O que mais custa é quando deixamos de acreditar. Ou a razão porque deixamos de acreditar. Mas vai dar tudo ao mesmo. Quando nos fartamos de lutar, estamos esgotados, sem forças. E então baixamos os braços. Porque esforçamos-nos tanto e só recebemos desilusões. Porque acreditamos tanto e afinal acreditamos em algo que nunca foi real. Porque amamos tanto e até isso foi interpretado de forma errada. Porque nos sentimos sozinhos, vazios, sem nada...
Tanto faz que o rio corra para baixo ou para cima. Tanto faz que tenha caviar para comer ou um pedaço de pão duro. Tanto faz que use diamantes ou pedaços de plástico tosco.
Tudo neste mundo é transitório. Principalmente as pessoas. As pessoas nunca ficam muito tempo. Na hora do olá já se sabe que vai haver um adeus.
O que resta se tudo o que nós queremos é impossível? Resta apenas o que não queremos. É suposto vivermos felizes apenas com o que não queremos, com o que nunca pedimos, com o que nos é imposto?
Mas de que é que isto interessa a alguém?! Sabemos que ninguém sequer se importa, que vai continuar a ser sempre assim. Sabemos que podemos chorar a vida inteira que ninguém sequer pergunta. E mesmo que perguntem, já não há resposta a dar. Nenhuma resposta melhora nada, só piora. Sabemo-lo pela experiência, sentimo-lo pela frieza que nos rodeia, pelo ar que custa a respirar, pela indiferença.
Acreditar não depende da nossa vontade consciente. Depende do nosso ser mais profundo. E no nosso ser mais profundo, as cicatrizes nunca se apagam. As feridas nunca saram totalmente. Então a única coisa que queremos é ficarmos quietinhos, em posição fetal, longe de tudo e de todos, para que nada nos toque nas feridas. Elas já doem só por si. Ninguém tem prazer em se expor para ser magoado.
Há merdas que doem mesmo muito.
Doi o simples facto de querer dormir e não conseguir porque te vem à memória aquela criança que não salvaste.
Doi, quando não consegues entrar numa casa em chamas para salvar o filho, pai, mãe ou irmão de alguém.
Doi, quando chegas a casa e a tua esposa te pergunta como correu o dia, ao qual respondes que correu bem, mas que na realidade viste a tua vida presa por um fio.
Mas o que mais doi, é quando os teus filhos te perguntam o porquê de já não brincares com eles, o porquê de não lhes dares a atenção que merecem, o porquê de teres mudado tão abruptamente com a tua maneira de ser e de estar com eles.
No final, percebes que já não és quem eras, e não o és porque não queres, mas sim porque os fantasmas do passado não te deixam seguir em frente.
Afinal, porque teimamos nós em esconder-nos numa concha? Porque não admitimos que quando chegamos ao limite precisamos de ajuda? Porque continuamos a dizer que estamos bem, quando na realidade por dentro estamos num verdadeiro caco?
Infelizmente, esta é realidade camuflada dentro de muitos de nós, e se calhar um dia, quando chegarmos ao limite dos limites, não resistiremos a desistir de tudo, do mundo, da família, dos filhos, da vida...
Assinado: Um bombeiro como tantos outros.

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