Quartéis degradados, falta de efetivos e baixos salários levam muitos bombeiros sapadores a procurar um segundo emprego. O Sindicato Nacional de Bombeiros Sapadores alerta para a desvalorização da carreira, o desgaste físico e psicológico e o aumento do abandono da profissão, exigindo mais investimento e o reconhecimento como profissão de risco e desgaste rápido.
Os últimos dois anos têm sido marcados por vários protestos organizados por Bombeiros Sapadores, de dimensão local e nacional, sobretudo pela valorização da carreira e por falta de condições materiais. A degradação dos quartéis, dos equipamentos de proteção individual e dos carros tem sido o principal motivo de queixa destes profissionais.
Estes profissionais dizem-nos que, apesar do alto risco para a vida e a saúde mental, continua sem ter reconhecido o estatuto de profissão de risco e desgaste rápido. O Diário do Distrito entrevistou dois dirigentes do Sindicato Nacional de Bombeiros Sapadores (SNBS), em que abordamos vários temas como a precariedade na profissão, os efeitos das más condições de trabalho e as dificuldades diárias destes profissionais.
O Quotidiano dos Bombeiros Sapadores
Estivemos à conversa com Cláudio Almeida, bombeiro sapador em Setúbal e dirigente nacional, e com Ricardo Cunha, do regimento de bombeiros de Lisboa e presidente do SNBS. Cláudio explica que, por norma, os bombeiros entram às 8 da manhã e começam o dia com uma vistoria aos equipamentos e logo partem para a preparação física, durante a parte da manhã, “uma componente necessária para começar o dia de trabalho”.
Nas corporações de Lisboa e de Setúbal, o regime de trabalho é de escalas contínuas de 24 horas e de 72 horas de descanso. Depois das refeições reúnem-se para discutir o que fizeram durante o dia. Sempre que têm serviços, param esta rotina para dar resposta.
Cláudio explica-nos que os bombeiros trabalham numa situação de “formação permanente”, integrada no dia a dia dos bombeiros. “Se for possível, entre o meio-dia e a uma temos a hora de almoço. A partir das duas temos a instrução diária, onde temos uma ou outra matéria que tem de ser teoricamente mais aprofundada”.
O trabalho de bombeiro exige um compromisso com horários que nem sempre correspondem a uma vida equilibrada com a família. “É raro termos um fim de semana e ir a uma sexta-feira para algum lado como fazem outras famílias que saem às cinco da tarde do trabalho e voltam a entrar só na segunda. Aproveitamos o pouco espaço que temos durante as folgas, mas é complicado por ser um horário rotativo. Como já sou bombeiro há 24 anos, a minha família já está habituada.”.
Ainda sobre as escalas, Ricardo Cunha, bombeiro há 21 anos, explica que esta forma de organizar os horários começou a partir da pandemia do vírus Covid. Apesar de não ser aplicada ao nível nacional, Ricardo defende que este modelo permite aos bombeiros “ter um bocadinho mais de descanso e recuperar de um dia de trabalho”.
Contudo, o horário nem sempre funciona assim. Entre o dever de servir e a falta de investimento das autarquias e do Estado Central, muitas vezes os bombeiros têm de dar resposta nos dias de descanso. “Devido à falta de efetivos, a meio da nossa folga temos de fazer um serviço de reforço. Deveria haver outro tipo de investimento nos bombeiros, porque infelizmente tanto os governos como os municípios olham para os bombeiros como uma despesa, isto é meio caminho andado para o insucesso”.
Condições de trabalho e falta de efetivos nos bombeiros
São várias as profissões, em particular nos serviços públicos, que sofrem com o desinvestimento crónico por parte do Estado Central, o que leva à falta de condições de trabalho e à insuficiência de operacionais. Os bombeiros não escapam a esta regra. “Eu acho que isto é universal a todas as carreiras, apesar do aumento pequenino, a inflação subiu e a valorização salarial não se reflete nos custos que temos no dia a dia. A nossa carreira não era revista há 24 anos; mesmo com um pequeno aumento, fica muito aquém daquilo que era, face ao atual custo de vida”, explica Cláudio Almeida.
A reivindicação de aumentos salariais e da progressão na carreira não é um elemento novo na luta sindical destes profissionais, mas Cláudio admite que a situação se agravou.”Quando entrei na carreira de bombeiro, há 24 anos, não pensava em ter uma segunda profissão e hoje em dia tenho de trabalhar fora dos bombeiros para dar melhores condições de vida para a minha família. Infelizmente, isso acontece muito dentro dos bombeiros”.
Ricardo Cunha explicou ainda que muitos bombeiros têm de recorrer a um segundo emprego para sustentar as famílias. “Das duas uma, ou temos dois empregos, em que precisamos de pedir autorização, ou então desistimos e vamos para outras carreiras. No sindicato, como temos de retirar o sócio do nosso registo, começamos a ver isto e comentamos que nunca houve tantos bombeiros a abandonar os sapadores e a despedirem-se”.
Nas negociações que estão a decorrer neste momento entre o sindicato e o Governo de Luís Montenegro (PSD e CDS-PP), o que está a ser proposto é que os bombeiros tenham um aumento de mais 300 euros do que o ordenado mínimo. Ricardo Cunha explica que no ano de 2005 um bombeiro ganhava duas vezes mais que o ordenado mínimo da altura. Diz que, neste momento, principalmente para os bombeiros em início de carreira, “o ordenado mínimo de um bombeiro não permite comprar uma casa”, e que “muitos colegas vivem em casa dos pais ou em casas alugadas”.
