Governo Apostou na Propaganda e nos Meios mas Esqueceu a “Inteligência” - VIDA DE BOMBEIRO

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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Governo Apostou na Propaganda e nos Meios mas Esqueceu a “Inteligência”


Em primeiro lugar, importa deixar claro que só deixaremos de ter grandes incêndios quando fizermos a reforma estrutural do território, que permita tornar a floresta rentável, que responsabilize os seus proprietários e estimule a criação de verdadeiras entidades de gestão partilhada, com ou sem a participação das autarquias (conforme o caso e a massa crítica existente), das propriedades florestais.

Depois há tudo o resto que está ao nosso alcance imediato e que pode permitir melhorar ainda mais a eficácia da primeira intervenção e mudar radicalmente o fracasso do ataque ampliado a fogos de grandes dimensões que são, por ora, inevitáveis. Aliás, esta era uma das recomendações da Comissão Independente que avaliou as tragédias do ano passado, mas que o Governo decidiu ignorar. Na primeira “prova de fogo”, o primeiro grande teste, quase tudo falhou neste aspeto.

Não basta ter mais meios, mais homens, mais máquinas ou mais dinheiro se a sua utilização é descoordenada, baseada no improviso, sem noção de conjunto e sem critério. Não basta despejar meios para cima do problema e depois associar-lhe uma política de comunicação, mantendo o arcaísmo na estratégia de planeamento, coordenação e combate. O Governo preocupou-se com a propaganda, com mais meios que só chegaram a tempo porque o verão foi tardio, mas esqueceu a “inteligência” e a coordenação entre tudo isso.

É verdade que o país está bem preparado para o primeiro combate, onde a eficácia é tremenda e que pode sempre melhorar, mas a estratégia de combate aos fogos de grande dimensão revelou-se desastrosa nos anos mais recentes. Isto acontece porque falta à Proteção Civil meios de apoio à decisão, verdadeira formação para eventos de grande escala, capacidade de coordenação e mais operacionais realmente profissionais para as missões de grande escala. Importa aqui lembrar que há um ano o Governo de António Costa decidiu destruir as chefias intermédias que eram os Comandantes de Agrupamento Distrital (CADIS) e trocou grande parte da experiente estrutura distrital (CODIS) por um conjunto de imberbes boys do PS que ainda se mantêm. Se já aí se notavam grandes carências, com estas alterações a situação só podia agravar-se.

O triunfalismo governamental a que assistimos após Monchique foi, além de desrespeitador de quem sofreu, desproporcional face aos resultados obtidos. Recordo que estávamos com pouco mais de 100 incêndios/dia, o que permitia dispor de todo o dispositivo de combate, 1400 homens, 15 meios aéreos, cerca de 400 viaturas e ainda assim o incêndio percorreu 7 longos dias. Permitiu ainda que distritos com vocação de exportação de ajuda o tenham feito sem preocupações maiores de incêndios nas suas regiões, ou seja a situação no resto do país permitiu que se dispusesse de um dispositivo significativo em Monchique.

Recordo ainda que se registou um recorde de temperatura que o Governo e as restantes autoridades fizeram questão de destacar, mas recomenda a honestidade intelectual que lembre que isso aconteceu após termos registado o mês de julho mais chuvoso desde há 30 anos (fonte IPMA), o que permitiu e ainda bem, a existência de humidade nos combustíveis, fazendo com que os restantes incêndios registados fossem de fácil resolução. Caso tivesse ocorrido um julho de alguma “normalidade” este episódio da onda de calor de agosto poderia ter tido consequências inimagináveis.

Relativamente ao combate ao fogo de Monchique, e numa primeira análise, há várias perguntas que importa fazer. Por mais competente que seja um Comandante Distrital, nenhum ser humano aguenta 5 dias seguidos a comandar uma operação daquelas com eficácia. É por isso estranho que nem o CODIS Algarve nem o 2º CODIS tenham sido rendidos inter pares ao longo de 5 dias. São as próprias regras da ANPC que a isso obrigam, mas sobretudo o bom senso de quem vai vivendo estas coisas. Porque razão o CONAC deixou sozinho o CODIS do Algarve durante 5 dias a liderar o único fogo de grandes dimensões que ocorria no país? E porque foi o Ministro a decidir/anunciar essa mudança que compete ao Comando Operacional Nacional?

