Como se tornou Portugal o “mau aluno”? Um cocktail de frio, medo e inconsistência de medidas políticas - VIDA DE BOMBEIRO

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Como se tornou Portugal o “mau aluno”? Um cocktail de frio, medo e inconsistência de medidas políticas

 


O porquê em concreto ninguém ousa dizer, mas há teorias. Ana Alexandra Fernandes, socióloga da saúde, diz que o Governo devia ter uma postura mais pedagógica e que o aumento de mortes em janeiro está relacionado com a onda de frio. Um estudo científico publicado na revista Lancet aponta que os países com culturas mais rígidas acataram melhor as medidas. Isabel Menezes, psicóloga política, assume que há uma dimensão psicológica e cultural, mas reitera que “a dimensão contextual é muito mais importante”.


Como é que Portugal, o aluno exemplar no combate à pandemia em março e abril do ano passado, passou em janeiro para o lugar de mau aluno, o país da Europa com mais mortes por milhão de habitantes?


Terá a culpa sido do aligeirar de medidas no Natal, da onda de frio que atingiu o país, do titubear do Governo na aplicação e comunicação de medidas ou, porventura, de uma certa incapacidade intrínseca de os portugueses seguirem regras? A resposta é complexa, de acordo com os especialistas ouvidos pelas Renascença.

Para Ana Alexandra Fernandes, socióloga especializada em questões de saúde pública e antiga professora do ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa), “a perceção de risco” dos portugueses está, neste momento, desregulada devido a uma “cultura de medo” e “falta de pedagogia” por parte do Governo e da comunicação social.


Prova disso: tanto há pessoas que, mesmo sozinhas no habitáculo do seu carro, usam máscara a conduzir, o que “não faz sentido algum”, como há quem não tenha percebido a gravidade da nova estirpe inglesa e “tenha minimizado o risco”.


“O medo não é solução. Agora ações pedagógicas que ensinem as pessoas como devem agir, isso ainda não vi, nem da Direção Geral [da Saúde] nem do Governo. É sempre regras, regras para cumprir”, atira.


O “terror” em volta do momento presente “é muito grande”, “porque está muita gente a morrer”, assume Ana Alexandra Fernandes. Mas isso está a acontecer porque os “serviços não estão a dar conta do recado”.


“É muita gente a chegar às urgências, a chegar aos hospitais. E não há recursos humanos para dar vazão a tudo. Os cuidados não estão a ser o que poderiam ser - e nós temos um bom sistema de saúde -, porque a procura é muito grande. E isto aumenta a probabilidade de morte nos hospitais”, explica.


À Renascença, a socióloga diz ter “dúvidas” que o aumento da mortalidade devido à Covid-19 que Portugal registou em janeiro seja consequência do aligeirar de medidas para o Natal. Aponta antes outra explicação: a onda de frio e a pobreza energética, um problema sistémico no país.


“Este ano, janeiro foi particularmente frio e chuvoso. O inverno é propenso a que as pessoas de idade tenham problemas respiratórios. Normalmente, morre muita gente com problemas respiratórios nesta altura. Portugal é dos países da União Europeia que sempre registou maior número de mortos por pneumonia. As casas não são aquecidas, há pobreza energética”, nota.


A culpa é do “ser português”?

Segundo Ana Alexandra Fernandes, o porquê concreto do aumento de casos e mortes durante o mês janeiro não é fácil de definir. E a socióloga recusa a ideia de que exista algum atributo identitário ou cultural dos portugueses que possa servir de justificação.


“Não penso que seja por sermos portugueses. Somos muito semelhantes aos espanhóis e aos italianos na nossa efusividade. Deve ter havido uma conjugação de circunstâncias que provocou este pico de mortalidade e que está provavelmente relacionado com o frio que se tem feito sentir”, afirma.


O estudo “The relationship between cultural tightness–looseness and COVID-19 cases and deaths: a global analysis” ("A relação entre a rigidez e lassidão cultural e o número de infetados com Covid-19 e morte: uma análise global”), publicado na revista Lancet a 29 de janeiro, dá pistas no sentido contrário.


