Será Que Vale a Pena Continuar? - VIDA DE BOMBEIRO

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sábado, 6 de julho de 2019

Será Que Vale a Pena Continuar?


Será que vale a pena continuar?

Ao fim de alguns (já largos) anos ligado à emergência médica, ocorreu-me varias vezes esta questão…

Era eu um puto, que já tinha feito todos os cursos e mais alguns de socorrismo da CVP, quando por volta de 1987 no seguimento da medicalização do sistema, foi-me dada a oportunidade de fazer o que na altura se denominava de curso de Tripulante de Ambulância de Emergência Médica (TAEM), em conjunto com um grupo de pessoas, que me acompanharam nesta vida.

Após o curso e sendo o primeiro TAEM do meu corpo de Bombeiros, foi um esforço enorme para que existisse um serviço que garantisse aquilo que eram valores que se apreendiam, que para além da técnica visavam o respeito pelo doente, e a luta que era fundamental na diminuição do sofrimento e na redução da morte evitável.

Apesar de na altura me ter sido imposto o cumprimento do serviço militar obrigatório, graças a um comando da unidade a que pertencia, e à proximidade geográfica da unidade militar com a corporação de Bombeiros a que pertencia, consegui manter a minha atividade de TAEM no corpo de bombeiros (CB). 

Foi com agrado que em 1990 recebi um telefonema do INEM a convidar-me para fazer parte de um projeto, integrar a primeira ambulância "medicalizada" na dependência direta do INEM (uma vez que o que havia era uma ambulância da Cruz Vermelha que fazia este serviço), e do SMER (Serviço Móvel de Emergência e Reanimação), percursor do que hoje denominamos de VMER, em que inicialmente existia em Lisboa e Amadora, convite que com agrado aceitei, e que aliás pode-se dizer-se que contribuiu e muito para o que hoje sei e faço.

Este serviço agora iniciado eram as suas tripulações compostas por TAEM pertencentes aos corpos de bombeiros da área, que fizeram formação especifica para o efeito, e assim se manteve durante vários anos. Neste início esta ambulância funcionava das 8.00 às 20.00horas,  iniciando-se mais tarde uma outra que funcionava durante 24 horas, sendo que a da CVP  continuava a assegurar as 24 horas, estas ambulâncias inicialmente eram compostas por uma tripulação de 3 TAEM e um Médico, sendo que posteriormente deixaram de ter médico a bordo. 

Esta parceria permitiu aos TAEM e aos Médicos uma troca de conhecimentos entre ambos que aliada a experiência de cada um, foi o que na prática permitiu o crescimento e desenvolvimento da emergência pré-hospitalar neste país, uma vez que estes TAEM que também pertenciam aos CB´s da áreas acabaram por levar este conhecimento e hábitos agora adquiridos para os seus quartéis, onde o colocavam em prática, e o que era excecionalmente visto como carregador de doentes (maqueiro) passou a ser reconhecido como um serviço de excelência, com uma melhoria qualitativa do socorro prestado, não por todos, mas por uma grande maioria do corpos de bombeiros.

Já nesta altura e em conjunto com alguns colegas onde destaco o Jorge Fernandes e o Elísio de Oliveira, elaborou-se o primeiro manual, que seria o percursor do Tripulante de Ambulância de Transporte (TAT), seguindo o exemplo do Paulo Amaral, Pedro Coelho e o Luiz Coelho, que já à algum tempo tinham nos CB de Agualva-Cacém um projeto de formação chamado os “Cobrinhas”, em que os TAEM, preparavam alguns bombeiros para os auxiliarem no desempenho das suas funções, partilhando-se assim o saber e o conhecimento e contribuindo-se assim para uma comunidade bombeira mais capaz e melhor preparada, despertando em muito interesse por ir mais além na emergência médica pré-hospitalar. Assim, fizemos os primeiros cursos TAT, no CB da Amadora e no CB de Loures, com uma duração de 70 horas, isto tudo muito antes de sair o primeiro regulamento de transporte de doentes..

É de recordar que na altura somente eram ministrados os cursos essenciais de socorrismo, o curso de adaptação à ambulância que eram ministrados pela CVP aos CB´s, e o TAEM ministrado pelo INEM única e exclusivamente às corporações de bombeiros que tinham ambulância INEM.