Não deixa de ser curioso que, em entrevistas recentes, o atual CONAC venha repetir o discurso político do MAI e congratular-se pelo sucesso das primeiras intervenções desde o início da época de incêndios, esquecendo-se que a primeira intervenção não é da sua responsabilidade direta, mas sim dos bombeiros locais e de alguma forma dos GIPS, mas quando lhe diz respeito e é da sua competência e da sua responsabilidade, os grandes fogos, demore 5 dias a “chegar-se” à frente.

Se o Ministro da Administração Interna anunciou que a partir deste ano seriam os recursos militares a fazer a consolidação do terreno, os rescaldos, para permitir que os bombeiros se focassem no combate, importa avaliar como decorreu este primeiro teste porque afinal os reacendimentos não cessaram. Será que o exército teve os meios e recursos necessários para cumprir esta missão que o MAI anunciou como sua?

Também não é de hoje nem a primeira vez, mas alguém vai ter que explicar a razão de ter havido tantos bombeiros, máquinas de rasto e outros equipamentos parados durante horas ou mesmo dias, sem receberem ordens, sem terem qualquer intervenção nos primeiros dias do combate ao fogo de Monchique. São factos revelados pela imprensa, pelos operacionais que estiveram no terreno e pela própria população.

Importa lembrar que, apesar de proposto pelo PSD e aprovado por unanimidade na Assembleia da República, os bombeiros e Proteção Civil continuam a estar no terreno sem uma ferramenta informática de apoio à decisão operacional que permita “ver” a partir do posto de comando os meios, as características do terreno, as condições atmosféricas e assim planear todo o ataque ao fogo. Da mesma forma o Governo ignorou outra proposta do PSD, também aprovada por unanimidade no Parlamento, que propunha um “Plano Nacional de utilização de máquinas de rasto”. Nada disto foi feito, nada disto preparado a tempo.

Sobre as evacuações de aldeias importa dizer três coisas. Primeiro, na dúvida sobre a capacidade da aldeia ou das pessoas se defenderem do fogo, mais vale não correr riscos e evacuar. O Estado deverá estar cá para ajudar essas pessoas a recomeçar e repor as suas perdas. Cada caso é um caso e, no único ato de humildade do Governo, até o PM admitiu que terão havido excessos. No entanto, é também verdade que a população revela falta de confiança quer na Proteção Civil quer na GNR graças aos episódios de 2017. Com tantos meios no terreno é estranho que enquanto a GNR evacuava as aldeias, não tenham sido deslocados outros operacionais para proteger os bens.

Segundo, o Plano Aldeia Segura e a criação dos “oficiais de aldeia” não passaram de propaganda do Governo cujo único resultado positivo é a “sensibilização” das populações. A dificuldade que a GNR teve em retirar os habitantes das aldeias em Monchique veio comprovar isso mesmo pois, se para a GNR foi difícil imaginem para um “oficial de aldeia”, nosso vizinho, idoso, sem autoridade, a quem o Governo atribuiu um colete, um chapéu e meia dúzia de horas de formação.

Terceiro, extraordinário não é não ter morrido ninguém em Monchique, extraordinário é ter morrido tanta gente em 2017. O normal é não morrer gente em incêndios e a história recente demonstra-nos que, quando acontece, ocorre sobretudo com agentes da proteção civil, designadamente bombeiros.

A terminar duas palavras finais. Uma, a mais importante, de agradecimento para o esforço dos bombeiros e operadores de máquinas que andaram no terreno a combater o fogo e que foram praticamente ignorados por todas as autoridades nas “cerimónias” de agradecimento. Enquanto alguns já recebiam os louros em guarda de honra, de farda lavada, os bombeiros de todo o país continuavam na serra algarvia a apagar o que faltava.

A outra palavra é para o Ministro da Administração Interna a quem recomendo mais humildade e menos arrogância na forma como encara esta missão bem como as críticas e propostas que lhe fazem.

Duarte Marques in Expresso

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