que é imprevisível, e que nunca existiu na nossa história recente.


Na última semana tivemos uma média de cinco mil casos por dia, há 378 internados em Unidade de Cuidados Intensivos, um crescimento em relação a 1 de setembro de quase 800%, e o número internamentos multiplicou-se por sete desde essa mesma altura. Na sua opinião as medidas são suficientemente robustas para fazer face à gravidade da situação?


Não gosto muito de comentar porque rapidamente entramos na política, que é um campo que me afasto com muita vontade...


Mas não lhe pedia uma opinião política, apenas médica...


Mas neste caso nunca é médica, a saúde pública interfere com a sociedade civil e com os seus comportamentos.


O que me parece é que, tal como muitos outros temas, não são as regras que estão bem ou mal feitas. É a sua comunicação, aplicabilidade e fiscalização. É o que me parece que falhou nos últimos dois meses, em que começámos a perceber que estávamos a ir de frente contra um comboio em andamento. Esta forma de passarmos os números às pessoas, três mil, quatro mil, cinco mil, anestesia-as completamente, torna-as indiferentes e incapazes de absorver a mensagem.

Falhámos na comunicação. Temos de saber comunicar com as crianças, com os adolescentes, com os senhores que estão a ver futebol no café, temos de pôr os influencers, os jogadores de futebol, a comunicar, porque estas pessoas não veem os telejornais e não absorvem a mensagem principal.


Não podemos estar em contacto com tantas pessoas, temos de usar máscara sempre que possível, estar afastados sempre que possível, temos de nos autoisolar à mínima dúvida de que tenhamos sintomas e cumprir as quarentenas. Tudo isto está sabido desde março, mas ainda estamos a falhar no básico. Estamos sempre à espera que os telejornais nos deem resposta de medicamentos, da vacina, do número de ventiladores, da aplicação, tudo temas que gostamos muito de discutir, mas estamos a falhar o básico, perceber que o nosso comportamento individual está a colocar vidas em risco. Está a pôr hospitais no colapso. É isso que está a faltar.


"Esta forma de passarmos os números às pessoas, três mil, quatro mil, cinco mil, anestesia-as completamente, torna-as indiferentes e incapazes de absorver a mensagem"

Tem publicado vários textos nos jornais nacionais em que me parece que subjaz a ideia de que somos nós, cada um de nós individualmente, os responsáveis a 100% pelo evoluir da pandemia. É mesmo isso que pensa?


Sem dúvida, não há margem para dúvida de que é o nosso comportamento. É a dificuldade de cruzarmos dois componentes da nossa vida que são essenciais: um é o trabalho, e no trabalho entenda-se as escolas; e o outro a nossa vida lúdica, social que é imprescindível.


Há uns mínimos que são imprescindíveis para a nossa sanidade mental. Como é que conjugamos isto com o cumprimento de regras e a diminuição de contactos de risco, é um desafio enormíssimo e certamente que cada um terá a sua resposta individual.


Há que consciencializar para que as pessoas percebam, sobretudo os mais novos que os seus comportamentos estão a pôr em risco a vida dos seus pais e dos seus avós. Se perceberem isto − como perceberam na primeira vaga, porque tinham medo − vamos reduzir os números muito rapidamente.


Há muito ruído na comunicação, a política tem sempre um lado partidário e facioso que é desacreditado e contestado pelos que são opostos. Falta a opinião de técnicos e de cientistas que seja mais capaz de entrar na casa das pessoas.


Acha que todos podemos tomar os mesmos cuidados sanitários independentemente da classe social e o tipo de trabalho que desempenhamos? Falo dos precários, por exemplo...


Pois, isto atinge tantas proporções, tantas perspetivas, que é difícil ter imaginação para compreender o desafio individual que cada pessoa está a passar para compreender e cumprir a sua quota parte de responsabilidade. Há pessoas que têm mais capacidade de se confinar, de estar em teletrabalho e de se fecharem na sua bolha. Este último, é um conceito que temos de interiorizar nas nossas cabeças. Há outras pessoas que pelo seu trabalho, pela necessidade de utilizarem os transportes públicos, pelo que são as formas de subsistência têm muita dificuldade em cumprir as regras que são exigidas. Não tenho resposta para metade dos casos, mas acredito piamente que informados e consciencializados tínhamos melhores resultados do que estamos a ter agora.


