Os dias de um bombeiro em isolamento numa caravana. "O pior é ouvir os carros a sair para ir buscar doentes e não poder ir também" - VIDA DE BOMBEIRO

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segunda-feira, 13 de abril de 2020

Os dias de um bombeiro em isolamento numa caravana. "O pior é ouvir os carros a sair para ir buscar doentes e não poder ir também"


Hugo Alves tem 24 anos, é bombeiro desde os 19 e está isolado numa caravana emprestada por uma empresa de viagens turísticas da zona do Porto, mesmo ao lado do quartel dos bombeiros de Coimbrões, onde até há 15 dias passava os seus dias, os seus melhores dias, segundo ele próprio. O que lhe custa mais é saber que ainda não está livre para voltar a transportar para o hospital quem mais precisa.

Esta segunda-feira que ainda não chegou faz 15 dias que Hugo Alves deixou de sentir o sabor das coisas, deixou de distinguir os cheiros. “Podia ser a comida mais forte que eu não sentia nada”, conta ao Expresso, ao telefone, a partir da caravana onde só estará mais um dia isolamento - este domingo de Páscoa. “Não sentia o cheiro de nada, a comida não sabia a nada então fui à internet e reparei que este era um dos sintomas de covid-19”. Fez um teste e confirmou o diagnóstico temido.

A culpa foi da profissão que Hugo exerce desde os 19 anos. “Começamos a refazer os passos e reparámos que foi durante um transporte de um doente que terei ficado doente”. Os bombeiros fazem grande parte do transporte de pacientes para o hospital, nem sempre têm a proteção adequada “muito menos numa altura em que ainda não se sabia muito bem o que isto era, qual era exatamente a precaução a ter, e mesmo que doença era esta”.

A esta confusão dos primeiros dias juntou-se a muito humana vergonha. Como explica o jovem bombeiro, “as pessoas têm medo, vergonha, de dizer os sintomas todos porque não querem ficar com esse rótulo, com o autocolante de doente covid-19 nas suas áreas de residência e por vezes só dizem uma parte, com medo que não as queiramos transportar ou tocar mas claro que para nós, bombeiros, o importante é ajudar, seja qual for a doença”.

Num ofício enviado à secretária de Estado da Administração Interna, Patrícia Gaspar, já a 26 de março, a Associação Portuguesa de Bombeiros Voluntários manifestava preocupação com a falta de equipamento de proteção individual (EPI), o que está a levar a que as corporações de bombeiros estejam a atingir o limite da sua capacidade de intervenção, uma vez que “não têm condições de segurança para intervir” e prestar socorro aos doentes com covid-19.

Para a APBV, esta situação “não é estranha”, tendo em conta que a maioria das corporações de bombeiros “apenas recebeu meia dúzia de equipamento de proteção individual por parte da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), que é a entidade que tutela os bombeiros em Portugal”. A associação realçou que as corporações de bombeiros têm registado, desde o estabelecimento do estado de emergência, um aumento do número de ocorrências no âmbito da pandemia de covid-19, o que fez também aumentar o uso dos EPI.

Segundo o comandante da unidade, Luís Aráujo, na altura Hugo estava equipado “para a informação que o INEM nos deu quando solicitou o serviço: máscara, óculos, luvas e avental impermeável”. Mas como também já nos tinha dito Hugo, “a informação recebida não fazia referência a suspeita de covid-19”. Por vezes são os doentes que não se explicam bem, não sabem onde dói ou se a tosse é diferente da tosse de tantos outros dias. Nessa altura, como explicou o comandante Araújo, “ainda nenhuma entidade oficial tinha distribuído equipamento, e o que tínhamos foi conseguido pelo esforço financeiro enorme da nossa associação e com o contributo de particulares e empresas”. O ministério da Administração Interna fez saber ao Jornal de Notícias que está a estudar apoios para a perda de rendimentos das corporações de bombeiros.

Em casa, Hugo Alves tem quatro pessoas, não podia lá ficar; e no quartel também não porque há outros bombeiros em isolamento, cada um num quarto, precisamente por terem estado em contacto consigo quando já estava infetado. “Eu até tinha um quarto em casa mas não tenho uma casa de banho para mim sem potencialmente estar a contaminar espaços que a minha família também vai usar”. Foi então que surgiu a ajuda da ISTAS HAL, uma empresa de hotelaria e atividades ar livre sediada em Vila Nova de Gaia.