Em 1993 com a publicação do primeiro regulamento de transporte de doentes (portaria 439/93) é criada a figura do Tripulante de Ambulância de Transporte em que era um curso de 35 horas e o Tripulante de Ambulância de Socorro com 175 horas, continuando a ser o mesmo que o TAEM que existia. No entanto apesar de esta portaria ter sido publicada esta foi praticamente ignorada durante os anos seguintes, uma vez que não havia oferta formativa para esta área a não ser o INEM e mais tarde, em 1997, com a ENB.

O diploma determinava ainda que as ambulâncias saiam com três TAS, o que na prática raramente acontecia exceto nas ambulâncias do CODU, ou seja raramente tal foi cumprido, sem que dai alguma vez resultassem sanções, até porque o acesso à formação TAS era difícil devido à incapacidade  de resposta do INEM, algo que melhorou a partir de 1997 com a ENB.

Assim se continua, em 1994 é realizado um primeiro curso de formadores para bombeiros no INEM, mas que não foi dado seguimento, quando em 1994-1995, eu em conjunto com vários colegas fomos convidados a fazer parte de um modelo formativo que visava validar e aumentar as nossas competências na área da emergência médica, bem como permitir que fossemos formadores  do DFEM (departamento de  formação em emergência médica do INEM) sendo na altura o Diretor dos Serviços Médicos o Dr. Carlos Martins e a Drª Elsa Mourão a responsável pelo departamento. Esta formação que tinha como objetivo criar os futuros técnicos de emergência  foi ministrada por médicos e pelo enfermeiro Artur Batuca e durou vários meses em que foi concluída com estagio hospitalar em varias valências bem como incluiu também o atendimento na central da emergência, curso esse em que carinhosamente os nossos colegas nos apelidaram de “SHUPER´s TAS”, formação que lamentavelmente  não foi alargada aos restantes elementos, apesar do esforço que foi feito e hoje completamente ignorada pelos que lá andam.

Esta formação permitiu consolidar o conhecimento adquirido e adquirir mais, o que levou a uma melhoria significativa do serviço que prestava-mos, nomeadamente na resposta a situações de: Overdoses, Hipoglicemias, além de que estas equipas já realizavam acessos venosos, medicação, ECG, entre outros procedimentos que permitiu que muitos casos  eram resolvidos por estas equipas em muitos casos sem a intervenção da VMER, mantendo-se no entanto a permanente orientação e validação do que era feito na rua, pelo médico que se encontrava no CODU. A consequência disto foi uma redução das saídas de VMER, o que não sei se era esperado por alguns.

E assim se continuou, fez-se a primeira revisão do manual TAS, principalmente das Técnicas de remoção e imobilização, e em conjunto com os restantes colegas da formação, atualização também ignorada atualmente, atendendo ao que esta a ser realizado, e contribuímos para a implementação da maioria das VMER, em que o seu alargamento iniciou-se com as dos Hospitais de São Francisco Xavier de Cascais, posteriormente com a abertura dos CODU de Coimbra e Porto e assim sucessivamente.

Em 1996 sou convidado pelo Dr. Duarte Caldeira a integrar a Escola Nacional de Bombeiros (ENB) em resultado do primeiro curso de formadores TAT que foi ministrado na ENB por mim e pelo enfermeiro Luis Fernandes, convite que aceitei em 1997, integrando os quadros da escola precisamente com a função de desenvolver a formação da emergência pré-hospitalar nos Bombeiros, objetivo que creio ter sido alcançado. Assim, em 1997 formaram-se os primeiros formadores de TAT, com o objetivo de cada CB ter o seu, e iniciou-se o primeiro curso TAS ministrado na ENB, em que participaram vários elementos do INEM. 

Mais tarde fui buscar para dar continuidade a este projeto o Vitor Matos, Jorge Fernandes e Carlos Alves em conjunto com o Elísio Oliveira e Luiz Coelho que já se encontravam na escola, e posteriormente também com o Guilherme Isidro, e o Marco Martins. Esta equipa coordenada por mim permitiu uma verdadeira revolução da formação dos bombeiros ao nível quer da emergência pré-hospitalar quer no resgate de vítimas com o desenvolvimento do desencarceramento, curso da responsabilidade do Elísio Oliveira. É justo dizer que este avanço somente foi possível porque duas pessoas, o Dr. Duarte Caldeira e o Presidente seguinte Prof. Dr. Luciano Lourenço, acreditaram e defenderam este projeto.

