A crise institucional na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Sever do Vouga (AHBVSV) atingiu hoje um ponto de rutura. Cinquenta e oito elementos do corpo ativo entregaram um pedido formal conjunto para transitarem para o quadro de inatividade.
O documento, a que o nosso jornal teve acesso em exclusivo, impõe um ultimato claro: a suspensão de funções avança a 16 de março, a menos que a atual Direção apresente a demissão. Joaquim Macedo, presidente da Direção dos Bombeiros, optou por não prestar declarações à comunicação social.
Feitas as contas às duas páginas do requerimento entregue em mão esta quinta-feira, e excluindo os nomes rasurados, confirmam-se 58 assinaturas válidas de operacionais. Tendo em linha de conta que o corpo ativo da corporação rondará, atualmente, os 70 a 75 elementos regulares, esta tomada de posição abrange perto de 80% da força de socorro.
Caso o pedido se concretize em meados de março, o quartel ficará severamente desguarnecido, o que ameaça comprometer a capacidade de resposta a emergências e o socorro às populações do concelho.
A carta, igualmente enviada ao presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga, Pedro Lobo; e ao Comando Sub-Regional; pede que o pedido “seja aceite e tenha efeitos” a partir do dia 16 de março, três dias depois da já marcada Assembleia Geral da Associação (13 de março).
“Incompatibilidade” e braço de ferro
Na missiva dirigida à Direção e ao Comando, os soldados da paz justificam a decisão drástica com a “incompatibilidade com a orientação e decisões da atual Direção”.
Os subscritores frisam que a postura da administração tem vindo a dificultar “a manutenção do alinhamento, motivação e compromisso que consideramos essenciais ao bom funcionamento do grupo”.
Os operacionais garantem assegurar os serviços mínimos durante o período de transição, mas deixam o aviso por escrito: “O presente pedido perde validade caso a atual Direção apresente a sua demissão”.
Culminar de meses de tensão
A entrega deste documento não surge do nada. É o corolário de um clima de profunda crispação interna que se arrasta há meses e que se tornou público no final do ano transato.
Em dezembro de 2025, a instabilidade agudizou-se com a saída do então Comandante Miguel Matos, tendo a chefia passado para o 2.º Comandante.
Em janeiro deste ano, num grito de revolta, um grupo de bombeiros fez circular uma carta aberta denunciando a falta de condições básicas no quartel: ausência de climatização nas camaratas e áreas comuns, falta de cacifos para todo o efetivo e a utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) em avançado estado de degradação. A Direção, encabeçada por Joaquim Amaral de Macedo, refutou as acusações na altura.
A 31 de janeiro, o braço de ferro levou dezenas de bombeiros fardados a realizarem uma vigília silenciosa à porta do quartel, num protesto que contou com a solidariedade de mais de duas centenas de populares.
Se o impasse se mantiver e a Direção não recuar, caberá à Câmara Municipal de Sever do Vouga e à Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) acionar um plano de contingência urgente para evitar uma falha grave na proteção civil do concelho.
Jornal de Albergaria

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