A ideia partiu de Pedro Castro, fundador, e agora coordenador da iniciativa “ISTAR contra a covid-19”. Nos hospitais e corporações de bombeiros, a ideia de proporcionar locais de descanso aos profissionais no próprio local de trabalho foi bem acolhida e demorou pouco até passar à prática. “Há profissionais de saúde e bombeiros que chegam a trabalhar 80 horas por semana. Depois dos turnos, ainda têm de perder tempo com as deslocações. Se as caravanas estiverem estacionadas logo ali ao lado, podem pernoitar ou fazer pausas de três ou quatro horas sem saírem dos hospitais e quartéis e com muito conforto”, disse Pedro Castro também ao Expresso, num artigo já publicado sobre este projeto.

A caravana, verde alface e com inscrições a dizer “campista independente” em inglês, foi estacionada ao lado do quartel e é lá que Hugo vive há “gigantescos 14 dias”. “Estou afastado do meu trabalho e dos meus colegas, e isso é que mais me custa, ouço os carros saírem para apanhar doentes e queria mesmo, mesmo estar lá”. A paixão de Hugo por esta profissão tem muitos anos - “corria sempre para a janela para ver os carros dos bombeiros a passar” - e por isso, mesmo doente, não é a doença que lhe custa mas, antes, não estar a fazer parte do esforço dos bombeiros para que os cidadãos cheguem mais rápido às suas curas.

O quartel está com as tropas a meio gás. Doze bombeiros estão em isolamento profilático, Hugo é um deles mas está em isolamento necessário. No total são 25. Estão metade. Este domingo o bombeiro fez o teste de novo, a ver se já está sem vírus. “Espero mesmo que sim, já não tenho sintomas”. Quer voltar ao quartel mas toda a vida se transformou nas instalações da corporação de Coimbrões, como explica o comandante: “Ora vamos lá ver, temos então três quartéis neste momento: um para os que têm de ficar em isolamento e não têm condições em casa para ficarem em isolamento, ou não querem porque não querem pôr em risco as famílias, são cinco mais o Hugo na caravana; temos os bombeiros que continuam a fazer a recolha de doentes, o chamado pré-hospital, e os voluntários de reserva. Todos têm a sua temperatura medida duas vezes ao dia”. Um dia tem sempre mais do que 8 horas de trabalho. Hugo tem um salários dos bombeiros, não é apenas voluntário mas, como explica o comandante “para se ser assalariado temos de ser voluntários. Um assalariado pode acabar as 8 horas de turno normal e a seguir ir fazer piquete como voluntário outras 8, 12 ou mais”.

Hugo pouco se ausenta da caravana. Tem um perímetro autorizado e vai falando com os amigos que estão dentro do quartel, através do Whatsapp, messenger, chamadas de vídeo em conjunto e outras aplicações. “Tudo isso ajuda mas não é a mesma coisa. A minha coisa preferida sobre as pessoas são as expressões que fazem quando falam, a forma com enrugam a cara quando não concordam com alguma coisa, gosto de ver as pessoas a interpretar o que está à volta, a reagir na hora, gosto muito disso, do grupo, das dinâmicas de grupo, sinto muita falta disso”, conta.

Já deu voltas à caravana, já fez exercício, já se sentou nas escadas de acesso à sua nova casa “a levar com aquela chuva que caiu ontem ou anteontem na cara”.

Os bombeiros estão naquela linha que é mais à frente ainda do que a dos hospitais, são os que vão reconhecer o terreno onde se podem esconder inimigos bem camuflados. “Muita gente brinca com isto mas eu, que tenho 24 anos e sou ativo, estive ali uma noite bastante mal. Queria levantar-me para vomitar mas as dores no corpo são tantas que tu não sabes o que fazer: levantas-te ou não? Mudas de posição e ficas com mais vómitos ou deixas-te estar e ficas com as dores? Até o barulho dos pássaros nas árvores me enervavam”.

Na sua casa improvisada tem tudo: cama, mesa, bancos, ar condicionado, café, televisão, electricidade, música, e fotos de carros de bombeiros coladas nas paredes do veículo: falta aquela palavra tão óbvia: liberdade. “Quando fiz o teste e deu positivo foi um pouco estranho, nunca me imaginei nisto, vês nos outros mas nunca vês em ti mesmo, porém nós estamos em contacto direto com centenas de doentes, é normal acontecer”.

Fonte: Expresso

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