Opinião, Há Quem Não a Sinta Nem Tenha - VIDA DE BOMBEIRO

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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Opinião, Há Quem Não a Sinta Nem Tenha


Quando escrevo estas linhas decorre ainda o maior incêndio da história do estado norte-americano da Califórnia, 11 dias após o seu início e depois de queimadas centenas de casas e 118 mil hectares de floresta, e que os bombeiros estimam só em Setembro poder dar como extinto. Já ardeu qualquer coisa como a área da cidade de Los Angeles.

E, mais uma vez, não consigo perceber esse fenómeno, que se repete a cada ano apesar dos meios e recursos envolvidos, e tudo o que ouvi recentemente na Faculdade de Agronomia, em Lisboa, da boca de um antigo responsável pelo combate aos fogos florestais na Califórnia sobre a realidade portuguesa. Realidade, que nós não conhecêssemos já, descrita e anunciada pelos bombeiros portugueses há muitos anos, mas que acabou por ser atendida por seu outrem a dizer? Trata-se da forma bacoca como tantas outras coisas também são atendidas em Portugal.

Escrevo ainda no dia em que é dado como dominado o recente incêndio de Monchique, após 8 dias, 27 mil hectares, milhares de bombeiros entre os operacionais presentes, mais de 4 centenas de viaturas, 41 feridos, 22 dos quais bombeiros.

Não quero estabelecer qualquer paralelismo entre as duas situações ocorridas em simultâneo nos EUA e em Monchique, outros o farão, nem com as ocorridas na vizinha Espanha na mesma altura, nomeadamente, em Huelva, Badajoz e Valência.

Procurei acompanhar o evoluir das situações ocorridas no estrangeiro nas respectivas redes e comunicação sociais. Mas, em tudo o que li não encontro paralelo com a forma com no nosso país vejo tratadas, ou mal tratadas, essas situações em termos comunicacionais e de opinião pública.

Sei que estamos em plena sealy season, as pessoas abrandam a actividade, aderem ao “dolce far niente”, dito de outra forma, o fazer nada, num vazio que nem as notícias das ditas revistas cor-de-rosa conseguem preencher. Contudo, julgo que é profundamente injusto ouvir as habituais generalidades, aleivosias também, proferidas pelo grupo humano dos tempos modernos, que se destaca até no espaço internacional, dos chamados treinadores de bancada portugueses. É tema frequente de esplanadas ou de grupos de praia, entre dois mergulhos ou uma sandocha, opinar sobre a actualidade e, por que não, sobre os incêndios, inclusive o recente de Monchique.

O debate e o direito de opinião são bens e direitos irreversíveis. Mas incluir nesse pacote o disparate é coisa bem diferente.

Em muitos casos, a questão não estará, apenas, no que se diz, mas também na forma como se diz, ou seja, por exemplo, tomando a parte pelo todo, generalizando a tudo e a todos eventuais episódios ou casos locais. Essa postura, cuja amplitude chega a atingir de facto o disparate, funciona como geradora de “fake news”, “posverdades” e outros fenómenos de intoxicação ou embuste sobre o que se passa.

Desta vez, a opinião pública, fazendo jus à época estival e à tentação do momento, voltou a fazer circular vários ditos sobre o comandamento, a coordenação ou falta dela, a hipotética incapacidade e desorientação no terreno. Todos têm opinião sobre o que deveria ser feito e todos sabem apontar o dedo seja a quem ou ao que for.

Esta atitude típica, para já, constitui uma clara demonstração de desrespeito e desconsideração para com aqueles que no terreno, em condições extremas físicas e emocionais tentam fazer o seu melhor para a solução do problema. Depois, também lamentável, parece alimentar-se nas dificuldades sentidas, parecendo tirar prazer do eventual insucesso pontual ou de algo localizado que possa correr mal.

Se esteve tudo bem, pode duvidar-se. Aliás, como sabemos, situações em que tudo corre bem só existirão nos manuais. Mas, à partida, será profundamente injusto considerar situações porventura nem sempre bem conseguidas ou resolvidas quando, na verdade, tantas vezes resultam de forçosos reajustes na estratégia ditados por mudanças das muitas variáveis com que há que contar para estruturar a acção.

Diz-se que houve possíveis quebras no combate directo motivadas, também, para a defesa de pessoas e casas.

Irá agora fazer-se o balanço pormenorizado de tudo o que se passou, não esquecendo o que possa não ter corrido bem, mas, também, valorizando o que correu bem. Há sempre lições e conclusões a tirar de tudo o que se passa. E, mal será que tudo isso não se repercuta em próximas intervenções e estratégias.

Tirar conclusões apressadas e antecipadas é que não é sério nem justo fazer.

A opinião pública desempenha um papel importante na nossa sociedade, critica por direito e dever sem dúvida, mas também séria e justa. Porque, quando não se sabe mais vale estar calado.

Para se sentir vergonha é necessário tê-la, mas há muita gente que, não a sentindo, também não a pode ter. Estão nesse grupo os ditos treinadores de bancada, conhecedores de tudo, opinadores mas falhos de vergonha.

Os muitos bombeiros e os restantes agentes da protecção civil que estiveram no terreno, no mínimo, mereceriam o seu respeito.

Rui Rama da Silva in LBP

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