O crescimento do número de mortes já é reflexo da menor capacidade de atendimento nos hospitais?


Acho que ainda não, mas vamos ter agora. Essa pergunta tem uma resposta Covid e outra não Covid. Rapidamente percebemos que o crescimento dos números Covid criam um desafio ao nível hospitalar que é de tal forma absorvente que rouba espaço e rouba recursos a outras práticas médicas. O número de mortos Covid expressa apenas a evolução natural da doença, há muitas pessoas que não vão sobreviver a esta doença uma vez infetadas. Acho que a capacidade dos hospitais está, em muitos casos, ultrapassada.


É inevitável que o que aconteceu nos outros meses vai acontecer agora com maior expressão ainda, vamos ter uma elevação dos números de mortalidade quer Covid, quer não Covid.


Começa a falar-se constantemente da possibilidade de rutura no SNS. O que quer dizer isso em concreto?


A rutura não é um fenómeno de tudo ou nada. As pessoas têm alguma dificuldade em absorver este conceito. Na minha humilde opinião, na minha realidade hospitalar e naquela que tenho mais contacto de proximidade do Grande Porto e do Norte, essa rutura já aconteceu. Já não temos a capacidade de dar o melhor tratamento a todos os doentes.


Isso já aconteceu há algum tempo. A rutura não é um hospital que colapsa e fica sem paredes. É um fenómeno progressivo, cumulativo. Começamos a perceber que a dimensão do desafio, obriga-nos a ajustar de alguma forma a nossa intervenção.


A unidade em que trabalho está a preparar-se para estar a 300% da sua capacidade. Isto é rutura. Passar aos 100% já é rutura.


Mas em termos práticos o que muda quando isso acontece...


Temos de simplificar a nossa atuação, somos menos pedagógicos em relação aos médicos mais novos. Conseguimos esmiuçar os nossos trabalhos para conseguir termos o menor número de pessoas possível para que estejamos desmultiplicados em outras zonas que não existiam previamente.


Acha que as medidas de combate à pandemia têm sido explicadas com rigor e lógica científica? Não lhe parece que para o cidadão é difícil de perceber que possamos estar seis à mesa num restaurante, mas caso se trate de uma celebração só podem estar cinco?


Há lógica científica, e lógica comparativa dos grandes eventos que levantaram muitas questões, e pessoalmente acho que não estão errados, mas são fracamente anti-pedagógicos: o 1º de maio, Fátima, Fórmula 1.


"A unidade em que trabalho está a preparar-se para estar a 300% da sua capacidade. Isto é rutura. Passar aos 100% já é rutura."

Não me parece que sejam um problema de saúde pública muito grande, mas são francamente anti-pedagógicos, leva a que os comportamentos individuais das pessoas se tornem mais confusos. Não conseguimos interiorizar uma reflexão que não compreendemos. Acredito que cruze com outra urgência, outra crise, para não exterminar alguns negócios que estão a passar dificuldades.


O que algumas pessoas não têm a capacidade de compreender é que a crise económica e social está à proporção do desafio da saúde. Quanto pior estiver o controlo da pandemia, mais dificuldade vamos ter em gerir alguns negócios e continuar algumas atividades económicas, isto sustentado naquilo que é a opinião de peritos e no que aconteceu em epidemia e pandemias.


Mas não podemos dizer o contrário: sem economia não há saúde pública nem combate à pandemia?



Os países que estão a dar melhor resposta de economia vs. pandemia são os países asiáticos, quer sejam autocracias, que obviamente são criticáveis do ponto de vista humanista, quer sejam democracias sólidas como Taiwan e a Coreia do Sul.


Conseguiram incutir o controlo da pandemia que lhes permitiu continuar a economia de forma quase intocada. O nosso problema é a entropia da nossa sociedade em que uns gritam para um lado e outros para o outro.


Temos dificuldade em respeitar a liderança, independentemente de concordarmos. A desorientação das pessoas em relação à atitude individual e coletiva faz com que tenhamos perdido o controlo da pandemia, quer por imposições do Governo, quer pelo aumento das mortes que teria sempre impacto nas atividades económicas.