Apesar na altura de estar na ENB , mas ainda fazia serviço na VMER de Lisboa e na ambulância ai existente, continuei o desenvolvimento quer do TAT quer do TAS, e recebemos em 2000 a primeira proposta de manual TAT do INEM, em que tivemos o cuidado de melhorar e publicar, alias era o único manual do INEM publicado, e continuou-se a desenvolver o manual TAS, no seio da ENB, e em conjunto coma Drª Teresa Pinto do INEM,. Graças a este trabalho curso TAS deixa de ser exclusivo do INEM, tendo sido ajustado em termos de conteúdos às atividade em emergência pré-hospitalar do bombeiros, e permitiu a muitos CB´s que apesar de não terem ambulância INEM acederem a esta formação, mudança que permitiu formar até 2013 cerca de 4000 novos TAS, contra os 1600 formados pelo INEM, e recertificar o efetivo existente.

Mas nem tudo foi um mar de rosas, em 1999, começa a surgir no INEM as primeiras tentativas de limitação da intervenção dos Tripulantes, que começou a sentir-se em Coimbra em que  num dos cursos de formação da VMER os tripulantes que iam integrar essas equipas viram-lhes recusada a participação no respetivo curso, exclusão essa motivada pelos enfermeiros que viram nestes uma ameaça ao seu lugar, o que levou a que eu fosse aos fins de semana dar a formação que faltava a estes, no entanto o pessoal aguentou-se, mais tarde, em 2003, altura em que abandonei o INEM de vez, e coincidente com a entrada da Direcção do Dr. Cunha Ribeiro, começa a agudizar-se esta situação, começando a ser mais expressiva esta tentativa de limitação, em que somente se mantiveram alguns TAS nas VMER, que os poucos que ficaram nas ambulâncias viram retirado todo o material com o qual trabalhávamos, ou seja , tudo o que correspondia a abordagem avançada foi retirado, passando a ser autenticas ambulâncias de transporte, situação que perdura até hoje, apesar dos que por lá andam pensarem de forma diferente.

Em 2007 sai um despacho do INEM, posto em prática por Dr. Nelson Pereira e Dr.ª  Isabel Santos, para os Hospitais, para que as tripulações fossem somente constituídas por médicos e enfermeiros, apesar do que se encontrava definido é que estas eram constituídas por um médico e um condutor que era enfermeiro ou tripulante, situação que demonstrou claramente qual o caminho do INEM, coincidente com o assumir de cargos dentro do INEM por enfermeiros, alias em substituição dos TAS mas também de alguns médicos e ignorando os enfermeiros            que ali trabalhavam como o Artur Batuca, entre outros, mostrando uma clara cedência aos lobies de alguns enfermeiros, que se tinham apoderado do INEM pela altura do EURO 2004, que ali se instalaram, e perante a inercia dos tripulantes que estavam no INEM obcecados com o  brilho do agora Amarelo das fardas e das ambulâncias, permitiram que cerca de 6 dezenas de técnicos vissem agora terminado o exercício de uma atividade que era o pilar do INEM, que mais do que um emprego, era uma missão, que cumpriram exemplarmente e que tinham sido estes a criar o INEM que conhecemos hoje, apesar deste atualmente não corresponder em nada ao passado, resta o saudosismo da proficuidade conseguida pela via da capacitação de competências, pela via da efetiva especialização.

O resultado está a vista, desde então o que se verificou foi a redução dos conteúdos dos cursos ministrados, o surgimento de modelos de formação desconexos das necessidades reais, cursos em que a alimentação do lobie era tanta que chegava a haver mais formadores que formandos, em que qualquer um era chamado a ser formador, bastando ter “cunha no DFEM” .  

