"Mamã, Não Quero Morrer" - VIDA DE BOMBEIRO

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segunda-feira, 15 de abril de 2019

"Mamã, Não Quero Morrer"


Havia um cheiro estranho no ar. A queimado. Entretida no telemóvel, ignorou. Estava habituada às fogueiras dos vizinhos. Ao Domingo. Principalmente ao Domingo. 

A mãe entrou esbaforida pela casa dentro. A aldeia estava a arder. O fogo a lamber as casas. E a delas também. Ela. Menina. Ainda uma menina. Lembrou-se daqueles carros queimados na televisão. Das notícias que falavam de pessoas queimadas na estrada. Encurraladas no inferno. Correu para os livros da escola. Meteu no saco da ginástica, os livros, os cadernos, o tablet, os ténis brancos todos sujos e aquelas calças de ganga rasgadas, que a mãe detestava. 'Não tiras esse farrapo do corpo? Rais parta a canalha de hoje!'. 

Ouvia o gritos na rua. Os cães a ladrar. A mãe aos prantos. Correu. Escorregou no tapete. Caiu. Levantou-se. Saiu a porta. A casa dos vizinhos lá de Lisboa, a arder. Ao fundo da rua de chão de pedra. As chamas altas. Um nevoeiro de fumo. Era a casa da senhora holandesa, elegante e alta. Do marido de óculos, sempre de livro ou jornal debaixo do braço. Ainda na semana passada os tinha visto lá. A senhora holandesa à janela logo de manhã a sorrir para o ar, para as árvores, para os pássaros e para ela, ao passar. E agora o fogo a assomar à janela. E aquela imagem dos carros queimados na estrada na televisão e na internet, a fustigar-lhe a cabeça. 

A mãe como louca a chamar por ela: 'Foge, foge. Meu Deus! Corre, corre...'.

E ela a correr. Os olhos a picar. Fogo, fumo, fogo, fumo. Por todos os lados. E coração doido. As pernas a doer. A respiração a falhar. E a imagem daqueles carros queimados. E o grito, o grito, pela mãe: 'Mamã, mamã, não quero morrer'.

Fotografia: EPA/MIGUEL A. LOPES
Texto: ANA PEIXOTO FERNANDES
Através de: O blogue da Kika

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