Na noite do temporal, a água entrou pelo telhado e não voltou a sair. A casa na Sertã ficou às escuras, os quartos destruídos e o chão coberto por centímetros de água. Ema Gomes, bombeira em Cernache do Bonjardim, atualmente na reserva, saiu à pressa com as filhas gémeas, de 5 anos, e desde então vive à espera de respostas que não chegam e pede ajuda para retomar a vida que o vento interrompeu.
"Perdemos a zona dos quartos. O telhado caiu, a água infiltrou-se por todo o lado, a parte elétrica ficou comprometida. A casa está completamente inabitável", contou ao JN Ema Gomes, de 33 anos. O relato avança com esforço e trava quando fala das crianças. A voz quebra. As lágrimas aparecem. "Elas perguntam quando é que voltamos para casa e eu não sei o que responder", atira, com a voz fortemente embargada.
A habitação, na vila da Sertã, tinha sido comprada há poucos anos e remodelada aos poucos, conforme o dinheiro permitia. "Fizemos tudo faseadamente, com muito esforço", explica, acrescentando: "Perdemos tudo de repente. Dois, três minutos foi o tempo que demorou a que a casa ficasse completamente inabitável".
Agora, além do crédito da casa destruída, a família pode ter de alugar outra habitação para conseguir viver, acumulando despesas. "Vamos ter de pagar a casa que não podemos habitar e uma renda noutro sítio. E sem saber por quanto tempo", desabafa.
Dormem em colchões no chão
Sem alternativa imediata, Ema, o marido e as duas filhas passaram a viver na sala do irmão, em colchões no chão. Uma unidade hoteleira ofereceu alojamento por alguns dias. "É um alívio temporário, mas depois... e depois?", questiona. O marido trabalha na Suíça e teve autorização para regressar de urgência, mas terá de voltar ao emprego. Ema, trabalhadora independente, está sem conseguir trabalhar.
Bombeira desde 2009, hoje na reserva, diz compreender a dimensão da catástrofe, mas não aceita o vazio de informação. "Não pedimos favores. Precisamos de saber com o que podemos contar. Se o seguro paga, quando paga. Que soluções existem." Afirma ter insistido junto das entidades locais, sem resposta concreta. "O silêncio custa quase tanto como o que aconteceu", diz.
O medo maior está nas filhas. A noite do temporal deixou marcas. "Ficaram traumatizadas. Viram tudo." Ema tenta proteger as crianças da instabilidade, mas admite que a incerteza diária é o mais difícil. "A casa perdida está perdida. O que custa é não haver um caminho."
Apelo à solidariedade
Perante a urgência de garantir um teto e iniciar a recuperação, a família lançou uma campanha de angariação de fundos. "É difícil expor-nos assim, mas é pelas minhas filhas", explica. O objetivo é recuperar a casa e, se possível, ajudar vizinhos idosos sem seguro.
Habituada a estar do lado de quem ajuda, Ema Gomes confessa que nunca imaginou precisar de pedir. "Nós estamos a fazer o crowdfunding, porque acho que é a única forma de conseguirmos seguir a vida, porque eu duvido que os seguros nos paguem em menos de um ano, sabemos que as coisas demoram sempre imenso tempo", observa, baseando a suposição na sua própria experiência enquanto bombeira: "Eu segui o processo dos incêndios de Pedrógão Grande e ainda há pessoas que têm indemnizações pendentes."
JN

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