Grandes Incêndios Queimam Cerca de 30 Mil Hectares de Janeiro a Agosto - VIDA DE BOMBEIRO

______________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

domingo, 6 de setembro de 2015

Grandes Incêndios Queimam Cerca de 30 Mil Hectares de Janeiro a Agosto


Até meados deste mês foram contabilizados 61 grandes incêndios que queimaram 26.179 hectares de espaços florestais. Ou seja, cerca de 60 por cento do total da área ardida este ano. O maior incêndio ocorreu no dia 8 de agosto na freguesia de Candemil, no concelho de Vila Nova de Cerveira, distrito de Viana do Castelo. Segundo as primeiras estimativas terão sido consumidos três mil hectares de floresta num incêndio que só ao terceiro dia começou a ceder ao combate.

Para fazer as contas deste verão, e até ao momento, há que recuar no calendário já que 2014 foi um ano atípico em matéria de ignições e área ardida. 
Entre 1 de janeiro e 15 de agosto registaram-se 2.655 fogos florestais e arderam 43.844 hectares de floresta em Portugal.

Números atualizados a 15 de agosto pelo ICNF mostram um total de 12.810 ocorrências (2.655 incêndios florestais e 10.155 fogachos) que resultaram em 43.844 hectares de área ardida, entre povoamentos (21.934) e matos (21.910). Em igual período do ano passado "apenas" tinham ardido 8.886 hectares, o que representa um aumento de quase 400 por cento em 2015.

Para se ter uma noção do agravamento das consequências dos fogos florestais em 2015, entre 1 de janeiro e 15 de outubro do ano passado, os dados oficiais disponíveis apontam para uma área ardida de 19.696 hectares. Este ano, só até meados de agosto, quando faltam ainda dois meses e meio para o término da operação, já tinha ardido o dobro dessa área, em consequência do triplo das ocorrências.
Para fazer as contas deste verão, e até ao momento, há que recuar no calendário já que 2014 foi um ano atípico em matéria de ignições e área ardida. Por essa razão, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) prefere comparar os valores de 2015 com o histórico da década anterior (de 2005 a 2014), da qual resulta um panorama mais simpático do drama que ainda se viveu há cerca de três semanas em vários pontos da região Norte e Centro do país.

Face aos valores médios da última década, até 15 de agosto deste ano registaram-se mais 4 por cento de ocorrências, mas "ardeu menos 22 por cento” de área florestal ou agrícola. "Os anos de 2005, 2006, 2010 e 2012 são os quatro anos, do período em análise, que registaram valores de área ardida superiores aos registados em 2015, nos períodos homólogos", lê-se no relatório provisório elaborado pelo Departamento de Gestão de Áreas Classificadas, Públicas e de Proteção Florestal.

O grande incêndio de Vila Nova de Cerveira contribuiu em grande parte para que Viana do Castelo fosse o distrito mais afetado até agora (8.649 hectares), seguido da Guarda (6.111 hectares) e Braga (5.642 hectares). Já em número de ocorrências surge em primeiro lugar o histórico distrito do Porto, com um total de 3.135. No entanto, 90 por cento dos casos são fogachos, isto é, situações de reduzida dimensão que não ultrapassam um hectare de área ardida.


Em comunicado enviado à nossa redação, a GNR informa que, nas suas áreas de intervenção, há registo de 16.296 ocorrências, mais 9.005 do que em 2014, o que representa um aumento de 123 por cento. Só em um por cento das ocorrências é que o incêndio florestal teve causas naturais, contra 43 por cento com origem negligente, 17 por cento de origem intencional, 9 por cento por causa de reacendimentos e, por último, 30 por cento devido a causas desconhecidas.

 Um bombeiro nunca se rende

 “Mesmo num inferno de chamas, um bombeiro nunca se rende”, referiu ao ‘BP’, Jaime Marta Soares, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, perante o inferno vivido no segundo fim de semana de agosto, altura em que os bombeiros combateram mais de 500 incêndios. Em comunicado tornado publico, a Liga destacou o trabalho desenvolvido pelos bombeiros voluntários no combate aos incêndios, avançando que cerca de 95 por cento do total dos operacionais envolvidos são elementos das associações humanitárias. Numa nota de "agradecimento e reconhecimento público aos bombeiros portugueses", a LBP referiu que, durante a fase mais crítica em incêndios florestais, os elementos das corporações de bombeiros têm servido as populações, protegendo-as e procurando com "esforço, coragem, abnegação e profissionalismo defender também os seus haveres".

