Mário Cerol: “O Estado deveria ter assumido responsabilidades na calamidade” - VIDA DE BOMBEIRO

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domingo, 26 de julho de 2020

Mário Cerol: “O Estado deveria ter assumido responsabilidades na calamidade”


Depois de 17 anos ao serviço dos Bombeiros de Alcobaça, 14 de comandante e três como adjunto, vai para o Centro Distrital de Operações de Socorro de Leiria como segundo comandante. Quatro meses depois acontece a tragédia dos incêndios de Pedrógão Grande que o coloca como arguido. Três anos depois e após ser ilibado do processo, Mário Cerol quebra o silêncio.

REGIÃO DE CISTER (RC) > Entrou para a corporação dos Bombeiros de Alcobaça aos 14 anos e por lá se manteve até 2017. A despedida emocionada foi o reflexo do que viveu naquela casa?
MÁRIO CEROL (MC) > É uma casa que me diz muito. Costumo dizer que me fiz homem nos Bombeiros de Alcobaça. Sempre disse que queria ser bombeiro, não era advogado. Tive o sonho de ser comandante e consegui realizar esse sonho. Sempre tive a preocupação de fazer crescer a instituição e fazer crescer os que estavam à minha volta e penso que contribui para isso, apesar das muitas dificuldades, até políticas. Confesso que nem sempre fui compreendido. 

RC > A perda de um bombeiro foi o momento mais difícil que viveu enquanto comandante dos Bombeiros de Alcobaça? 
MC > Vivi dois momentos muito difíceis: um num incêndio em Casais de Santa Teresa com a morte de uma operadora do Comando Distrital de Leiria e depois a situação do João Pombo. Tinha-me despedido dele em São Pedro do Sul. Foi o tempo de chegar a Alcobaça, descansar e acordar com a notícia que havia um problema com um veículo de Alcobaça. Pensei logo o pior, sabia que a situação era grave. Foi muito complicado. Por vezes sinto algum aproveitamento deste tipo de situações e não gosto. Fizemos o que tínhamos a fazer com as dificuldades do momento. Fizemos tudo o que foi possível à família. São momentos que nos fazem crescrer bastante. Tivemos de seguir em frente, passados dois dias houve um incêndio em Rio Maior e o Comando Distrital fez questão que eu fosse comandar um grupo de combate com os meus bombeiros. Havia pessoas para socorrer e essa foi a resposta do corpo de Bombeiros. 

RC > Em 2010 em entrevista ao REGIÃO DE CISTER considerou que Alcobaça apenas se lembrava dos bombeiros na hora da desgraça. Ainda pensa assim?
MC > Nem por isso. Fizemos um trabalho de aproximação às instituições e às pessoas. Mas continuo a defender que os bombeiros não têm de viver da mendicidade. Irrita-me profundamente essas campanhas de pedir água e refeições nas redes sociais. As pessoas que mais dão são as que mais precisam. Hoje em dia os bombeiros não têm necessidade disso. Se estiverem devidamente organizados, é para isso que servem as direções e os apoios devem ser canalizados para essas situações. A realidade é que, ao longo dos anos, a sociedade civil de Alcobaça foi respondendo. Os bombeiros não são e não podem ser os coitadinhos, embora seja esta imagem que muitas vezes passa. Mas essa imagem não é positiva. Os bombeiros são muito mais do que os ‘coitadinhos’... se estiverem devidamente organizados, bem integrados na comunidade e com o apoio da Câmara.

“Irrita-me profundamente essas campanhas de pedir água e refeições nas redes sociais. Hoje em dia os bombeiros não têm necessidade disso” 



RC > No caso de Alcobaça, considera que houve falta de vontade política? 
MC > Sim… confesso que muitas vezes fui visto como um candidato à Câmara. Mas a minha preocupação foram sempre os bombeiros. Se ao longo dos 17 anos tivesse tido mais apoio da Câmara de Alcobaça éramos um concelho diferente a nível de bombeiros. Propus a criação de um agrupamento operacional, de forma a gerir e a racionalizar recursos humanos, equipamentos e meios operacionais no concelho. 