Segundo Cláudio Almeida, só na corporação de Setúbal, dos bombeiros que entraram na recruta de 2006, despediram-se 12 operacionais, o que corresponde a mais de 50% dos bombeiros que entraram neste ano. “A alteração da idade da reforma em 2019 foi provavelmente um grande incentivo para as pessoas se irem embora. Mesmo da recruta de 2017, muitos já abandonaram a profissão”.
Neste momento, o efetivo mínimo em Setúbal é de 19 elementos, sendo que a média de idades ronda os 50 anos. Cláudio disse-nos que, em muitos dos serviços, a pessoa mais nova tem 35 anos e a segunda mais nova tem 45.
Nesta matéria, explica-nos que o sindicato defende “a reforma aos 50 anos para aqueles que têm um trabalho mais operacional”. Se um bombeiro com 60 anos tem de subir até um nono andar e tiver de socorrer uma pessoa, certamente que com essa idade não está capaz disso”.
Em que condições trabalham os bombeiros?
Se o desinvestimento leva à falta de bombeiros, também as condições materiais – em particular a degradação dos quartéis e a falta de equipamentos de proteção individual – são fatores que levam muitos bombeiros a afastar-se da profissão e muitos jovens a reconsiderar ingressar na carreira.
Segundo Ricardo Cunha, “cerca de 90% dos aquartelamentos do país não têm condições para os bombeiros”. Dá o exemplo do quartel de Benfica, “que é um dos quartéis que têm mais serviço na cidade”, que já tinha sido desativado anteriormente por falta de condições, anos depois voltou a ser ativado “e é uma ruína autêntica”. Diz-nos que, dos 11 quartéis em funcionamento no concelho de Lisboa, a maioria está a precisar de intervenção urgente.
Contudo, o presidente do SNBS reconhece que o problema não está apenas na ação dos municípios, mas sim na transferência de competências e dos fundos alocados pelo Governo às autarquias para suportar os custos. “Temos dito às Câmaras que têm de fazer essa pressão sobre o governo, porque não compete ao sindicato estar a defender os municípios, mas também percebemos que os municípios fazem um esforço enorme: são os quartéis, os equipamentos individuais, os carros e os ordenados. Tem de haver mais investimento da parte do Estado Central”.
Alerta aos governantes que, “da parte do governo era importante que os políticos que negociam a carreira com os sindicatos que pelo menos soubessem o que estão a fazer”. Contudo, diz-nos que, em várias reuniões que tiveram com diferentes partidos, muitos dos políticos não sabiam a diferença entre um bombeiro sapador e um bombeiro voluntário. “Há ministros com quem fomos negociar que têm a pasta dos bombeiros e que não sabem a diferença de uma coisa para a outra”.
Este desinvestimento reflete-se também nos equipamentos utilizados. Entre a falta de equipamentos de proteção individual e carros com mais de quatro décadas, os dirigentes admitem que as condições materiais podem colocar em causa a qualidade dos serviços e colocar em risco as missões.
Para agravar o perigo a que estão sujeitos, derivado da natureza da própria profissão e da falta de condições de trabalho, Cláudio alerta para outra agravante. “Acho que a população tem a noção de que temos uma carreira com alguns riscos físicos e psicológicos, mas os sucessivos Governos parece que não têm essa noção. Ser bombeiro ainda não é uma profissão de risco e desgaste rápido. Nós estamos diariamente expostos ao risco em tudo o que intervimos”.
Sobre a falta de condições dos equipamentos de proteção individual, explica ainda que, no caso de se tratar de matérias perigosas, os bombeiros correm vários riscos se não estivermos devidamente protegidos, com os equipamentos adequados. “Acabamos por nos colocar em risco e os que nos rodeiam. Num simples incêndio urbano temos o risco do contacto com a eletricidade ou com gás”.
“Infelizmente muitos bombeiros cometem suicídios”
Num relatório elaborado pela Ordem dos Psicólogos, em 2022, dava-se conta de que na profissão de bombeiro os riscos de suicídio rondam os 47%, valor elevado quando comparamos com a média geral da população, que ronda os 13%. Ricardo Cunha abordou o tema com pesar: “Infelizmente muitos bombeiros cometem suicídios e é muito fácil dizer que se suicidou porque tinha problemas pessoais, mas se calhar não era só isso, se calhar eram os fantasmas que nos acompanham ao longo da profissão e que não foram bem tratados”.
Acontece que os municípios nem sempre disponibilizam psicólogos suficientes e especializados nos traumas específicos da profissão. “Muitas vezes os municípios têm psicólogos, mas não estão disponíveis para os bombeiros, tendo em conta que têm de atender outras áreas. No caso dos municípios, é um acompanhamento muito inicial e sem continuidade; não estão preocupados em arranjar alguém vocacionado para isto”.
No entender de Cláudio Almeida, e do SNBS, o acompanhamento psicológico dos bombeiros deve ser contínuo. “Deve ser feito um acompanhamento permanente ao trabalhador, desde que entra até ir para a reforma. Nos trabalhos em que vemos alguém morrer à nossa frente, até pode haver alguém do INEM ou do município, mas depois não existe um acompanhamento regular. Muitas vezes os nossos psicólogos são os nossos colegas, com quem acabamos por falar e desabafar sobre aquilo que vivemos em determinada situação”.
Diário do Distrito

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