"Os Bombeiros Continuam a Ser Marginalizados" - VIDA DE BOMBEIRO

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segunda-feira, 1 de junho de 2020

"Os Bombeiros Continuam a Ser Marginalizados"


No fim de semana em que estariam a comemorar o Dia Nacional do Bombeiro, os voluntários de Castanheira de Pêra só queriam mais gente no corpo ativo. Depois do fogo de 17 de junho - que matou um deles e feriu outros quatro - apenas oito jovens entraram para o corpo ativo. Sentem que pouco mudou, que o país nada aprendeu com aquela tragédia, quase três anos depois.

"Eu precisava neste momento aqui de 20 estagiários para fazer 20 bombeiros novos. E só tenho um". O desejo de José Domingues, comandante dos Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pêra, não é fácil de concretizar. Poderia ser um presente para o Dia Nacional do Bombeiro - que este fim de semana deveria encher de paradas e celebrações os quartéis do país, mas que a pandemia suspendeu. Mas em terras como esta, no interior do país, a realidade é outra: 58 bombeiros, no total. 

Desde o fogo de 2017 há uma ferida aberta naquele corpo ativo, visível logo à entrada do quartel. Uma lona de grandes dimensões, data de 19 de maio de 2018, presta homenagem a cinco soldados daquela guerra de chamas que apanhou um carro de bombeiros da corporação, no fogo de 17 de junho de 2017, em Pedrógão Grande: o chefe Fernando Tomé e o filho, Fernando Paulo, o subchefe Rui Rosinha e a jovem Filipa Rodrigues, e por último Gonçalo Conceição, que acabou por morrer, na sequência dos ferimentos e queimaduras.

Desde então, apenas oito jovens se tornaram bombeiros em Castanheira de Pêra. O comandante prefere não fazer ligação direta com o sucedido, até porque um deles - que se prepara para integrar a Equipa de Intervenção Permanente (EIP) - é filho de Fernando Tomé, e irmão de Fernando Paulo, dois dos acidentados. Pai e irmão continuam muito ligados aos bombeiros.

Rui Rosinha deverá passar ao quadro de honra a breve prazo. Depois do acidente daquele fatídico 17 de junho - que o deixou meses hospitalizado e com incapacidade para toda a vida - sabe que não voltará ao teatro de operações. Mas continua a sentir-se bombeiro, para sempre. "No meu íntimo é isso que eu sou", diz ao DN, numa tarde abafada de maio, na aldeia de Pera, onde participa numa ação da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande (AVIPG), onde é vice-presidente da direção. Já o pai era bombeiro. "Em Castanheira de Pêra sempre houve esse hábito, como se fosse uma tradição. Além disso, embora hoje já não seja assim, durante muito tempo, no interior, os Bombeiros serviam de ponto de encontro e atividades culturais", recorda Rui Rosinha, que ainda tem memória de um efetivo ativo "com perto de 200 homens", até meados dos anos 90, talvez. "Tínhamos muita gente nos incêndios, sempre. Éramos muito bem vistos na região e isso orgulhava-nos bastante", recorda.

Falta um seguro para os bombeiros
Agora que passaram quase três anos, Rui começou finalmente a conduzir. Desloca-se com dificuldade, auxiliado por uma muleta, e emociona-me amiúde, ao longo da conversa, quando fala daquela noite e do tempo que se lhe seguiu. Mas nunca maldisse o dia em que se tornou bombeiro, as vezes em que enfrentou o perigo. "Correu mal naquele dia".

O concelho de Castanheira de Pêra (que nos últimos censos contava cerca de 3100 habitantes) é apenas uma parte do pinhal interior onde sempre houve incêndios. "Não daquela magnitude, como o fogo de 17 de junho, mas já houve outras situações que afetaram o nosso corpo de bombeiros; alguns estiveram mesmo à beira da morte. Presto a minha homenagem ao Amândio Antunes, de quem muita gente se esqueceu, mas que me tem dado muitas palavras de incentivo", declara Rui Rosinha.

Depois daquele fogo de 2017, que varreu toda a região, e do acidente que o envolveu, muitos julgaram que o estatuto do bombeiro voluntário seria revisto pelo Governo. Volvidos três anos, Rosinha não nota grandes mudanças. Olha agora para a importância que assumem na estratégia de combate aos fogos os GIPS (Grupos de Intervenção Proteção e Socorro) da GNR, ou a Força Especial de Bombeiros, e apesar de considerar que "todos somos poucos", não lhe parece que, por exemplo, ao nível de equipamentos, sejam todos tratados por igual. Não falta formação, considera, apenas equipamento "e os famigerados seguros, de acidentes pessoais, que dê garantias ao próprio bombeiro e à família, que se nos acontecer alguma coisa de grave, ficam amparados. E para isso já houve tempo. Vai fazer três anos". Recorda que "algumas corporações, por livre iniciativa, fazem um seguro melhor. Mas não é obrigatório, e deveria ser".