Em 2012 pela mão da Diretora do Departamento de Formação, Dr.ª Helena  Lalanda de Castro é privatizada a formação, em que por surpresa (nenhuma) as primeiras escolas e seus formadores eram todos elementos ligados ao INEM (porque será) em que o INEM agora exige um curso de formadores chamado de “laboratório III”, com uma construção muito inferior ao que a ENB  já fazia para os seus formadores TAT, para se ministrar o TAS ignorando todos os que já a muito por aqui andavam , onde me incluo, mas que este curso era somente exigido para fora do INEM, porque os que mantinham ligados ao DFEM estes eram automaticamente reconhecidos, em que alguns, francamente muito deixam a desejar ao conhecimento e a ciência, alias pode-se dizer que os atuais modelos que todos conhecemos foram construídos ao nível do conhecimento destes, em que um curso que era uma referencia, passou a ser algo que somente existe para dizer que existe (porque será?!), situação que apesar dos avisos foi aceite pela Direção da ENB e que perdura te aos dias de hoje, apesar da insistência que este modelo somente serve números e não a qualidade, ou seja, a ENB que tinha uma formação de excelência é obrigada a adotar um modelo que nada serve, principalmente os interesses dos doentes.  

E assim o que se tinha conseguido evitar ao longo dos anos, a redução dos saberes e inerentes competências dos TAS, principalmente dos que pertenciam aos corpos de Bombeiros, foi conseguido, justificando desta forma a megalomania do INEM ter um serviço de ambulâncias próprio, que é insustentável e é na prática a duplicação de recursos existentes nos nos corpos de Bombeiros, na Cruz Vermelha, Associações de Socorros, e Empresas de Ambulâncias, creio que para alimentar lobis, principalmente de alguns enfermeiros e também, tristemente de alguns ditos TAE que por ali andavam.

Apesar disto em 2009, em conjunto com o STAE e representando a ANTEPH, com a direção do INEM presidida pelo Dr. Abilio Gomes, consegue-se dar os primeiros passos para a criação da figura do Técnico de Emergência Médica, modelo que deu origem ao atual TEPH, com o senão de o STAE, traindo o acordado, negoceia posteriormente com o Dr. Miguel Oliveira uma carreira interna do INEM, mas que também foram iludidos, excluindo-se aqueles que são a sustentabilidade do Sistema, como os TAS dos Bombeiros e da CVP, a maioria portanto. Repare-se que os TAS do INEM ora denominados TEPHs são uma minoria sem expressão de relevo no sistema.

No entanto ainda recentemente com o Dr. Paulo José Amado de Campos, começa-se a trabalhar quer no modelo formativo, currículo que elaborei a seu pedido sem quaisquer contrapartidas, acreditando que este era o caminho, procurando definir e clarificar o modelo de carreira e profissão, e em que mais uma vez vimos logradas à revelia deste a aprovação da carreira no âmbito da função publica, esquecendo-se todos os outros técnicos que suportam quotidianamente mais de 80% da assistência, transporte, e socorro de urgência e emergência pré-hospitalar.

O Dr. Paulo Campos sai do INEM, e mais uma vez todo o processo para, mantendo-se a ilusão dos que são funcionários do INEM que irão ser mais que os outros, mas que na prática nada são, uma vez que saindo do INEM  não serão mais que qualquer outro pela ausência de um regulamento profissional que abrangesse todos, ou seja, a ilusão do poder , deu-lhes foi um tiro pela culatra.

E assim chegamos aos dias de hoje, em que claramente se vive um sistema deficitário, em que os lobis continuam a travar o desenvolvimento da formação qualitativa dos Tripulantes (hoje pomposamente denominados de técnicos), com que alguns destes pactuam, graças a sua própria limitação intelectual e formativa, em que pensam que vestindo uma "camisola" (que no passado foi branca com uma estrela azul), que realmente era exemplo de competência e dedicação,  por uma nova que agora amarela sinonimo de uma imagem que não corresponde a nada, acham que ganharam a corrida, mas que somente estão a cavar a sua cova como profissionais.

No entanto e voltando a questão inicial: “vale a pena continuar?” surge uma luz ao fundo do túnel, é que os responsáveis por este declínio estão agora a braços com a justiça é demonstrativo do jogo de interesses que está instalado no INEM e que espero que para bem de todos,  profissionais e utentes, tudo seja exposto e os ilícitos exemplarmente punidos.

Nelson Teixeira Batista

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