Este é o Perfil do Incendiário em Portugal - VIDA DE BOMBEIRO

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segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Este é o Perfil do Incendiário em Portugal


Sentada ao computador no gabinete de Psicologia da Escola da Polícia Judiciária (PJ), em Loures, Cristina Soeiro recebe um email de um inspector. Anexado vem o formulário da detenção de um suspeito de fogo posto. A resposta a perguntas como "confessou?, está empregado?, é casado?, actuou por vingança?", permitirá à psicóloga forense inclui-lo numa de três categorias de incendiários: os que têm problemas psicológicos (55% dos casos), com perfil retaliatório (pouco mais de 40%) e os de benefício (mais raros: 1,6%).

Estas pessoas têm consciência de que estão a cometer um crime? 

Depende muito. Há indivíduos que incendeiam e têm a clara noção, isso é mais nos do instrumental-retaliatório. Mas muitos não fazem ideia de quem é o dono dos terrenos, fazem aquilo por divertimento, como no incêndio do Caramulo. Não há uma noção clara do crime.

Como reagem quando há mortes em resultado da "brincadeira"? 

Há pessoas que sentem culpa e assumem o acto. Outras que não, os remorsos não fazem parte do seu referencial. É uma má formação. São os que negam, que dizem "eu só pus o incêndio aqui, o que aconteceu depois foi o vento." 

Quando é que começou a trabalhar o tema incendiários? 

Foi uma coincidência. A PJ já tinha um estudo com a Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra. [Perceberam] que havia uma associação com alcoolismo, défice cognitivo e desajuste social. Eu vim para cá trabalhar em 1990. Em 1997, coordenei, com a ajuda do professor Rui Abrunhosa Gonçalves, uma proposta para a Fundação da Ciência e Tecnologia e ganhámos um financiamento substancial: estudámos todos os detidos a nível nacional por crime florestal. 

A que conclusões já chegou? 

O comportamento mais frequente são pessoas que abandonam o local, usam uma forma de chama directa simples (fósforos, isqueiros), são solteiros e do sexo masculino. São analfabetos e têm profissões de subsistência. Mas temos grupos diferentes. No retaliatório, há maior incidência de homens, são casados, têm o 3.o ciclo, às vezes têm registo de processos disciplinares no trabalho, processos de agressão com os vizinhos. 

Aqui entram as vinganças? 

E, muitas vezes, o motivo é hostilidade contra o proprietário. Este grupo explica 41% do fenómeno, o que é bastante. Temos até situações de familiares, de partilhas.

E os incendiários de benefício?

Esses são raros. São os que receberam 40 euros para ir pôr ali um incêndio para passar com o gado. E aquilo tomou proporções. No ano passado, em Amarante, um pai recebeu dinheiro para queimar uma área e, em vez de pegar fogo, instrumentalizou o filho a fazê-lo. Este menor entra nos incendiários de benefício? Se calhar é um miúdo vulnerável, com muitas limitações. Não conheço esse caso em particular. 

Não é muito comum um pai ensinar um filho… 
Não é muito comum? Temos várias situações. [No norte do país] um rapaz foi preso a ver um incêndio. Tinha visto o pai a discutir com um vizinho. O miúdo trabalhava com o pai no campo e resolveu fazer justiça, incendiou o terreno do vizinho.

Sem consciência? 

"Ele discutiu com o meu pai, ofendeu o meu pai". O rapaz não é burro nenhum, tem algumas limitações sociais. Apanhei um miúdo na Guarda que trabalhava com o pai. A perspectiva de vida é continuar a trabalhar com ele, viver em casa dos pais. Então, porque é que puseste o incêndio? "Não sei, eu fui lá para a mata, queimei." E foste para casa e masturbaste-te, não foi? "Foi". Aquela coisa do prazer. Outro senhor: "Andava a limpar as matas, passava o dia todo sozinho" – isto foi no Algarve – "até que um dia juntei umas carumbas, aquilo ficou a arder até que de repente ‘epá, fiz mal’, fugi." Depois, também se foi masturbar para casa. 

As pessoas têm este fascínio…
Não é só o fascínio, é o prazer. É uma coisa de libertação de tensão. Dizem: "Eu tinha um aperto na cabeça" e isto fá-los sentirem-se melhor. Aquilo excita-os. 

Uma das detidas deste ano viu as chamas na televisão e ateou um fogo com um isqueiro. Ver imagens pode motivar?

Pode ser. Mais do que ver imagens, é a maneira como as imagens são expressas, a banalização. Passam o dia inteiro, faz-se uma coisa parecida com o tempo [meteorologia]: o mapa de Portugal com as zonas que estão a arder. Ora, um incêndio não é uma coisa comum. É "a época de incêndios", até parece que é uma coisa normativa. Podemos dar imagens do fogo, mas depois mostrar o que ficou, o preto, o queimado, o destruído. 