Rosinha - que beneficiou, durante um ano, do seguro que tinha feito - é agora seguido por várias especialidades do Serviço Nacional de Saúde, entre os hospitais dos Covões e da Universidade de Coimbra. É uma lista extensa: cirurgia plástica, neurologia neuromuscular, terapia do sono, medicina interna, entre outras. De acordo com uma portaria publicada no pós-fogo, o Estado "assumiu todos os tratamentos".

Até junho de 2017, o bombeiro era fiscal do Município de Castanheira de Pêra. E bombeiro voluntário desde miúdo. Ao Estado, o que pede para os que todos os dias saem nas ambulâncias e nos carros de combate é "proteção e respeito".

Filipa continua voluntária, mas não volta ao fogo

Filipa Rodrigues tinha acabado de fazer 24 anos quando o fogo lhe trocou as voltas à vida. Deixou-a cá, contudo, para contar o que aconteceu, e para ajudar a prevenir os outros. Também ela faz parte da direção da AVIPG desde janeiro, tal como Fernando Tomé. Também ela traz as feridas no corpo e na alma, as últimas mais difíceis de curar. Continua a ser bombeira voluntária ao serviço da corporação de Castanheira de Pêra, mas não volta aos fogos. As contas clínicas dizem que ficou "com 21% do corpo queimado", atingindo-lhe pernas, braços e rosto. As calças escondem essas cicatrizes, a t-shirt mostra alguma coisa dos braços. Filipa sorri até com os olhos, e é assim que conta como era a sua vida antes daquele fogo: trabalhava como administrativa numa serração, na vila. "Depois do acidente nunca mais voltei, porque não podia estar exposta a poeiras". Atualmente encontra-se a fazer um estágio na área de contratação pública e aprovisionamento, na Câmara de Castanheira, a dois passos do quartel. Quando toca a sirene, está a postos para o que for preciso.

Entrou para os bombeiros quando tinha 18 anos, também o pai já era voluntário da corporação. Foi das primeiras mulheres a integrar o corpo ativo, hoje é uma das oito que permanecem. "Sempre tive esse gosto. Via o meu pai como um herói", conta ao DN. Não podia adivinhar que seria ela a entrar para a história, porque naquele fim de tarde seguia na VFCI 04, com os companheiros. "Passa o tempo, mas as mazelas estão cá. E foi importante fechar o meu processo, porque as avaliações implicam sempre uma grande exposição da nossa parte, o tocarem-nos nas feridas, nas cicatrizes, literalmente".

Filipa continua a fazer acompanhamento psicológico, com uma equipa que vai regularmente a Castanheira de Pêra. À medida que o sobem as temperaturas e se aproxima a data, sente que mais precisa desse apoio. De resto, prometeu à família que não voltaria ao fogo, sobretudo à irmã mais nova, que tem agora 11 anos. Mas nunca lhe passou pela cabeça deixar de ser bombeira: "nós somos poucos e a minha terra precisa de mim".

Cada vez menos voluntários
"Não sei se será essa a causa. Não é fácil hoje os homens e mulheres privarem-se da família, dos amigos, de festas, para fazerem formação e integrarem os bombeiros", diz ao DN o comandante, quando lhe pedimos uma explicação para o número reduzido de novos bombeiros, desde então.

"A maioria dos jovens vai estudar para fora, ou trabalhar. Embora aqui não haja falta de emprego. As empresas que estão aí são suficientes para a pouca população. O que também está a afastar os jovens do voluntariado é a falta de ajudas e benefícios, por parte do próprio Estado", considera José Domingues, bombeiro há 45 anos, no comando desde 2007.

Em terras pequenas como Castanheira de Pêra, são os municípios que acabam por suportar os bombeiros. Os gastos são muitos, nomeadamente em equipamentos de proteção individual.

José Domingues regressa outra vez a 2017 para lembrar como, depois do fogo, as oito corporações envolvidas receberam equipamentos suplementares. "Praticamente todos tínhamos um equipamento só. Mas independentemente disso há outros apoios que a tutela tem obrigação de ajudar a suportar, nomeadamente as obrigações que os bombeiros têm", sublinha.

Passaram três anos, não há grandes alterações. No dispositivo de combate a incêndios rurais "acabaram por nos dar mais quatro euros em relação ao que estava protocolado. Isso não é nada. Continuamos a ser prejudicados, a ser marginalizados. Continuamos a servir de bode expiatório e é muito injusto da parte da tutela fazer o que está a fazer. Não temos na proteção civil um comando identificado connosco", desabafa o comandante.

É sábado à tarde e no quartel estão meia dúzia de voluntários, jovens, bem-dispostos, preparados para o que vier. Mas Há situações que urge resolver, como lembra José Domingues. "Temos o caso do comandante Augusto Arnault, de Pedrógão Grande, que vai a julgamento. Até parece que os bombeiros é que foram os culpados do incêndio de 2017. E é uma injustiça o que lhe estão a fazer", considera. "A única coisa de que eu tenho pena é de não estar cá desde o princípio, porque de certeza absoluta que estaria com ele sentado no banco dos réus".