Já disse que estamos perto do momento em que vamos ter de fazer escolhas entre doentes Covid e não Covid. Como serão feitas essas escolhas?


É sabido que a Ordem dos Médicos e a Sociedade de Cuidados Intensivos já emitiu um comunicado, nunca concretizando os critérios, mas balizando as perspetivas de interpretação que os médicos devem ter em conta para tomarem este tipo de decisões.


"Tenho vivido nos últimos tempos uma intensidade emotiva que não tem paralelo. Acho que a maior parte das pessoas não compreende o que é sair do seu local de trabalho com as lágrimas nos olhos, e sofrer com as suas decisões, a remoê-las e a revisitar esses processos dolorosos para todo o sempre."

Temos de gerir recursos e olhar para as pessoas no seu potencial de vida, isto tem a ver com a idade e com as doenças associadas, a reserva fisiológica e a capacidade funcional que as pessoas têm. É olhar para o doente com a gravidade da doença e o seu estado prévio e a sua possibilidade de a ultrapassar. É a forma mais democrática e humana de exercer medicina perante um desafio destes, é super-doloroso para quem o faz até porque aquilo que caracteriza esta doença é a sua lentidão. Se calhar não seria tão difícil tomar decisões que são de minutos. Teremos de decidir em relação a pessoas que ficam dias em isolamento no hospital à espera da sua morte, e isto tem uma dureza emocional para os profissionais de saúde que é muito difícil de explicar para quem não está dentro de um hospital.


Sabemos que a idade não será o único critério, haverá as comorbilidade, mas entre comorbilidades como se avaliará?


Isto é tudo menos uma ciência exata e não é possível de pôr numa folha de excel e encontrar um resultado. Será sempre uma manobra interpretativa do corpo clínico e sujeito a interpretações diferentes, por médicos diferentes. Isto sempre será assim, a medicina não é uma ciência exata que exclui o clínico da sua interpretação.


Que impacto terá nos médicos que tomam essas decisões e que ao contrário de si não são preparados para a medicina de catástrofe?


Eu confesso que tenho vivido nos últimos tempos uma intensidade emotiva que não tem paralelo. Acho que a maior parte das pessoas não compreende o que é sair do seu local de trabalho com as lágrimas nos olhos, e sofrer com as suas decisões, a remoê-las e a revisitar esses processos dolorosos para todo o sempre. Isto tem um impacto enormíssimo nas pessoas, sendo que também se aprende, também se vai calejando com a experiência.


É muito difícil construirmos uma relação com o doente e com a família e depois vermos as coisas a piorar e não termos capacidade de resposta. E isto acontecer múltiplas vezes. E pensar que noutras circunstâncias poderíamos ter capacidade de resposta. Isto é disruptivo e destruidor para muitas pessoas que encaram a medicina e os cuidados de saúde como uma profissão e uma paixão.


Tem várias experiências profissionais em cenários de guerra, e portanto emocionalmente muito duras. O que viveu nos últimos meses em Portugal no combate à Covid-19 assemelha-se a essas vivências ou superou?


Sempre que estive em cenários de guerra, entrei e saí como um elemento externo.


Somos pessoas feitas de afetos e eles constroem-se com o tempo e através da língua e do contacto, e, por mais, que tivesse empatia e ligações com os países e com os povos por onde já trabalhei, é completamente diferente sentir a angústia da minha família, dos meus amigos, dos pais dos meus amigos, e que muitos já estiveram, estão ou estarão no hospital.


Tenho recebido contactos de pessoas a pedir-me ajuda sobre tudo o que se está a passar na sociedade e isto acrescenta uma carga emotiva que mexe com as emoções. Nunca vivi algo tão intenso como esta experiência, mas vivo mais triste, tenho menos contactos, tenho mais responsabilidade, tenho medo de ficar infetado pelas responsabilidades que tenho.


