Se a vara fosse uma espada…
Boa tarde a todos.
Gostava de começar com uma imagem. Imaginem um homem de idade avançada, de túnica simples, ajoelhado no chão do seu jardim. Está tão absorto nos seus desenhos, feitos na areia com uma vara, que não nota o caos à sua volta. A cidade arde, os soldados entram. Um deles se aproxima, espada em punho. E o velho, em vez de fugir ou implorar, levanta os olhos e diz:
“Noli turbare circulos meos” — “Não perturbes os meus círculos.”
Falo, claro, de Arquimedes.
Morto durante a invasão romana de Siracusa, em 212 a.C., mesmo com ordens expressas do general Marco Cláudio Marcelo para que fosse poupado. Foi morto porque, num momento em que o mundo pedia fuga ou luta, ele escolheu continuar a pensar.
Mas deixem-me lançar aqui uma provocação:
E se a vara de Arquimedes fosse uma espada?
E se, naquele momento, ele se tivesse defendido?
Mesmo sendo homem de ciência, gênio criador de catapultas, alavancas, princípios de flutuação e máquinas de guerra, não teria ele também o direito de reagir?
Essa pergunta é metafórica, claro. Não se trata da morte de um homem. Trata-se do que ela representa. A imagem de Arquimedes é a imagem de todos aqueles que insistem em manter os seus círculos intactos, mesmo quando o mundo lá fora está em chamas.
Agora reparem: todos nós já ouvimos aquela expressão…
“Se tivéssemos feito assim…”
“Se tivéssemos escolhido diferente…”
São frases que parecem sabedoria, mas muitas vezes são armadilhas emocionais, tentativas de controlar o outro através da culpa retrospetiva. São o que a gramática chama de condicionais irreais do passado.
E eu costumo responder, com toda a ironia que a vida nos ensina:
“Se a minha avó tivesse rodas, era um autocarro.”
Porque o passado não se reescreve.
E mais importante ainda: quem vive no “se” está muitas vezes preso ao controle, à rigidez de uma visão que já não serve.
E por mais que essa visão tenha sido boa no passado — por mais que tenha resolvido problemas — ela precisa ser revista, ajustada, atualizada.
Há pessoas que nunca mudam o seu discurso.
Continuam a dizer as mesmas coisas, da mesma forma, mesmo quando o público já não é o mesmo, mesmo quando os desafios são novos.
É como tentar usar o mesmo casaco que vestíamos há vinte anos… pode até ter sido elegante na altura, mas hoje já não serve.
E é aqui que a metáfora da vara e da espada se cruza com o nosso presente.
A vara representa o pensamento, o raciocínio, o estudo.
Mas há momentos — e todos nós os temos — em que pensar já não basta.
Em que desenhar círculos no chão é belo, mas insuficiente.
É preciso agir. É preciso romper o ciclo.
Às vezes, a vara tem de se tornar espada.
Não para ferir. Mas para abrir caminho.
Para marcar posição. Para deixar claro que estamos vivos e conscientes. Que estamos aqui.
A mudança — verdadeira — começa dentro da cabeça.
Começa quando aceitamos que ninguém tem cem por cento da razão.
Que até as nossas verdades precisam de revisão.
Que até o nosso discurso — por mais apaixonado que seja — envelhece.
E como disse Fernando Pessoa — com uma lucidez que atravessa séculos:
“O que vemos não é o que vemos, mas o que somos.”
Se somos rígidos, veremos o mundo como ameaça.
Se somos abertos, veremos o mundo como possibilidade.
Portanto, deixo-vos esta reflexão:
Que nunca nos falte vara para pensar…
…mas também nunca nos falte espada para nos defendermos.
Muito obrigado.
Nelson Tostão
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