Área ardida na Austrália já é maior do que o território de Portugal (mas a intensidade é o pior problema) - VIDA DE BOMBEIRO

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sábado, 11 de janeiro de 2020

Área ardida na Austrália já é maior do que o território de Portugal (mas a intensidade é o pior problema)


Estimativas apontam ainda para que os incêndios tenham feito arder 50% mais território do que na Amazónia, mas especialista portuguesa explica que são dificilmente comparáveis. Os fogos sazonais estão fortemente integrados no ecossistema do outro lado do mundo

Contactado pela versão australiana do “The Guardian”, um operacional do QFES esclareceu que o número é resultado de um “inquérito mais abrangente”, possível porque o número de fogos baixou nos últimos dias. Os números não são ainda finais – e há estimativas mais conservadoras –, mas só no estado em causa estão identificados 2,5 milhões de hectares (25.000 km²) ardidos.

Outra comparação inevitável é com a Amazónia, face ao impacto mediáticos dos fogos que ocorreram na região em 2019. A área ardida na Austrália supera em 52,86% a contabilizada entre janeiro e novembro na Amazónia brasileira, que é estimada em 70.698 km², segundo dados do programa Queimadas, do Instituto Nacional de Programas Espaciais (Inpe).

No entanto, explica ao Expresso Fantina Tedim, professora de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a comparação entre as duas situações pode não ser correta – e não é só uma questão de se tratar de dois períodos de tempo distintos.

“No norte da Austrália, nos territórios aborígenes, existe o uso do fogo como instrumento de gestão da floresta. Arde sempre uma área grande, mas com pouca intensidade. O ecossistema está adaptado e não há danos ecológicos nem sociais”, descreve. Por sua vez, a floresta amazónica não tem a mesma tendência a queimar naturalmente – é por isso que é denominada de floresta húmida.

A investigadora não quer que haja dúvidas: mais de 10 milhões de hectares ardidos são um número gigantesco. Mas, para Tedim, o verdadeiro problema não é o tamanho, mas sim a intensidade com que essa área ardeu, nomeadamente no sudeste do país. “Estes incêndios não são controláveis, nem na Austrália, nem nos Estados Unidos, nem em país nenhum”, sublinha. Por isso mesmo foram ordenadas evacuações em massa.

De acordo com os modelos climáticos, estes incêndios extremos – uma das áreas de estudo desta geógrafa – “têm tendência para ocorrer mais vezes e com mais violência”. Por isso é que defende que as sociedades em que há condições naturais para estes fenómenos - e isto inclui os países mediterrânicos, como Portugal - têm de “aprender a gerir o fogo”. “Já existia antes de chegarmos à Terra, como um elemento do ecossistema", frisa.

Para Fantina Tedim, “não é necessário que os incêndios extremos provoquem vítimas”, mas para isso é preciso preparar as populações para tomar as medidas adequadas – algo que, ressalva, tem sido feito na Austrália, mas que é difícil de assumir politicamente. "A partir de 10.000 kilowatt (kw) por metro na frente de fogo, não há nada a fazer", precisa. Em Pedrógão Grande mediu-se 60.000 kw.

INCÊNDIO EM PEDRÓGÃO LAVROU EM 0,5% DA ÁREA ARDIDA NA AUSTRÁLIA
Em relação a outros grandes fogos registados nos últimos anos, nomeadamente na Sibéria, no ano passado (os 29.947 km² referem-se a um ponto de situação das autoridades russas a 31 de julho), e na Indonésia, em 2015, a dimensão dos fogos na Austrália é esmagadora, como é explícito na infografia.

Por sua vez, a área ardida em 2017 em Portugal, o ano dos grandes incêndios, parece insignificante: representa apenas 5% do que já ardeu na Austrália, numa época de incêndios que, recorde-se, ainda está em curso, .

A comparação, já percebemos, não pode ser feita apenas em termos de área – e mesmo indo por esse caminho temos de considerar a dimensão do território australiano, 83 vezes maior do que o português.

Por outro lado, as vítimas e os danos materiais resultantes do incêndio são porventura a maior medida social para determinar se houve ou não uma catástrofe: se na terra dos cangurus e dos coalas morreram nos últimos meses 28 pessoas e ficaram feridas pelo menos 41, só em Pedrógão Grande - um fogo que lavrou em 0,5% da área ardida na Austrália - registaram-se 66 mortos e 253 feridos.

Fantina Tedim esclarece que “não há uma relação direta entre a energia dos incêndios e as suas potenciais consequências” e destaca mais uma vez a importância da prevenção e do planeamento para evitar mortos e feridos. Isto com a consciência de que será difícil que os políticos deixem de defender um modelo baseado no objetivo da extinção, o mais rapidamente possível, dos incêndios.

“Em 1755, o filósofo Jean-Jacques Rousseau defendeu que a natureza não teve culpa do sismo que afetou o sul do país, porque ela não tinha nada a ver com o facto de Lisboa ter ruas apertadas e edifícios elevados. Foi preciso chegarmos a 1976 para que, na revista científica ‘Nature’, surgisse um artigo em que se lia ‘tirem a natureza das catástrofes'”, compara.

Fonte: Expresso

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