Carta Aberta de Um Bombeiro - VIDA DE BOMBEIRO

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Carta Aberta de Um Bombeiro

" Não sou um herói, sou o teu vizinho, sou a pessoa com quem te chateias na fila do supermercado. 

Saio de casa todas as vezes que for preciso para te ajudar, mas acredita que quero voltar sempre, saio de casa preocupado com quem deixo em casa, preocupado como a irei compensar, com a pessoa que me ama e que sofre com a minha ausência. 

Cada risco, cada avanço sobre as chamas faz-me pensar que tu que me amas precisas de mim são e salvo.

O toque da sirene, o grito de ajuda das pessoas faz-me correr, faz aumentar os meus batimentos cardíacos, focado na minha missão e dizendo " PRONTO " cá estou eu para ajudar. 
Não quero agradecimento, não quero reconhecimento, quero voltar para casa após cada ocorrência para abraçar quem eu amo, e que sofre com cada partida minha para esta luta desenfreada.

Quando pensar em nos maltratar, lembre-se...

Temos família e temos de voltar para os abraçar. 
Obrigado ".

Tenho há alguns dias estas palavras no meu e-mail, elas são apenas um desabafo, de um bombeiro, cada vez que as leio as lágrimas escorrem-me pela face. Têm dono, ele tem rosto, tem sentimentos, tem família, tem garra, tem coragem ( de sobra ), tem por vezes a nossa vida nas mãos dele e infelizmente tem a dele posta todos os dias à prova, só para nos salvar. Só eu saberei quem é, porque ele me pediu isso, pediu para que as palavras dele fossem as de todos os Bombeiros. 

Depositou-me nas mãos a mensagem, não para que seja um apelo ou grito de revolta, mas porque chegou mais uma vez a casa do fogo e não tinha jantar, porque não teve tempo para o fazer. Ele combatia mais um fogo.

Andava há uns dias preparado para subir a um carro de bombeiros e acompanhado de bravura, fotografar pedaços de homens que nos salvam as casas, o oxigénio, a vida e só depois se lembram deles, para que essa fotografia pudesse ser o testemunho que me levaria a escrever estas palavras. 

Mas hoje decido tomá-las, sem uma imagem que me catapultasse a escrevê-las, mas várias :
Lembro-me do meu primo sair de casa a correr, a qualquer hora da madrugada ou do dia, apenas pelo dever da obrigação, de lhe dar um abraço dos nossos e dizer-lhe para ter cuidado, quando sabia que ele já não me prestava atenção, do coração dele tocar ao som da sirene, das 3 horas que ele dormia em 15 dias, das refeições que não fazia; porque enquanto eu, nós, vós, ou os outros passamos o verão de banquete em banquete, mudamos de piscina, ou desviamos a toalha na praia para não apanharmos a areia que vem de nordeste; eles guiam-se pelos ventos que podem aparecer de todos os cantos, lutam com o calor e o das chamas também.

Os Heróis não têm estatuto, não se constituem por leis, não saem dos escritório para beber uma cerveja, não usam filtros nas fotos, não fazem publicações instantâneas, não se resignam, não baixam a cabeça perante o infortúnio. 

Eles, são anónimos, têm família, têm nome completo mas usam com mais frequência o grupo sanguíneo na esperança de outrem, ajudam o próximo sempre depois deles, estão presentes quando precisamos deles e olham o perigo de frente, não sabem sequer desistir e ainda são derrubados pelos outros, mas erguem-se...sempre.

Não estou a fazer-lhes honras nenhumas, não lhes peço medalhas ou condecorações. Exijo-lhes apenas respeito, consideração e admiração.

Quando observo um horizonte perdido de fumo e chamas, não me lamento na rede social pelo verde que vai mudar de cor, penso sempre primeiro neles, na sirene que pisca e que já vai algures no meio da montanha, que carrega 5 ou mais valentes para um infortúnio incerto. 

Pode estar ali aquele com quem me chateei na fila do supermercado e imagino sempre o abraço que a filha pequena lhe vai dar, quando lhe correr para os braços sujos de carvão e lhe sentir apenas o cheiro a Pai, o herói invisível. 

Se te emocionares, se leres e te sentires com eles, se apenas lhes queres dar conforto, ou um abraço...Partilha este texto, faz deles uma corrente ímpar, leva-lhes as palavras e a alma por esse mundo fora, faz de cada partilha um sinal de força...para o próximo fogo. 
Porque podíamos todos ser um deles, mas só eles o escolheram ser.

Marco Gil