Carta Aberta a António Costa - VIDA DE BOMBEIRO

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Carta Aberta a António Costa


Caro primeiro ministro. Hoje centenas de bombeiros sapadores tentaram invadir o ministério do trabalho como forma de protesto contra o aumento da idade da reforma e a redução dos seus salários proposta pelo seu governo. Depois de serem ignoradas as suas recomendações decorreu nas ruas de Lisboa um protesto inesperado e, por isso, os bombeiros têm sido acusados por alguns de “arruaceiros” ou “infantis”.

Escrevo esta carta porque estou farto da hipocrisia de covardes como o senhor, que durante as catástrofes usam e abusam dos bombeiros para proveito político, mas depois abandonam-nos e destratam-nos.

Num país onde um futebolista é notícia e tema de conversa por dançar num programa de televisão ou o presidente da república liga para um outro programa em direto apenas para ser notícia no telejornal a seguir, passou despercebido na imprensa nacional que o seu governo notificou centenas de bombeiros a pagarem multas por excesso de velocidade em casos de urgência.

O seu governo, que em 2017 perdoou oito grandes empresas de pagarem ao Estado mais de 70 milhões de euros em juros, coimas e custas, é o mesmo executivo que prepara-se para levar a tribunal vários bombeiros que se recusam a pagar multas contraídas em trabalho com valores entre os 250€ e os 600€.

No mesmo país onde pessoas como Inês Medeiros, presidente da câmara municipal de Almada, defenderam recentemente que “devia haver subsídio de desemprego para ex-deputados”, sabemos hoje que Rui Rosinha, o bombeiro herói que ficou com apenas 85% das suas capacidades, sobrevive com uma pensão mínima de 267€ mensais. Embora o seu governo recuse admitir o erro, desde então Rui Rosinha já fez mais 14 operações.

O primeiro ministro que achou lamentável que houvesse “aproveitamento político” em cima do drama dos fogos em Pedrógão Grande, foi o mesmo primeiro ministro que decidiu fazer uma entrevista televisiva num quartel de bombeiros, pouco tempo após a tragédia. É o mesmo primeiro ministro que se recusou a pedir desculpas aos bombeiros voluntários depois do seu ministro da administração interna ter afirmado no final de 2018 que o socorro em Portugal poderia estar em risco por causa das medidas anunciadas pela Liga de Bombeiros. A incompetência do governo foi e é a causa responsável pelos milhares queimados e as centenas de vidas perdidas.

O primeiro ministro que todos os anos fala na “necessidade de reforçar os meios dos bombeiros” é o mesmo líder de um governo que propôs que os bombeiros passassem a ir de comboio para os incêndios para “evitar desgaste de carros”. É o mesmo primeiro ministro que embora agora fale em “apostar na prevenção dos incêndios”, enquanto ministro do interior de José Sócrates foi responsável pelo desinvestimento na prevenção e, em 2018, anunciou que os bombeiros voluntários não teriam verbas para prevenir incêndios, mais uma vez.

Senhor primeiro ministro, admito que não espero muito do mesmo homem que, enquanto Portugal ainda ardia e a contagem de vítimas não tinha terminado, decidiu tirar umas férias em Espanha. Por isso, esta não é uma carta partidária, mas sim uma carta de alguém que, tal como muitos mais portugueses, está farto de assistir à desonra dos bombeiros por covardes. Mais do que o título de heróis está na altura de os começar a tratar como tais.

Tenho dito.
Gaspar Macedo

Sem comentários:

Enviar um comentário

________________________________________________________________

_______________________________________________________________

--------------------------------------------------------------------------------------------------

________________________________________________________________

________________________________________________________________