Quando os Bombeiros Passam a Ser Psicólogos - VIDA DE BOMBEIRO

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sábado, 11 de janeiro de 2020

Quando os Bombeiros Passam a Ser Psicólogos


Poucos serão os bombeiros que não se identificam neste texto, de uma forma ou de outra, numa ocorrência ou noutra, acabamos por ser os confidentes dos doentes que socorremos. 

As doenças súbitas são o grande grosso do nosso dia a dia, pelo menos no meu são.

Somos confrontados com centenas de chamadas por ano para situações que muitas das vezes não justificam a ida a um hospital e muito menos o transporte numa ambulância, mas não estamos aqui para decidir quem deve ou não ser transportado numa ambulância, quem deve ou não ser atendido num hospital, cada um sabe de si, e não nos compete a nós julgar quem quer que seja.

Nos últimos tempos, infelizmente, tenho socorrido muita gente assim, gente que precisa de ajuda, gente que precisa de alguém, gente que infelizmente não têm ninguém para lhes fazer companhia e muito menos alguém com quem conversar, simplesmente conversar.

Chego à conclusão que em certa parte somos culpados, e somos culpados porque sabemos que existem estes casos, somos culpados porque sabemos que existem homens e mulheres que vivem no Lumiar da pobreza, porque sabemos que existem pessoas que vivem em profunda solidão quer por abandono da família ou até porque simplesmente não têm mais ninguém neste mundo, e nós o que fazemos?, nada, rigorosamente nada.

Fico triste quando vou socorrer alguém que liga para o 112 a dizer que tem falta de ar, quando na realidade essa pessoa simplesmente precisa de alguém com quem conversar, precisa de alguém que o ouça, precisa de alguém que o faça sentir útil neste mundo, precisa de alguém que simplesmente a ouça e que não diga nada porque em grande parte das vezes, estas pessoas só precisam que as ouçam, só precisam que lhes dê a mão, só precisam que as façam sentir seguras.

Sei que quase todos os bombeiros já terão passado por uma situação semelhante, uma situação em que numa pequena janela de 40, 50 minutos, ficamos a saber  praticamente da vida destas pessoas, ficamos a saber o que mais ninguém sabe, e ninguém sabe porque simplesmente estas pessoas não tem mais ninguém a quem contar as suas histórias de vida, e no final, quando chegamos ao hospital, pedem-nos desculpa por nos terem "chateado" naquele pequeno espaço de tempo e ainda nos agradecem pelo pouco tempo que as ouvimos.

Em alguns destes casos acabamos por ver também a "velha" situação de quem vai ao hospital porque não tem o que comer em casa.

É triste ver o que se vai passando à nossa volta, é triste ver estas pessoas morrerem um pouco todos os dias, é triste saber que algumas destas pessoas tem família que simplesmente não querem saber deles para nada e ainda fazem de conta que não os conhecem.

Em pleno século 21 ainda se vive na miséria em alguns locais bem perto de nós, e por muito que tentemos que estas coisas não mexam com o nosso subconsciente, isso torna-se praticamente impossível, porque somos humanos, porque temos sentimentos, porque sabemos que "amanhã" podemos ser nós numa situação destas.

Dia após dia vamos ouvindo coisas que nem ao diabo interessam, e no final do serviço, acabamos por servir de psicólogos a estes doentes.

É nossa obrigação e nosso dever ajudar dentro dos possíveis estas pessoas, pois hoje são eles, mas amanhã podemos ser nós.

José Filipe
Fundador Vida de Bombeiro

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