Porque já não é tão bonito. 
É para as pessoas perceberem o que aconteceu e quais são as penas para quem faz aquilo. As pessoas acham o fogo atractivo. Algumas têm atracção inclusive pelo cheiro, a terra queimada, molhada. Então não vamos banalizar. Já entrevistei incendiários que me disseram: "As árvores voltam a crescer, eu não matei ninguém." 

Disse numa entrevista que muitas vezes a Justiça prende, mas a parte da saúde mental fica posta de lado. A solução era integrar?

Integrar. Alguns psiquiatras negam uma relação entre os incêndios e a doença mental. Existe – e forte. O nosso estudo tem perto de 600 indivíduos estudados e é a nível nacional. É um tipo de crime que tem taxas de reincidência de quase 20% e muitos têm problemas de saúde mental, que passam pelo défice cognitivo, pela demência alcoólica. 

Há 44 pessoas a cumprir penas de prisão e 11 estão em instituições psiquiátricas.
Ainda bem. Isso é bom sinal. Se aumentássemos este trabalho de integração entre as várias entidades, se houvesse uma avaliação inicial dos casos e uma intervenção conjugada – eu concordo que existem indivíduos que durante o Verão devem ser recluídos. Em alguns departamentos da PJ, os inspectores vão aos locais onde vivem fazer alguma prevenção: "Olhe, estamos atentos." Já tivemos situações em que até têm disponibilidade para cumprir uma medida de internamento. Há um grande investimento no combate – e tem de haver – mas não vamos lá sem colmatar este problema: a prevenção passa muito pela comunidade, como fazer uma queimada, a época para a fazer. Na zona da Guarda, conseguiram reduzir o problema das queimadas porque as juntas de freguesia passaram a ajudar [os agricultores] no pagamento da coima.

Portanto, as queimadas passaram a ser mais controladas. 
Exactamente, e feitas em conhecimento da própria comunidade. Depois, os nossos programas educativos têm de mudar. [As pessoas] vão fazer piqueniques, deixam tudo sujo e fazem churrascos indevidamente. Fui visitar uma montanha no Canadá. Perguntei à polícia montada como é que enfrentam os incêndios. Eles mostraram-me um corta-fogo com vários quilómetros de zona aberta sem árvores, que é todos os anos limpa. Ninguém fuma na floresta. É proibido. Não vê um papel fora do sítio. As pessoas cumprem o uso dos espaços. 

Nas mulheres – este ano há um número superior de detenções – há uma questão emocional?

As mulheres não ficam nunca [a ver o incêndio]. São completamente diferentes dos homens. 

Preenchem os perfis retaliatório e dos problemas psicológicos?

Mais o dos problemas psicológicos. A presença de mulheres varia entre 4 a 28% a nível internacional. [Cá] temos identificadas 34. Cometem este crime por limitações cognitivas, têm baixo nível de escolaridade, baixo estatuto social, a média de idades é mais baixa (entre os 20 e os 35 anos), são oriundas de famílias com problemas, nomeadamente de relacionamento com o parceiro, têm fracas competências sociais, não trabalham e não são solteiras, como os homens. Têm quadros clínicos associados, como a depressão ou a psicose. Nos homens aparece mais a dependência alcoólica. 

Procuram aquele prazer de ver?

Às vezes para se vingarem do ex- -companheiro, para chamar à atenção, até tentativa de suicídio. Geralmente, nestas mulheres temos ausência de motivação para o crime como benefício ou para testemunhar actividades que envolvam combate – ao contrário dos homens, em que uma percentagem fica a ver. 

E há bombeiros que incendeiam porque querem participar. 
Nas comunidades mais pequenas, ser bombeiro ainda é mais saliente do que nos meios urbanos. Tenho alguns indivíduos que são ex-bombeiros, que estiveram lá mas que se percebeu que tinham problemas. Ou então, como um rapaz que estava no atendimento telefónico e quando saía do turno à noite havia sempre incêndios. 

Porque é que o álcool surge associado a incendiários?

Funciona como facilitador. Está associado a pessoas com desajuste. Alguns grupos – principalmente nos agressores– necessitam de ter prazer imediato. O álcool é uma dessas formas. Já tive casos de pessoas que até perfume bebiam porque não tinham dinheiro. 

Os pirómanos são muito raros. Como os distinguem de pessoas com problemas psicológicos?

Não há nenhum pirómano na nossa amostra. A definição de piromania, tal como está feita no dicionário de doenças mentais (DSM5), é muito restritiva. A explicação do comportamento não pode ser justificada por atear um incêndio para ganhar dinheiro, ter uma doença mental, ter uma esquizofrenia diagnosticada ou uma perturbação. Pode classificar um pirómano porque incendiou pelo prazer de ver o fogo. E geralmente a explicação para o quadro clínico tem sempre por base alguma doença mental ou depressão. Já quase que tivemos um, mas o psiquiatra disse que era psicótico e o comportamento relacionava-se com o quadro alucinatório e não com o prazer de ver.

Fonte: Sábado

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