"E a Nós... Quem nos Acode?" - VIDA DE BOMBEIRO

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terça-feira, 30 de outubro de 2018

"E a Nós... Quem nos Acode?"


Mais um dia em que via nascer o sol no meu quartel, um dia que nascia particularmente ventoso, o que, aliado a um aconchegante sol de Outono, não abonava a nosso favor.

Às primeiras horas da manhã, soava o primeiro alarme para incêndio, numa zona de pastagens em Santo António dos Cavaleiros, e como o ECIN já não era senão parte integrante de uma memória já ida, lá fomos nós…fazer aquilo que sempre temos feito com rigor, profissionalismo e muita dedicação ao longo de tantos anos…ser Bombeiros.

Com o espírito de equipa que cultivamos todos os dias, articulámo-nos de forma a resolver o pequeno incêndio antes que o vento intenso nos trocasse as voltas, mas alguém teimara em repetir o “descuido” umas centenas de metros à frente e uma nova coluna de fumo escuro anunciava mais trabalho. Pedi o apoio dos Bombeiros vizinhos com a promessa de os ajudar assim que terminasse o meu trabalho…arrepiando caminho para não tardar a ajuda.

Em poucos minutos, também já estava no local, chegando ao mesmo tempo dos colegas que apareciam ao longe, do lado oposto do incêndio, que entretanto ganhara corpo com o vento intenso a seu favor devorando as pastagens secas. Pedi mais meios para as coisas não falharem e uma vez mais os Bombeiros das redondezas voaram em nosso auxílio.

Chegaram rapidamente e numa fácil articulação de meios, já o incêndio estava extinto e já nós nos cumprimentávamos entre apertos de mão e sorrisos… 

Bombeiros, como nós, eram as mesmas caras do dia-a-dia, de todos os dias de vários anos… mais um leque daqueles bravos combatentes que sobram quando o Verão acaba e as televisões se esquecem de que há trabalho para além dos fogos na época crítica…

Despedimo-nos agradecendo o apoio e fazendo piadas por nos ter faltado o helicóptero…que em fogos tão mais pequenos já ali pousara três vezes…e regressámos ao quartel. Pelo caminho, ainda comentámos entre nós que com tanto vento não seria bom se estourasse algo mais a sério…o que acabou por suceder.

Mal acabávamos de almoçar e já o telefone gritava, pedindo com urgência um veículo de combate para fora do concelho junto à Malveira, onde um incêndio lavrava com intensidade devido aos fortes ventos e difíceis acessos, sem condições para os meios aéreos actuarem…

Ao longe erguia-se uma coluna de fumo negro, num dos picos mais altos da região e lá fora, o vento dobrava as árvores quase a meio prometendo uma luta desigual no topo daquelas serras.

Chegámos então e no meio da azáfama habitual, uma sensação de déjà vu…em todos os carros que partilhavam o combate, as mesmas caras de sempre…os Bombeiros de todo o ano.

Recebemos a missão e subimos pelo meio do fumo, com outros carros no nosso encalce, enquanto o fogo esse, se erguia bravo até ao topo mais alto que a nossa vista alcançava…a centenas de metros de distância empurrado por um vento intenso que mal nos permitia estar de pé…

Olhámo-nos nos olhos e acordámos entre nós que o caminho era aquele…seguindo fortes e unidos até ao topo!

Com as bombas no grito, esticámos lances atrás de lances, despejámos malotes atrás de malotes, furando o fumo espesso entre palavras de incentivo, enfrentando o calor intenso e o crepitar ensurdecedor dos carrascos a arder… A pouco e pouco, o pico mais alto foi ficando cada vez mais perto, até que finalmente o alcançámos, fustigados pelo vento e a fuligem, desgastados pelo declive e pelos longos metros de mangueiras que deixáramos para trás…

Ali, no alto daquela serra onde só agora percebia que já por lá andara nos meus treinos, e onde o sol se começava a esconder, reflecti por momentos sobre tudo o que vira e ouvira desde que o sol nascera há muitas horas atrás no meu quartel.

Começara a manhã revoltado com as notícias de que uma vez mais, o Governo preparava medidas para dignificar a profissão que eu escolhi há trinta anos atrás e que afinal não me era reconhecida. A ouvir que afinal, bombeiros sapadores, bombeiros municipais, bombeiros especiais e até sapadores florestais viam reconhecido o seu trabalho e carreiras, alguns em menos de um ano e que eu, com mais de trinta iria continuar à espera perante a passividade dos que supostamente me deveriam proteger… 

Continuara manhã fora, a combater incêndios com as caras de sempre, bombeiros todo o ano, divididos entre fogos, acidentes, emergências e inundações…mas que tal como eu…ainda não sabem na verdade qual a sua profissão…e acabara o dia ali…num incêndio aceso e exigente…que apelara ao melhor de cada um de nós, onde fôramos tão ou mais profissionais que qualquer outro.

Ali, no alto daquela serra, e desculpem-me a frontalidade, não vi nenhuma das super forças de combate que o governo teima em acarinhar esquecendo-se de todos aqueles que asseguram o sistema ininterruptamente todos os dias do ano…vi apenas de relance meia dúzia de baldes lançados do céu sobre um fogo moribundo e já sem vida quiçá para justificar o investimento.

Mas o que vi de verdade para além de tudo o resto, foi um grupo de homens e mulheres com letra grande, que honrando a farda que vestem se lançaram destemidos serra acima mostrando uma vez mais de que fibra somos feitos… provando que estamos e estaremos sempre à altura das nossas responsabilidades desde que haja equidade nas decisões.

Ali, apesar de tudo o que me ia na alma…apesar da revolta que sentia pelas injustiças cometidas…ainda senti orgulho naquilo que um dia escolhi para a minha vida…
Ser Bombeiro!

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