RC > Mas chegou, de facto, a haver um convite para ser candidato à Câmara... 
MC > Sim, chegou a surgir um convite político concreto e com alguns avanços. Mas como nunca me movi muito bem nos corredores da política, senti-me usado nessa altura. Se me sentir chamado para servir a minha terra e se tiver condições para o fizer, nunca digo nunca. O que não tolero é que se misturem as coisas.   

“Os bombeiros não são e não podem ser os ‘coitadinhos’”

RC > Acabou por formar-se em Direito. O que ganha um homem da proteção civil em ser advogado? 
MC > No meu percurso, o Direito foi quase um hobbie. Acabei por exercer para não perder a ligação mas suspendi a inscrição na Ordem quando fui para Leiria e mantenho-a suspensa. A grande paixão são os bombeiros e esta vida operacional. O curso trouxe-me muito conhecimento pessoal e profissional. A legislação nos bombeiros é cada vez mais uma área importante. O Direito é transversal na nossa sociedade e nos bombeiros também foi útil.

RC > Assumir funções no Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Leiria foi uma oportunidade ou um desejo? 
MC > Foi uma oportunidade, o convite já tinha acontecido de uma forma mais ligeira mas tinha dito que não. Estava envolvido nos Bombeiros e na Fundação Maria e Oliveira e nem pensei muito nisso. À segunda vez e depois de 17 anos nos Bombeiros, foi um desafio que procurei. Senti que podia ser útil ao meu distrito. Fui cheio de sonhos que rapidamente se perderam. 
  
RC > O que caiu por terra? 
MC > Muitos programas, nomeadamente o das aldeias seguras. Durante os dois anos em que estive em Leiria procurei ser mais uma voz oriunda dos bombeiros que pudesse defender os bombeiros junto da autoridade. Saí pelo meu pé e por vontade própria quando já não era a vontade de muita gente. Pediram ainda para refletir quando a decisão já estava tomada. Acabo por sair com um louvor pelos dois anos do serviço. Nunca me senti protegido neste processo. Fiz o que tinha a fazer, aguentei o processo como tinha de aguentar dentro da instituição que tinha de estar. Entendi que tinha chegado a minha hora. 

RC > Como recorda o dia 17 de junho de 2017?
MC > Recordo um dia extremamente complicado e um daqueles dias em que nos sentimos muito pequeninos. Foi tudo tão rápido que há poucas explicações. Há a memória que fica para sempre quando se vai à Estrada Nacional 246 e se vê aquela tragédia toda com a consciência do tal direito. Desde o primeiro dia sabia que a situação me ia cair em cima. Será sempre um dia que guardo na memória por maus motivos. Nos dias a seguir houve uma sensação de impotência. A política teve um fator muito importante neste processo. O Presidente da República esteve muito mal, colocou muita pressão no processo desde o início. Tanto que agora até se redimiu: passados três anos foi aos bombeiros de Pedrógão. Quando o processo se começou a desenvolver ouvi críticas de pessoas que não nos conheciam, críticas de políticos, de comandantes, em que alguns só lhes reconheço ser comandantes de secretária, antecessores… essa foi a parte que custou mais. Sempre tive uma vida dedicada aos bombeiros, as pessoas sempre foram a minha prioridade e se for preciso dava e dou a vida por alguém. Tal como respeito muito os familiares das vítimas de Pedrógão. Compreendo o sofrimento deles. O que fizeram é legítimo. Não posso é concordar com a senhora Nádia Piazza. Tinha de arranjar culpados à força toda. Aliás, este processo é essencialmente político. Toda a gente se preocupou com o combate, mas há muita coisa antes: a prevenção, a legislação, as resoluções de alguns políticos que vieram criticar... O Estado é que deveria ter assumido responsabilidades da calamidade que aconteceu e não andar à procura de bodes expiatórios. A política é boa para sacudir a água do capote. Quando chega a hora da verdade toda a gente foge. 