É toda esta perceção global que é incomparável com todos os cenários de guerra em que já estive


Em março escreveu que a Covid-19 “vai destruir a economia de uma forma que não tem precedentes. Vão ser empresas a cair como baralho de cartas. Desemprego, pobreza, fome, agitação social. Os ricos vão ficar menos ricos, os médios vão aguentar no limite, os pobres vão para a rua. E os que estão na rua vão morrer à fome.” Tem dito que tem um discurso realista e não alarmista. Mas não acha que o resultado direto do que diz é o aumento do medo sobretudo dos mais idosos, e que muitos deixem, por exemplo, de procurar o SNS para tratamentos ou consultas de que precisam efetivamente?


Em relação às minhas palavras escritas, bem ou mal foi o que me pareceu mais correto e mais sensato à luz do que estava a acontecer. Nessa altura estávamos em pré-pandemia. Ainda nem sequer tínhamos contacto com o que viríamos a encontrar.


Se na primeira vaga me pareceu que o mais sensato era transmitir calma e esperança que existiu entre os profissionais, nesta luta épica que estamos a viver há oito ou nove meses, neste momento, parece-me que a comunicação está a falhar nas emoções. Precisamos de explicar as pessoas o quão grave é, não levarmos isto a sério.


Sei que isto pode ter um efeito contraproducente. Não há nenhuma forma de alarmar sem ser alarmista. Não sei como se pode avisar as pessoas de que o vulcão vai explodir com tranquilidade e sem causar alarme. Na minha opinião, neste momento, é importante que as pessoas percebam que estamos perante um desafio histórico.


Gosto de fazer com que as pessoas olhem à sua volta e contribuam nas suas ações individuais para o bem coletivo. Neste momento, parece-me que há um facilitismo e não encarar o problema de frente, torna-o maior. Mais vale viver em verdade, e fazer parte da solução, do que fingir e ser parte do problema.


Nélson Olim, cirurgião especialista em medicina de catástrofe, disse recentemente que "um teste positivo não significa um indivíduo doente", e perguntou "dos testes positivos quantas pessoas têm sintomas, na verdade?” Depois diz que "estes números existem e podiam ser transmitidos às pessoas e retirar um pouco do pânico e do medo que está instalado". Em vez disso, argumentou que se adotou o discurso do medo, que é amplificado pelos meios de comunicação social". O que pensa desta visão?


Está a pedir-me para confrontar com as ideias de uma pessoa que eu sei quem é. Respeito o seu percurso na Cruz Vermelha e na OMS, mas é uma pessoa que está sustentada na sua ignorância. Poderemos ver isto de outros prismas, no desafio internacional que isto causa. Mas esse tipo de discurso em que os testes positivos não interessam para nada, e que estamos a contar constipações, faz com que estejamos uma situação de catástrofe, que estejam a morrer cada vez mais pessoas por dia, e os serviços de saúde estejam estrangulados pela necessidade de esmiuçar a capacidade de recursos humanos.


"É ridículo comparar a Covid-19 ao que foram as gripes sazonais. Isso é desprovido de nexo e sustentado numa total incompreensão no que é a realidade dos hospitais."

Respeito todas as opiniões de pessoas ligadas à medicina que querem o bem comum, mas deveriam ter o cuidado de falar sobre o que sabem Ele está desligado do desafio e quando o estamos, não temos a capacidade de compreender.


O mesmo médico argumenta com os números da gripe em vários anos que fizeram milhares de mortes em Portugal, e fala da rutura dos hospitais que nesta altura do ano sempre acontece….


Isso é absolutamente ridículo, isso roça o cómico. Apesar de todas as medidas de proteção e de afastamento, de confinamentos, de máscaras, só à escala da minha experiência, que é pequena, já tivemos pessoas ligadas nos UCI aos ventiladores com 20 e tal anos, com 30 tenho agora um, muitas com 40 anos, e com 50 anos já perdi a conta.


Com a gripe, mesmo a gripe A, a H1N1, às vezes tenho três ou quatro pessoas por ano nos cuidados intensivos, sendo que raramente têm menos do que 50 anos.


Neste momento, entre intensivos e cuidados intermédios tenho 30 doentes. É ridículo comparar a Covid-19 ao que foram as gripes sazonais. Isso é desprovido de nexo e sustentado numa total incompreensão no que é a realidade dos hospitais.


Fonte: Renascença

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