Este relaciona o número de óbitos devido à Covid-19 com a cultura de 57 países – que classifica entre rígida (conservadora/autoritária) e lassa (liberal) -, e o acatamento de regras por parte da população. Portugal surge quase ao centro do eixo, ligeiramente inclinado para a rigidez, praticamente em linha com países como a Alemanha ou a Islândia. (Os dados utilizados no estudo são referentes a 16 de outubro.)


Uma das principais conclusões do estudo é que, em regra, os países com culturas mais rígidas têm maior sucesso em que a sua população acate as restrições impostas pela pandemia, há menos casos de incumprimento. Mas o que é que isso quer dizer sobre Portugal em concreto?


Em declarações à Renascença, Isabel Menezes, psicóloga política e professora universitária, assume que há uma dimensão política e psicológica importante no acatamento das medidas, mas reitera que “a dimensão contextual é muito mais importante”.


“Há que ter em conta dois fatores: primeiro, o tempo. O tempo gera cansaço em relação às medidas e nós percebemos que à medida que o tempo vai passando, isto vai-se tornando mais difícil. E segundo, no caso português, é a inconsistência das medidas. A determinada altura dei por mim, num fim de semana, a ligar para o supermercado a perguntar: 'vocês a que horas fecham afinal?". Porque de facto há tanta inconsistência nas medidas políticas, que a gente quase precisa de uma nota escrita para perceber o que pode e o que não pode fazer. E isto é o pior para estabilizar comportamentos”, diz.


De acordo com a professora universitária, um dos problemas de um megaestudo como o publicado na Lancet é que “a certa altura, não se conhece os países o suficiente para fazer uma interpretação significativa” de determinado contexto. Não é por acaso que os autores deixam uma nota final: a análise não tem em conta que governos são mais ou menos democráticos.


A psicóloga política nota que há diferenças de comportamento entre culturas mais coletivistas ou mais individualistas, "mas numa situação destas, termos um conjunto de decisões que hoje são assim, amanhã são assado", e isso é mais relevante. “Seguramente que a inconsistência das medidas políticas é fatal para este processo”, aponta.


Rigidez portuguesa?


Miguel Real, escritor, filósofo e autor do livro “Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa”, vê a dicotomia do estudo da Lancet como limitada e insuficiente. “Culturas frouxas ou lassas são culturas liberais. A cultura da Noruega, Dinamarca ou da Alemanha, são culturas profundamente liberais e que foram menos afetadas que nós”, diz à Renascença.


A comparação entre culturas frouxas ou rígidas “só faz sentido ao nível ético”. De um lado, “os povos que ainda são muito patriarcas, que ainda conservam origens rurais” e que têm uma “geração que foi profundamente rural”. “Passou de filhos para os netos a cultura bastante rígida, do comportamento da família, do comportamento em sociedade”.


Do outro lado, “as culturas mais frouxas são aquelas aquelas que do ponto de vista social se libertaram da ruralidade no século XIX, que é a cultura inglesa, as culturas escandinavas”.


O filósofo recusa a ideia de que tenha havido um certo laxismo por parte dos portugueses e que isso tenha dado origem ao atual pico da pandemia. “Aliás, às vezes pergunto-me, quando leio o jornal de manhã, se tivéssemos sido extremamente rígidos se não estávamos à mesma em confinamento.”


No mesmo sentido, não atribui responsabilidades ao alívio de restrições no Natal. “Não há um mecanismo causa-efeito. Foi o vírus mais inglês, o frio e foi uma terceira vaga. Tínhamos que voltar atrás e não comemorar o Natal para perceber se em janeiro estaríamos assim. Mas isso não é possível. Ficamos nesta ambiguidade.” Essa realidade alternativa será, quanto muito, a premissa de um romance.


Fonte: Renascença


Sem comentários:

Enviar um comentário

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________