Como exemplo, a nota destacava que, entre 28 de julho e 3 de agosto, estiveram a combater as chamas 17.880 bombeiros, de um total de 18.821 operacionais envolvidos nos 1.029 incêndios, tendo ainda as corporações de bombeiros mobilizado 4.478 veículos dos 4.714 meios. A LBP recorda que o combate aos incêndios florestais é a fase "mais visível e mediatizada nos meses de verão", mas corresponde a sete por cento da atividade anual dos corpos de bombeiros.

Na primeira quinzena de agosto ocorreram 2.680 fogos rurais e, só no domingo dia 9, foram registadas 379 ignições. Do total de incêndios registados neste mesmo período, 1.696 ocorreram durante o dia e 986 incêndios irromperam durante a noite.

Mais crimes e mais detidos

 Foi detido, no passado dia 21 de agosto, um homem fortemente indiciado pela prática de dois crimes de incêndio florestal em São Pedro do Sul. A Polícia Judiciária (PJ), através do Departamento de Investigação Criminal de Aveiro, procedeu à identificação e detenção de um homem, sem ocupação profissional, agindo num quadro de vingança e de dependência alcoólica. Nos últimos meses sucedem-se os comunicados da PJ que dão conta de detenções de vários suspeitos pelo crimes de fogo posto e os números que vão sendo atualizados diariamente não deixam margem para dúvidas – este ano o número de incêndios com origem dolosa volta a registar uma subida drástica. 

Os diferentes órgãos de polícia criminal (PSP, GNR e PJ), constituíram, desde o início do ano até ao momento, 65 arguidos por suspeitas do crime de incêndio, dos quais 34 ficaram em prisão preventiva. Segundo dados fornecidos ao ‘BP, pelo Gabinete Permanente de Acompanhamento e Apoio (GPAA), da PJ, ficaram em prisão preventiva 32 homens e duas mulheres. Do total de indivíduos identificados, 19 são menores. A GNR identificou, desde o início do ano, 12 rapazes e uma rapariga, com idades até aos 15 anos. Já a PSP anunciou a detenção de seis menores com idades até aos 16 anos.

Na comparação dos números deste ano com período homólogo de 2014 conclui-se que o número de inquéritos abertos pela PJ subiu de 348 em 2014, para 837 já este ano, quase o dobro. Também a GNR deteve mais 20 pessoas este ano pelos crimes de incêndios, são 51 até ao momento. Já os autos de contraordenação desceram face a 2014. A GNR instaurou até ao momento 1100 autos, menos 148 do que o ano passado.  

Liga fala em insulto

 Um grave insulto aos bombeiros e ao país, uma aberração legislativa. Foi desta forma que a Liga dos Bombeiros Portugueses qualificou a alteração da Lei que retira da lista de crimes de investigação prioritária todos aos crimes de incêndio florestal. A lei que define os objetivos e prioridades da política criminal até 2017 foi aprovada em junho e entra em vigor já no próximo mês de setembro. Nela fica definido que o crime de incêndio florestal e os crimes contra ambiente ficam na lista de prevenção prioritária mas deixam de ser crimes de investigação prioritária, ao contrário do terrorismo, violência doméstica, tráfico de órgãos e de pessoas ou cibercriminalidade.


Para Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, a alteração que vai agora entrar em vigor não faz qualquer sentido.

Jaime Marta Soares sublinha que esta decisão só vem ajudar a que os incendiários possam escapar impunes. Sobre esta matéria o ministério da Administração Interna não quis fazer qualquer comentário, apesar desta decisão, e ao que apurámos, ter sido da responsabilidade do ministério tutelado por Anabela Rodrigues. Fontes do MAI garantem ao nosso Jornal que a decisão foi mal recebida dentro do próprio ministério.

Já uma fonte do ministério da Justiça, contactado pelo ‘BP’, sublinha que esta alteração “não terá qualquer efeito prático”, já que a Policia Judiciária, garantem-nos, continuará “emprenhada” na investigação aos crimes de incêndio. Na sequência da polémica que esta decisão desencadeou, a Procuradoria-Geral da República afirmou, em nota enviada às redações, que apesar desta alteração, mantém-se em vigor uma circular interna onde se atribui caráter urgente e prioritário aos inquéritos por crime de incêndio.

Apesar destas posições, os bombeiros dizem que este é um mais um ”mau sinal” que o Governo dá à sociedade. 

Patrícia Cerdeira in LBP