O Inferno dos Outros - VIDA DE BOMBEIRO

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domingo, 5 de janeiro de 2020

O Inferno dos Outros


Uma mulher grávida recusa apertar a mão ao primeiro-ministro australiano, em visita a áreas afetadas pelos fogos. Os repórteres captam o momento em que a mulher fita Scott Morrison com um olhar frio, enquanto a mão dele está pendurada no vazio. Aos jornalistas, Zoey McDermott explicaria depois porquê. "Ele apenas queria fotos", acusou. "Teria todo o respeito por ele, por qualquer líder, se se sentasse connosco e discutisse o que precisávamos".

As previsões meteorológicas anunciam para hoje o inferno na Austrália, mas o inferno dura há mais de três meses. Os incêndios avançam em frentes com centenas de quilómetros, consomem casas e infraestruturas, já mataram pelo menos 18 pessoas e fizeram outros tantos desaparecidos. Há milhões de animais mortos, incluindo de espécies em vias de extinção - estima-se que tenham já morrido dois mil coalas. Operações de evacuação em massa tentam proteger populações e turistas.

Na Austrália ouvem-se discussões de sempre, como a do combustível oferecido pelos eucaliptos, mas analisam-se dados novos. Os sucessivos recordes de temperatura atingidos são apenas os sinais mais evidentes de um quadro meteorológico extremo, fruto das alterações climáticas. As mesmas que deixaram Moscovo sem neve na época natalícia, levando as autoridades a lançar flocos artificiais para as comemorações.

As icónicas imagens da passagem de ano na baía de Sydney foram, este ano, uma estranha metáfora do autismo com que nos movemos no Mundo. Festejou-se como sempre, em estoiros de 3,5 milhões de euros, enquanto o país ardia. Convivemos bem com o inferno desde que ele esteja longe de nós. Como Zoey, a mulher grávida que reclamou discutir medidas em vez de cumprimentos afetuosos, devemos olhar os poderes políticos de frente e exigir que façam mais enquanto é tempo. Porque o inferno da Austrália é o nosso.

Inês Cardoso in JN


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