RC > Considera que foi uma das vítimas? 
MC > Sem dúvida. Os operacionais foram um alvo a abater. Nos relatórios todos têm a consciência que não era possível fazer nada e nem havia ninguém em Portugal para prever o fenómeno. Mas nas entrevistas nunca foram capazes de assumir isso. Em Pedrógão Grande arderam 3.800 hectares em 20 minutos, no incêndio de Monchique na semana passada em 24 horas arderam 2.500. Este incêndio era incontrolável... Houve situações de vingança perante o sistema e alguns completamente focados em arranjar culpados para a situação. Estou convencido que este processo vai acabar sem culpados. Só pode. Houve muita informação escondida que estava nos relatórios. É completamente ridícula a ideia de eu estar no incêndio às 17 horas se tenho os papéis da portagem em Pombal às 17:58. Isto foi junto ao processo e entregue à senhora procuradora por duas vezes, no momento da primeira defesa e depois na intrução. A justiça, nomeadamente o Ministério Público, desiludiu-me bastante. Tinha de sustentar a sua acusação mas descobrindo a verdade. Não pode inventar, não pode ser movida por compaixões, como a senhora procuradora disse na sua alegação.   

“A política teve um fator muito importante neste processo [de Pedrógrão]” 



RC > O que foi mais difícil de gerir? O julgamento público ou a “injustiça”? 
MC > A injustiça pelo julgamento. O julgamento público deixa sempre marcas. Senti esse estigma. Foi complicado, até difícil de gerir com a família. Sou uma pessoa que aparento estar muito forte, mas por dentro sabe Deus. A minha terra foi impecável, até com os meus pais. Da instituição que servia não posso dizer isso. Não tivemos apoio de patrocínio jurídico, nunca me perguntaram se estava bem ou se estava mal. Ate dos próprios bombeiros do distrito não sentimos grande apoio. Os bombeiros não se envolveram muito. A mágoa que tenho hoje é que temos um homem, o comandante Arnault, envolvido no processo. Os bombeiros, a Federação, a Liga tinham de estar presentes no tribunal. Aguém tinha de sair em defesa, mostrando união. Mas o discurso foi “agora não é oportuno” e “vamos deixar a justiça fazer o trabalho dela”. Um dos nossos foi injustamente mal tratado. Todos falhámos, mas houve quem tivesse falhado muito mais. Quando saiu a acusação eu e o Sérgio Gomes fomos chamados para nos demitirmos. O senhor ministro assim o entendia... sendo eu um homem do Direito, obviamente que não nos demitíamos. Demitir-me no momento da acusação era assumir uma culpa que não tinha. Se visse que tinha a culpa era o primeiro a vir-me embora. Não precisava que ninguém me mandasse embora.

RC > Também houve quem tivesse utilizado a sua cor política contra si. Que comentários faz sobre essas associações?
MC > Que essas pessoas não conhecem o meu percurso. Apoiei o Dr. Sapinho (PSD), fui mandatário do meu advogado, Acácio Barbosa (PS), e apoiei o Carlos Bonifacio (CDS-PP). Quando se fala que fui nomeado pela política... os outros não foram? Não são cargos políticos? Todos são cargos de confiança política.

“Estou convencido que este processo vai acabar sem culpados. Só pode”



RC > Acredita, por isso, que naquele dia o que aconteceu foi a tempestade perfeita? 
MC > Sem dúvida. Foi numa fase do dispositivo em que os meios não estavam a funcionar na sua plenitude, não tínhamos as equipas todas de combate, houve outros incêndios no mesmo dia... Mas se formos a Pedrógão está exatamente igual ou pior ainda. Outra coisa que não consigo perceber: este incêndio tem processos-crime e nos incêndios de outubro passou tudo ao lado. 

Fonte: Região de Cister

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