Sul da Europa. Especialistas avisam que os megafogos vão fazer parte do quotidiano - VIDA DE BOMBEIRO

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quinta-feira, 26 de julho de 2018

Sul da Europa. Especialistas avisam que os megafogos vão fazer parte do quotidiano


Os incêndios estão mais perigosos e vão manter-se assim, culpa do clima e da falta de ordenamento. Especialistas apelam a maior intervenção da UE

Corpos carbonizados, carros ardidos, populações em fuga e relatos de incêndios gigantescos e com uma progressão e propagação superiores ao habitual. As descrições dos fogos que, por estes dias, estão a varrer a região da Ática, na Grécia, são em quase tudo semelhantes às da tragédia de Pedrógão, em junho do ano passado, e às dos grandes incêndios de outubro.

Os especialistas garantem que a repetição destes fenómenos extremos não é uma coincidência e avisam que os megaincêndios vão ser uma constante no sul da Europa. A culpa, explicam, é das alterações climáticas, do mau ordenamento dos territórios e das características da floresta mediterrânica. Neste contexto, a prevenção e o combate aos incêndios já não são uma tarefa isolada de cada Estado. Os especialistas com quem o i conversou defendem que são necessárias respostas à escala global e que terão de partir da União Europeia.

Na Grécia, como em Portugal ou em Espanha, os fogos florestais não são novidade. Mas, com as recentes mudanças no clima, o sul da Europa debate-se com novos desafios. “Existe um padrão que era expetável: os incêndios são cada vez mais extremos, rápidos e complicados de gerir”, aponta Francisco Rego, professor no Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa e que integrou a Comissão Técnica Independente nomeada pelo parlamento para estudar os incêndios do ano passado. Domingos Xavier Viegas, da Universidade de Coimbra e que também estudou o fenómeno de Pedrógão Grande, concorda e avisa: “Os grandes incêndios vão ser mais frequentes e já estamos a ter evidências nesse sentido.”

E há várias razões que explicam o agravamento dos fogos. Duarte Caldeira, presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil e antigo presidente da Liga de Bombeiros, aponta algumas. A começar pelas alterações climáticas. “Assistimos, no sul da Europa, a perfis meteorológicos gravosos e potenciadores de incêndios”, descreve. Ao clima mais severo junta-se a “inexistência de políticas de ordenamento do território”, que não é um problema exclusivo de Portugal. Também na Grécia – e as imagens dos incêndios dos últimos dias comprovam- -no – existem “espaços florestais invadidos por espaços urbanos” e vice-versa. A proximidade entre vegetação não controlada e habitações gera um cocktail explosivo. “Quando ocorrem ventos fortes conjugados com temperaturas elevadas, os incêndios florestais rapidamente invadem o espaço urbano”, sublinha Duarte Caldeira. Além disso, a orografia dos países do sul, com declives acentuados e zonas montanhosas, também desajuda. Quer no combate, quer nos trabalhos de prevenção.

É por isso que Francisco Rego defende que, a médio prazo, é preciso mudar a forma como é feita a gestão e o planeamento dos territórios. “E a verdade é que não tem havido esse foco. Trabalhou-se muito no combate, mas descurou-se a oportunidade de tornar a floresta mais sólida, mais organizada e até mais sustentável”, defende. Domingos Xavier Viegas chama a atenção para outra dimensão: a da falta de cultura de proteção civil entre as populações. Na Grécia, como em Portugal, muitas das vítimas morreram a tentar fugir à fúria dos fogos. “O que demonstra que os países têm de se preparar, mas também têm de saber preparar as suas comunidades para que sejam mais resilientes e adotem medidas de autoproteção adequadas.”

No que diz respeito ao combate, e com os incêndios a adquirirem proporções gigantescas, também há caminhos por desbravar. Ainda que os países do sul da Europa tenham, nos últimos anos, investido em muitos meios (a Grécia já chegou a ser o país com maior número de meios aéreos), a severidade e a imprevisibilidade do comportamento dos fogos não dão margem de manobra aos bombeiros. Por isso, e além de maior prevenção, os especialistas com quem o i conversou defendem que é preciso uma política de entreajuda entre os países da União Europeia. “Hoje reconhecemos, na Europa, que a proteção civil é uma área que tem de ter prioridade equivalente ou mesmo superior à da defesa”, acredita Duarte Caldeira. E se, até aqui, cada Estado tem procurado munir-se de meios, a partir de agora, a estratégia terá de ser global e conjunta. “Está na hora de a União Europeia e os países da Europa do sul terem em consideração esta problemática e trabalharem em políticas efetivas de adaptação às alterações climáticas”, acrescenta o antigo presidente da Liga de Bombeiros.

É certo que a entreajuda já existe. Ontem, por exemplo, vários países enviaram meios para a Grécia. E Portugal, segundo anunciou o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, também vai contribuir, fazendo chegar elementos da Força Especial de Bombeiros. Mas Xavier Viegas avisa que a cooperação tem de ser alargada a outras frentes. “Tem de se trabalhar em conjunto, mas a montante, no capítulo da prevenção e do estudo científico dos fenómenos”, defende. E Francisco Rego acrescenta: “É necessário criar uma intervenção musculada e organizada entre os Estados, com os agentes a disporem do mesmo tipo de formação, a partilharem a mesma linguagem e o mesmo conhecimento para que a cooperação seja homogénea e verdadeiramente integrada.”

 Fonte: ionline

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