"O problema está na mentalidade dos cidadãos e dos bombeiros" - VIDA DE BOMBEIRO

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terça-feira, 24 de abril de 2018

"O problema está na mentalidade dos cidadãos e dos bombeiros"


Talvez por ser americano, Mark Beighley não tem grandes problemas em apontar o dedo aos cidadãos e aos bombeiros como os principais responsáveis pelos incêndios cada vez piores que acontecem em Portugal. O cenário actual é mau, mas o país tem de se preparar para um “novo normal” que pode ser 50% pior do que foi em 2017, alerta o investigador que em 2009 já previa a possibilidade de uma época de fogos da dimensão da do ano passado.

No relatório sobre a Gestão de Incêndios Florestais em Portugal numa nova era, o consultor norte-americano nota que nos últimos anos foram tomadas várias medidas em sentido contrário ao que seria mais eficaz: apostou-se mais em medidas “reactivas”, concentradas no combate aos incêndios, que absorveram 213,5 milhões de euros entre 2001 e 2016, enquanto a prevenção apenas absorveu 72,6 milhões de euros no mesmo período. Mas esta aposta no combate, diz Mark Beighley, mostrou-se ineficaz por várias motivos, incluindo a forma como o combate é feito.

Neste ponto, o americano diz que há um problema na “cultura do bombeiro voluntário”. “As tácticas de combate contribuem também para o problema dos fogos florestais. 16% dos incêndios cujas causas são conhecidas devem-se a reacendimentos, um número que pode atingir 30% em alguns distritos”, lê-se no documento que foi ontem apresentado no Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa. Os bombeiros combatem incêndios utilizando “apenas mangueiras e água, permanecem nas estradas e não usam ferramentas manuais”, escreve.

No entanto, o americano não considera que esse seja apenas o problema dos bombeiros. Na verdade, diz, estes homens são poucos e, por isso, “o número excessivo de incêndios diários obriga as brigadas a deslocarem-se prematuramente de um ataque inicial para outro, sem verificarem se os fogos estão efectivamente extintos”. Como solução para este problema, que se encontra em 16% das causas dos incêndios, Beighley sugere que sejam os militares a tratar das tarefas de rescaldo.

No relatório, o americano explica que isto acontece também porque há cada vez menos bombeiros, a “coluna vertebral” de qualquer sistema de combate a incêndios.

Os números mostram uma realidade que tem sido difícil travar: “Infelizmente, em Portugal, o número de bombeiros profissionais e voluntários registou uma redução de 33% apenas em 11 anos”, o que equivale a 14 mil numa década. É por esta avaliação que sugere que devem ser os Grupos de Intervenção de Protecção e Socorro (GIPS) a ficar à frente do combate a incêndios, deixando aos bombeiros voluntários a defesa das populações. Os GIPS são uma força mais atractiva, uma vez que há perspectiva de carreira, porque quando estes profissionais chegam a uma determinada idade e se cansam de combater incêndios “há rotação, podem ir para outro posto”, comentou.

A responsabilidade não está, no entanto, apenas do lado do combate. Na análise feita pelo investigador, que ocupou vários cargos no sistema de combate a incêndios dos Estados Unidos, há um dado que salta à vista que se prende com o elevado número de ocorrências de incêndios em Portugal. É de tal maneira elevado que torna “menos eficaz” o combate, quaisquer que sejam as “forças de protecção civil” no terreno.

"Os portugueses são o problema"
Em Portugal, referiu, há 1488 incêndios por milhão de pessoas. Em França, esse valor é de 55, na Grécia de 77, na Itália de 83 e em Espanha, o segundo país com mais ocorrências, é de 246.

Perante estes dados, Beighley defende que é preciso incutir uma mudança de mentalidades. “Não são terroristas, não são aviões, são os vossos vizinhos que provocam incêndios. Os portugueses são o problema, mas também são a solução”, disse na apresentação, defendendo que o Governo deveria criar uma linha para denúncias anónimas apenas direccionada para incêndios.

Se nada mudar, o americano que previu um ano com área ardida de 500mil hectares, como aconteceu o ano passado, não tem dúvidas que agora o pior cenário pode aumentar o risco para uma época de área ardida superior a 750 mil hectares.

Publico

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