Passaram três anos, a região está cada vez mais "um barril de pólvora", como também lhe chama o comandante José Domingues. Para mal de todos - e não só dos bombeiros - acredita que o país não aprendeu grande coisa com a tragédia. "Por mais que se façam limpezas, linhas de contenção, eu ainda estes dias tive a experiência: há duas semanas limpei um terreno meu, junto à zona industrial, e as ervas já estão do mesmo tamanho...estas diferenças de temperatura e alterações climáticas não dão tréguas". Ainda assim, José Domingues acredita que o descuido nas faixas de gestão e combustível continua. "Acho que não há o empenhamento das entidades que deveria haver".

Ao nível dos carros de combate e auxílio que podem dar àquela população, "estamos muito bem", reconhece José Domingues: cinco carros VFCI (veículo florestal de combate a incêndios), mais quatro VF"s - um na oficina, que lá permanece porque falta a verba para pagar o arranjo). O comandante faz uma pausa para contar como a pandemia alterou, também, as receitas dos bombeiros - ao nível dos transportes de doentes, por exemplo. Isso obrigou a um plano de contingência, a pedir auxílio ao Município, à Junta de Freguesia, até às assembleias de compartes.

A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pêra terá à volta de 900 sócios. "Mas muitos não pagam as quotas. É um euro por mês...12 euros por ano". Também vão longe os tempos em que o salão dos bombeiros se enchia de gente nos bailes de carnaval, santos populares e outras festas, com boas receitas no bar. A desertificação deixou marcas também aí. Desse tempo resta o Natal do Bombeiro (ainda compram presentes para os filhos, até aos 14 anos), mas sem os peditórios pelo concelho, que rendiam alguma verba.

A 19 de maio, a corporação assinalou 72 anos de vida. Foi um hastear de bandeira simbólico, sem festejos, devido à pandemia. Domingues entrou para os bombeiros em agosto de 1974, num tempo em que a corporação era fruto "de homens rudes, humildes". "Às vezes olho aqui para as paredes e vejo as placas com o nome deles, tinham pouca formação. O primeiro curso de socorrismo que aqui tivemos, dado pela Cruz Vermelha, foi em 1976. E sinto muito orgulho neles".

Uma marca que nunca se apaga
A 17 de junho de 2017 o comandante não estava em Castanheira de Pêra. Quando o fogo deflagrou, disputava em Albergaria-a-Velha um torneio de veteranos em futebol, entre muitos bombeiros. Quando chegou à terra, pelas 22h30, já o fogo tinha dizimado tudo à volta, já os seus bombeiros tinham sido vítimas de um acidente. Conta ao DN que acompanhou tudo à distância, estava em contacto com os homens, tinha o sistema siresp ligado.

O fogo deixou feridas em todos, "é uma marca que nunca se conseguirá apagar. Depois há uma série de situações que agrava tudo, a ligação que temos extra bombeiros". Numa vila pequena, em que os bombeiros são amigos, familiares entre si, não há barreiras.

Os meus bombeiros nunca desarmaram. Nem nessa hora. O que fizeram foi de uma abnegação espetacular

"Conheço-os todos desde pequeninos, quase. Alguns fui eu que lhes dei a formação. Era raro o dia em que não visse o Gonçalo. Ele mora [morava] mesmo à minha frente. Era um elemento a quem eu ligava, se não tivesse aqui ninguém, e ele vinha ajudar a resolver a situação. Nem que fosse à hora do meio dia" - porque Gonçalo "Assa" trabalhava com os pais na churrasqueira da família.

É assim que os bombeiros se lembram dele: "era muito disponível, uma alma generosa que dava a camisa e ia comprar outra para dar, se fosse preciso".

A última conversa aconteceu ao telefone, poucas horas antes do acidente que o vitimou - e deixou em estado grave os restantes bombeiros que seguiam no carro. Gonçalo e os companheiros combatiam um fogo em Figueiró dos Vinhos, quando deflagrou o outro, em Pedrógão.

"Eh pá, onde é que estás?"

- Olha, onde tu devias estar (porque ele também fazia parte da nossa equipa de veteranos)

"Vê lá se mandas um carro para ao pé de casa da D. Conceição!" (cozinheira na Churrasqueira, moradora no lugar de Regadas Cimeiras)

- Mas ó Gonçalo, o pessoal já está todo na rua, os carros já estão todos distribuídos!

"pronto, deixa estar que a gente desenrasca-se".

- com vocês está tudo bem?

"Tá tudo bem. Vamos agora para cima"

Gonçalo desligou e seguiu para o combate. Foi a última vez que falaram. O bombeiro não resistiu aos ferimentos. Dois dias depois, a 19 de junho, enquanto o corpo era velado no salão do quartel, sucediam-se reacendimentos do fogo. "Os meus bombeiros nunca desarmaram. Nem nessa hora. O que fizeram foi de uma abnegação espetacular".

No seio da corporação, muitos acreditam que talvez esse tenha sido o antídoto para a dor de perderem Gonçalo, de saberem entre a vida e a morte os que o acompanhavam, naquela hora: Rosinha, Filipa, Tomé e o filho, Fernando Paulo. Afinal era isso, desde o princípio: vida por vida.

Fonte: DN

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