Há fenómenos dos tempos modernos que arrepiam e com os quais os bombeiros diariamente se vêem confrontados.
É comum na opinião pública pensar-se que, por princípio, as pessoas só acorrem às urgências hospitalares em situação de manifesta aflição, mesmo que, como muito se tem dito e escrito, a propósito, nos últimos tempos, à aflição de cada um se associe também a aflição de muitas outras pessoas pelas muitas horas de espera a que estão obrigadas até serem atendidas depois da triagem.
Associadas ao tempo de espera, ou não, ou a qualquer outro motivo que não cabe aqui abordar, têm-se registado um conjunto de mortes ocorridas nas urgências, que lamentavelmente compõem ainda mais o cenário de sofrimento traçado por quem trabalha e frequenta as unidades hospitalares mais referenciadas pela falta de resposta atempada.
Esta é uma realidade com que os bombeiros convivem habitualmente sempre que surgem picos de procura, seja no período da gripe ou outros. E depois vêm os seus alertas para a acumulação de macas das ambulâncias por manifesto aumento da procura e a sua indisponibilidade para acorrer a novos pedidos de socorro.
Mas os bombeiros também bem sabem, e têm alertado, para um outro cenário recorrente que indicia problemas sociais graves.
No cenário, em certos picos a tocar o dantesco, criado pelo recurso massivo aos serviços de urgências por aqueles que, sem dúvida, deles necessitam, surge um outro cenário igualmente preocupante que faz abrir a cortina sobre fenómenos mais comuns do que, à primeira vista, se possa parecer. Falo das pessoas, na esmagadora maioria dos casos idosos, que também acorrem às urgências para simplesmente terem com quem falar, para verem gente e poderem desabafar com quem ali também esteja.
Esta é a outra realidade com que os bombeiros se têm confrontado cada vez mais e que compagina, sem nenhuma margem para dúvida, a doença da solidão.
Arrepia pensar que, não sendo as urgências dos hospitais o local mais indicado para o convívio numa lógica de senso comum, contudo, é precisamente para ali que há gente que se dirige na ânsia de ver outra gente, de ter companhia e de sentir aconchego.
Este é o outro lado dramático das urgências dos hospitais e dos centros de saúde que traduzem outras doenças, estritamente sociais, muito graves mas com pouca visibilidade, e que não podem passar despercebidas nem ficar sem resposta.
Como agora, porventura, nunca houve tantas respostas sociais mas, como agora também, nunca houve um crescimento dos problemas, tão grande, tão diversificado e tão envergonhado, com todo o grau de complexidade associado, quer no despiste, quer no tratamento.
Os bombeiros também procuram responder a isso de diferentes formas. Não só na prestação do socorro, nestas situações mais socorro social que físico, mas também no transporte programado de doentes, os bombeiros demonstram que têm uma alma grande e que se preocupam com o bem-estar e o apoio àqueles que regularmente conduzem para tratamentos, para exames e tantas outras situações. Quantas vezes os bombeiros são o ombro amigo onde se desabafa, onde se busca apoio e conforto humano que nem a sociedade nem às vezes as próprias famílias garantem. Quantas vezes são os bombeiros a apoiar nas burocracias próprias dos hospitais e com as quais os doentes não estão familiarizados ou com estado de espírito ou discernimento para as cumprir.
Os técnicos de saúde, os médicos, mas também os bombeiros, poderão testemunhar a vivência de muitas dessas situações no meio hospitalar. Todos sabemos que desumanamente há muitas pessoas a ocupar camas hospitalares apenas por não terem para onde ir ou não terem quem cuide delas.
Mas há outras pessoas que nem chegam aos hospitais. Os bombeiros sabem-no bem. E vejam com quantas situações eles se debatem no dia-a-dia, em que fica evidente que, muitas vezes, o pretenso pedido de socorro se fica a dever apenas à doença do século, a solidão. São os próprios, na esmagadora maioria idosos, que reconhecem perante os bombeiros que é essa a sua doença. E os bombeiros nunca ficam indiferentes a eles, mesmo que a sociedade, muitas vezes, passe ao lado.
Rui Rama da Silva
