Kamov a Conta Gotas - VIDA DE BOMBEIRO

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terça-feira, 30 de junho de 2015

Kamov a Conta Gotas


A ministra da Administra­ção Interna determinou, no passado dia 20 de ju­nho, à Inspeção-Geral da Admi­nistração Interna (IGAI) a aber­tura de um inquérito relaciona­do com os problemas que estão na base da inoperacionalidade dos cinco helicópteros pesados Kamov. 

A decisão surge depois da Autoridade Nacional de Pro­teção Civil (ANPC) ter detetado problemas “graves no estado das aeronaves”, que ditaram “a impossibilidade de os helicópte­ros estarem em plena condição de serem operados”, durante o processo de transferência dos Kamov da Heliportugal para a Everjets, a empresa que ga­nhou o concurso público de operação e manutenção dos aparelhos para os próximos quatro anos. 

Em nota tornada pública, Anabela Rodrigues re­feriu que “considerando a gravi­dade de tais factos, bem como das suas consequências em ter­mos financeiros e de disponibili­dade destes meios aéreos”, a ministra determinou, por pro­posta do secretário de Estado da Administração Interna, João Almeida, que a IGAI abrisse in­quérito”. O inquérito vai incidir sobre “as circunstâncias descri­tas e apuradas durante o pro­cesso de consignação dos meios aéreos próprios pesados do Es­tado, tendo em vista o apura­mento de responsabilidades a que haja lugar nesse âmbito”. 

No comunicado, o MAI adianta que, em resultado de concurso público internacional, a opera­ção e manutenção da frota de meios aéreos próprios pesados do Estado foi adjudicada a um novo operador, sendo o proces­so de transferência “necessa­riamente precedida de receção das aeronaves da empresa an­teriormente responsável pela sua manutenção para a Autori­dade Nacional de Proteção Ci­vil”. Durante este processo, fo­ram verificadas “uma série de não conformidades graves no estado das aeronaves”, adianta o ministério. Num comunicado divulgado no dia anterior a esta decisão politica, a ANPC infor­mou que apenas um dos cinco helicópteros Kamov da frota do Estado está operacional, situa­ção que leva a ANPC a admitir finalmente que não garante a entrada de outras duas aerona­ves no dispositivo de combate a incêndios deste ano. 

“Neste momento está apenas em con­dições de plena operacionalida­de um dos cinco Kamov da frota do Estado”, referiu a ANPC, adiantando que duas aeronaves vão ser reparadas num “curto espaço de tempo” e as outras duas requerem intervenções mais profundas, “não sendo possível garantir a sua entrada no atual dispositivo”. Para com­pensar a falta destes meios, a Proteção Civil sublinhou que fo­ram adotadas medidas alterna­tivas que “passam pela anteci­pação da entrada de meios aé­reos no dispositivo, nomeada­mente helicópteros ligeiros e aviões bombardeiros médios”.

Segundo a ANPC, todos os aparelhos “inspecionados ne­cessitaram ou necessitam de intervenções técnicas”.

Na reação a todo este caso, a Liga dos Bombeiros Portugue­ses (LBP) veio a publico “la­mentar” toda esta situação, lembrando que o Governo pro­meteu um dispositivo área de 49 aeronaves para apoio aos operacionais no terreno. Admi­tindo que “alguma falhou”, a Liga congratulou-se com a deci­são de abertura de um inquéri­to, sublinhando que fica a aguardar com “expectativa” os resultados, admitindo a sua “preocupação” face a uma si­tuação que pode ter efeitos “negativas” na operacionalida­de do dispositivo de combate a incêndios. 

“Todos sabemos que os meios aéreos desempenham um papel fundamental no apoio aos operacionais e não quere­mos sequer pensar que os meios prometidos não vão estar disponíveis”, referiu o presiden­te da LBP Jaime Marta Soares, para quem é preciso ir “ao fun­do” desta questão e perceber quais as motivações que estive­ram na origem de um negócio que já se provou foi ruinoso para o Estado. “Sempre afirma­mos que a compra destas aero­naves foi um erro lamentável, por vários motivos”, concluiu o dirigente.

Os timings de uma decisão política

Com a extinção da Empresa de Meios Aéreos (EMA) em ou­tubro do ano passado, a ANPC ficou responsável pela gestão dos contratos de operação e manutenção dos meios aéreos próprios do Estado. Na altura, foram várias as vozes que se le­vantaram para dizer que o ca­lendário “apertado” de todo este processo poderia por em causa o grau de prontidão dos meios. Depois de algumas se­manas de silêncio, e já em ple­na Fase Bravo, a ANPC acabou por confirmar este cenário, ao dizer que a inoperacionalidade das aeronaves ficava a dever-se ao processo de transferência dos russos Kamov, iniciado em março, para a empresa Ever­jets. E é nesta altura que tudo se adensa. 

Durante o processo de consignação, explicou a ANPC foram detetadas “não conformidades graves no esta­do das aeronaves”, que ditaram “a impossibilidade de os heli­cópteros estarem em plena condição de serem operados”. Sabe-se agora que a ANPC decidiu fazer uma avaliação técni­ca ao estado das aeronaves com o objetivo de dar garantias ao novo operador, uma avalia­ção não independente e que deixou de fora a entidade que regula o sector, a Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC). Todos este processo que vai agora auditado, resul­tou num confronto acesso de posições entre as duas empre­sas envolvidas e a ANPC, que admite mesmo recorrer a tribu­nal para ser ressarcida dos “prejuízos” causados ao Estado.

A somar a tudo isto, dois dos cinco helicópteros Kamov pre­cisam de intervenções profun­das avaliadas em quatro mi­lhões de euros. O presidente da ANPC já disse publicamente que “não sabe” onde vai ser possível ir buscar o dinheiro. Grave Pereira não sabe tam­bém quando poderão vir a es­tar disponíveis estas aeronaves para missões de combate a in­cêndios. A única certeza é que a Fase Charlie começa a 1 de julho com um dispositivo anun­ciado pelo Governo de 49 aero­naves.

Fonte: LBP