"Dar Voz aos Bombeiros": A Doença de Que Ninguém Fala... - VIDA DE BOMBEIRO

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

"Dar Voz aos Bombeiros": A Doença de Que Ninguém Fala...

 


O meu nome é "Paulo", tenho 48 anos, sou bombeiro desde os 20, e sou assalariado desde os meus 28 anos, sou casado e tenho 3 filhos.


Pensei muitas vezes se deveria enviar este texto ou não, mas decidi fazê-lo por todos aqueles que sei que sentem o mesmo que eu, só se fala em Covid, em vacinas, em confinamento, no fundo tem sido assim todos os dias nos últimos meses.


O que vos vou aqui contar não é nada mais daquilo que sinto enquanto bombeiro, enquanto homem, enquanto marido e pai, o que vos vou aqui contar, é um conjunto de sentimentos que nos consomem por dentro, que moem, e que tenho a certeza que infelizmente vão deixar marcas.


Todos nós sabemos o quanto é perigoso este maldito vírus, sabemos o que devemos fazer para o combater, para prevenir a sua propagação, para nos protegermos a nós próprios e acima de tudo para protegermos aqueles que mais amamos.


Mas de uma coisa ninguém fala, as marcas psicológicas que tudo isto tem deixado em nós.


Será que alguém imagina o receio que é todos os dias transportarmos doentes Covid e no final do dia regressar a casa para junto da nossa família, esposa, filhos, pai, mãe e ficar de coração apertado só de imaginar que podemos estar infetados sem saber e indiretamente estarmos a infetar aqueles que mais amamos? Será que alguém imagina os danos que isto nos provoca psicologicamente?


Neste ultimo ano, já passamos mais tempo fechados em casa do que alguns condenados a prisão domiciliária.


Neste momento a minha rotina é sair de casa e ir trabalhar, e sair do trabalho e ir para casa, com exceção de fazer as compras normais para casa quando assim é necessário.


Nunca nos meus piores sonhos pensei que algum dia tivéssemos de viver uma situação destas, manter os nossos filhos "fechados" em casa como se lá fora estivesse a acontecer uma verdadeira guerra mundial, sair do trabalho e ter de ir diretamente para casa como se não existisse mais nada pelo caminho.


No fundo, vivemos tempos de guerra, vivemos tempos de incerteza, queremos acreditar que no final vai ficar tudo bem, mas infelizmente cada vez mais me custa acreditar nisso.


Já pensei em desistir desta vida louca que é neste momento ser bombeiro, mas tenho a perfeita noção que neste momento não me posso dar a esse "luxo", pois os dias que se vivem são de mais incertezas do que certezas.


Temos sido esquecidos em todas as vertentes, todos os anos no verão, são promessas atrás de promessas que ficam por cumprir, e agora com esta pandemia, somos literalmente "carne para canhão", esquecidos como sempre, atirados para últimos da fila no que concede a ser vacinados.


Mas mesmo assim, com ou sem vacina, lá vamos nós, sempre ao encontro daqueles que precisam de auxilio, sempre que precisam de socorro.


Esta doença que ninguém teima em falar deixa-nos danos que nem damos conta, pois quando nos perguntam se precisamos de alguma coisa, dizemos sempre que está tudo bem, quando na verdade não está.


Ficamos sempre a pensar se seremos os próximos, se vamos ter muitos sintomas, se vamos precisar de recorrer a um hospital, se precisaremos de internamento, se teremos de ir para os cuidados intensivos, e até nos passa pela cabeça se seremos a próxima vitima mortal deste maldito vírus.


Na verdade não temo ficar infetado por mim, mas sim pelos meus, pois nunca sei se os poderei estar a infetar involuntariamente.


O que mais custa é quando deixamos de acreditar. Ou a razão porque deixamos de acreditar. Mas vai dar tudo ao mesmo. Quando nos fartamos de lutar, estamos esgotados, sem forças. E então baixamos os braços. Porque esforçamos-nos tanto e só recebemos desilusões. Porque acreditamos tanto e afinal acreditamos em algo que nunca foi real. Porque amamos tanto e até isso foi interpretado de forma errada. Porque nos sentimos sozinhos, vazios, sem nada...

Tanto faz que o rio corra para baixo ou para cima. Tanto faz que tenha caviar para comer ou um pedaço de pão duro. Tanto faz que use diamantes ou pedaços de plástico tosco.

Tudo neste mundo é transitório. Principalmente as pessoas. As pessoas nunca ficam muito tempo. Na hora do olá já se sabe que vai haver um adeus. 

O que resta se tudo o que nós queremos é impossível? Resta apenas o que não queremos. É suposto vivermos felizes apenas com o que não queremos, com o que nunca pedimos, com o que nos é imposto? 

Mas de que é que isto interessa a alguém?! Sabemos que ninguém sequer se importa, que vai continuar a ser sempre assim. Sabemos que podemos chorar a vida inteira que ninguém sequer pergunta. E mesmo que perguntem, já não há resposta a dar. Nenhuma resposta melhora nada, só piora. Sabemo-lo pela experiência, sentimo-lo pela frieza que nos rodeia, pelo ar que custa a respirar, pela indiferença. 

Acreditar não depende da nossa vontade consciente. Depende do nosso ser mais profundo. E no nosso ser mais profundo, as cicatrizes nunca se apagam. As feridas nunca saram totalmente. Então a única coisa que queremos é ficarmos quietinhos, em posição fetal, longe de tudo e de todos, para que nada nos toque nas feridas. Elas já doem só por si. Ninguém tem prazer em se expor para ser magoado.

Há merdas que doem mesmo muito. 

Doi o simples facto de querer dormir e não conseguir porque te vem à memória aquela criança que não salvaste.

Doi, quando não consegues entrar numa casa em chamas para salvar o filho, pai, mãe ou irmão de alguém.

Doi, quando chegas a casa e a tua esposa te pergunta como correu o dia, ao qual respondes que correu bem, mas que na realidade viste a tua vida presa por um fio.

Mas o que mais doi, é quando os teus filhos te perguntam o porquê de já não brincares com eles, o porquê de não lhes dares a atenção que merecem, o porquê de teres mudado tão abruptamente com a tua maneira de ser e de estar com eles.

No final, percebes que já não és quem eras, e não o és porque não queres, mas sim porque os fantasmas do passado não te deixam seguir em frente.

Afinal, porque teimamos nós em esconder-nos numa concha? Porque não admitimos que quando chegamos ao limite precisamos de ajuda? Porque continuamos a dizer que estamos bem, quando na realidade por dentro estamos num verdadeiro caco?

Infelizmente, esta é realidade camuflada dentro de muitos de nós, e se calhar um dia, quando chegarmos ao limite dos limites, não resistiremos a desistir de tudo, do mundo, da família, dos filhos, da vida...  


Acho que fico por aqui, pois penso que este texto já vai longo, quero acreditar que no final tudo vai ficar bem, mas infelizmente não consigo, porque muito honestamente, no final, vamos é ficar todos "loucos" da cabeça, sim penso que o termo certo é mesmo este, "loucos", mas continuamos a dizer que está tudo bem... e enquanto isso ainda continuamos aguardar pelas tão faladas vacinas que pelos vistos começam a ser administradas "para a semana", só falta saber qual semana. 


Texto enviado por um bombeiro que solicitou anonimato.

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