Tragédia em Borba: "Ou morremos de fome ou morremos em acidentes como este" - VIDA DE BOMBEIRO

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domingo, 25 de novembro de 2018

Tragédia em Borba: "Ou morremos de fome ou morremos em acidentes como este"


É quase de olhos fechados que António Lourenço, 67 anos, oleia a roldana de uma máquina que, em breve, poderá ajudar a içar um bloco de mármore das profundezas de uma das pedreiras que rasgam a paisagem da região de Estremoz, Borba e Vila Viçosa.

Calipolense nato - como, recorda, se denominam todos aqueles que nascem em Vila Viçosa -, nunca trabalhou diretamente o mármore, mas, por ali, são poucos os que, de uma forma ou de outra, não estão ligados à indústria que esta semana centrou a atenção nacional pelos piores motivos, depois do colapso de uma estrada entre duas pedreiras ter arrastado consigo cinco pessoas.

António é mecânico há 51 anos e só não se reformou ainda porque o patrão, a passar um momento difícil, assim lho pediu. Lurdes - o apelido omisso porque a tragédia a impele ao anonimato - foi, em 1988, a primeira mulher a trabalhar numa fábrica de pó que, sete anos depois, se viu obrigada a abandonar devido a problema pulmonar crónico.

Inácio Barradas, hoje com 73 anos, foi igualmente travado pela doença há quase duas décadas. Só José António Pernas, de 71, se aposentou no tempo certo - para "ficar mais velho" nos dias que passa em Borba, cidade que, diz, era mais movimentada quando era aldeia e não urbe, graças às centenas de pessoas que, então, eram indispensáveis para extrair da terra a pedra que ali se diz ser "ouro branco".

E, mesmo que a tecnologia tenha feito, há pelo menos duas décadas, surgir o desemprego, é o mármore que, ainda hoje, alimenta quem reside em Borba, terra onde todos parecem conhecer alguém ferido ou morto num acidente mais ou menos distante.

"Se as pedreiras fecham, morremos de fome. Se não fecham, morremos em acidentes como o da estrada", desabafa ao JN, com uma tranquilidade desarmante, Helena, o sobrenome igualmente escondido pelo pudor que desaparece ao desfiar a história que é de todos.

Tratar pedreiras pelo nome próprio

Não seria, por exemplo, de estranhar que quem, na sexta-feira de manhã, entrasse na pastelaria onde Lurdes e Helena lideravam um tertúlia improvisada sobre a indústria do mármore pensasse que, ali, se conversava sobre um qualquer amigo em comum. Afinal, é pelo nome do seu proprietário e não pela sua localização que os borbenses identificam as pedreiras que rodeiam a sua cidade.

"Nós conhecemo-los a todos", explica Helena, por entre referências consecutivas a irmãos, sogros, noras, sobrinhos e amigos, alguns dos quais já desaparecidos, a maioria empregada desde a adolescência. "A população de Borba sobrevive do mármore", sintetiza.

Que o digam Inácio Barradas e José António, que, aos 15 anos, se estrearam a distribuir água aos restantes trabalhadores das pedreiras. Só mais tarde se dedicaram a outras tarefas entre blocos de mármore - mais bem pagas do que a agricultura, a única alternativa que, há mais de 40 anos, tinha quem não queria ou não podia continuar a estudar.

"A única coisa que a agricultura tinha melhor era ser à superfície", compara o mais velho - o que não quer dizer, ressalva, que as pedreiras fossem, então, tão profundas como são hoje.

"Nem seria possível", sublinha José António, que chegava a trabalhar das cinco da manhã às cinco da tarde, sem saída para almoço. "Iam levar-nos a comida", acrescenta, precisando que, então, cada pedreira empregava duas centenas de pessoas. Atualmente, bastam menos de 15 para laborar mais fundo e a produtividade ser maior. "Agora, a máquina faz tudo", resumem.

Vida que foi dura não atrai os jovens

"Se fosse como antigamente, já não conseguia estar aqui. Agora, se precisar de mudar uma máquina de sítio, vêm aqui com o carro e mudam. Antes tinha de ser com uma alavanca. Agora é melhor, mais fácil e mais produtivo", avalia António Lourenço, a trabalhar apenas para fazer um favor ao patrão e amigo, sem ninguém para o substituir.

Quando começou, há 51 anos, chegou a perguntar a um colega mais velho como reparar uma máquina fabricada quatro décadas antes. À beira da reforma, não tem quem ensinar, num caso que não será único.

O futuro da indústria que dá fama à região de Estremoz, Borba e Vila Viçosa é, por isso, uma incógnita, mas nem por isso o sexagenário imagina a sua terra sem o mármore como mote. Até porque, justifica, dali sai pedra para todo o Mundo.

E se, na sequência do aluimento de segunda-feira, muitas das pedreiras existentes nas imediações acabarem por encerrar, como se ouve falar dentro e fora de portas? A resposta sai de supetão: "Bem, nós vamos ter de continuar a viver aqui, não vamos?".

Fonte: JN

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