Kelvin Hirsch: “É impossível atingir o nível zero de risco, mas o risco pode ser diminuído” - VIDA DE BOMBEIRO

--------------------------------------------------------------------------------------------------

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

________________________________________________________________

domingo, 4 de março de 2018

Kelvin Hirsch: “É impossível atingir o nível zero de risco, mas o risco pode ser diminuído”


Um perito canadiano vem a Portugal na próxima semana falar de como se podem preparar as comunidades rurais para os incêndios. “Queremos passar a mensagem de que têm de começar a cuidar da sua própria casa de modo a torná-la mais resiliente ao fogo”, explica em entrevista ao Expresso.A articulação entre autoridades e comunidades no terreno é essencial e, lembra, foi isso que permitiu evacuar 80 mil pessoas cercadas pelo fogo em Fort McMurray em 2017.

A convite da Estrutura de Missão que está a montar o sistema de gestão integrada de fogos rurais em Portugal, o perito canadiano Kelvin Hirsch estará em Portugal na próxima semana para partilhar experiências e conhecimento.

No currículo conta com a liderança técnica na elaboração do modelo de adaptação da floresta canadiana às alterações climáticas e a criação do primeiro programa de comunidades resilientes ao fogo no Canadá − FireSmart Communities. É sobre este projeto, que está a dar frutos positivos do outro lado do Atlântico, que falará na quarta-feira em Pedrógão para elementos das associações de vítimas dos incêndios de Junho e de outubro de 2017.

O foco do encontro será a forma como as comunidades locais e as aldeias em espaço rural podem desenvolver uma cultura de maior segurança face aos incêndios num contexto de alterações climáticas. “Queremos passar a mensagem de que as comunidades têm de começar a cuidar da sua própria casa de modo a torná-la mais resiliente ao fogo”, explica em entrevista ao Expresso por telefone.

E lembra: “Apesar de ser impossível atingir o nível zero de risco, este pode ser diminuído usando materiais menos inflamáveis na construção e limpando a vegetação combustível em redor”.

Hirsh fará parte da bolsa de peritos nacionais e internacionais que está a ser montada para ajudar o sistema português a adquirir conhecimento. Estes especialistas vão funcionar como consultores junto de entidades como o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e a Autoridade Nacional de Proteção Civil.

Acompanhado por elementos da Estrutura de Missão, liderada por Tiago Oliveira, Kelvin Hirsch visitará também algumas áreas ardidas e participará num workshop sobre “Gestão e Governança de Incêndios Rurais”, no Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência do Porto (INESC TEC), um dos seis Laboratórios Colaborativos que integram o novo modelo de abordagem dos fogos rurais.

“EM FORTMCMURRAY CONSEGUIMOS EVACUAR 80 MIL PESSOAS SEM UMA ÚNICA FATALIDADE”
Tem trabalhado na gestão de uma floresta sustentável tendo como cenário as alterações climáticas. O que têm feito no Canadá para adaptar a floresta aos incêndios?
Temos uma grande área florestal com mais de 300 milhões de hectares que tem um papel importante no ciclo do carbono. Os fogos florestais são uma parte natural do nosso ecossistema. Em média ardem por ano 2,5 milhões de hectares de floresta e a época de incêndios tem vindo a estender-se no tempo. A nossa floresta é um importante sumidouro de carbono, mas também uma fonte de emissões. O clima está a mudar e a severidade dos incêndios está a aumentar e temos de nos adaptar a esta realidade.

E uma das formas é trabalhar em programas de resiliência das comunidades? É sobre esse programa que vem falar a Portugal?
Sim, também. No programa “Fire Smart” trabalhamos com as comunidades para que sejam mais proativas na sua defesa face aos incêndios. O Tiago Oliveira pediu-me para explicar o que é e como desenvolvemos este programa e espero partilhar algumas das nossas experiências e dos desafios que enfrentamos.

Que tipo de mensagem lhes passam?
Passamos a mensagem de que têm de cuidar primeiro da sua própria casa de modo a torná-la mais resiliente ao fogo. É impossível atingir o nível zero de risco, haverá sempre algum risco, mas pode ser diminuído. Damos indicações sobre o uso de materiais menos inflamáveis na construção e sobre a limpeza da vegetação combustível em redor.

Qual a distância mínima que aconselham a limpar?
Aconselhamos a que não tenham árvores inflamáveis a menos de 10 metros das casas e que façam uma limpeza de modo a impedir que brasas ou agulhas incandescentes lhes atinjam as casas, entrando pelas janelas ou pelos telhados. A vegetação combustível num perímetro de 30 metros também deve ser gerida para reduzir a intensidade do fogo próximo das casas e permitir que os bombeiros consigam supri-lo de forma mais segura. As comunidades que vivem em zonas muito isoladas e que ficam, por vezes, rodeadas de fogo são monitorizadas com cuidado. Temos conhecimento científico que nos permite perceber para onde o fogo se vai direcionar e acionar o sistema de combate a tempo de evacuar as populações se necessário.

Foi o que aconteceu na primavera de 2017, quando conseguiram evacuar milhares de pessoas de Fort McMurray sem registo de mortes? Como compara esse episódio com o que se passou em Portugal, em 2017?
Não posso comparar porque não conheço muito bem o sistema em Portugal. Vou conhecer agora. Mas em relação ao incêndio de Fort McMurray posso dizer que foi uma situação extraordinária e que se conseguiram evacuar cerca de 80 mil pessoas cercadas pelas chamas sem qualquer fatalidade. Ninguém foi apanhado pelas chamas e isso foi incrível.

Como foi possível?
Houve uma boa uma articulação entre o departamento urbano de bombeiros de Fort McMurray e as corporações de bombeiros que atuam nos incêndios florestais, o que permitiu retirar as pessoas antes do incêndio ganhar grandes proporções. Por outro lado, a maioria das pessoas que ali vive tem uma forte cultura de segurança e seguiu as instruções dadas de forma ordeira e calma. Muito do crédito vai também para os cidadãos.

No caso de Portugal, muitas das pessoas que vivem no interior do país rodeadas por floresta são idosos e sem condições físicas e meios para fazer a gestão de combustíveis em redor das suas casas e sem essa cultura de defesa perante o risco. Há uma cultura diferente quando comparada com o Canadá.
No Canadá há cada vez mais comunidades a aderirem ao programa Fire Smart Community. E é certo que ainda há muitos jovens a viver nestas comunidades e com capacidade para reduzir a sua vulnerabilidade perante um incêndio próximo. O Canadá está dividido em 10 províncias e sete territórios e o Governo das províncias fornece apoio e fundos a estas comunidades para reduzirem o risco de incêndio.

E quem é responsável pela limpeza em redor das casas ou aglomerados?
As pessoas são responsáveis pelo perímetro de 10 metros das suas casas e as comunidades pela área em redor das casas. Em redor das comunidades a responsabilidade é dos governos provinciais, e o governo federal cuida dos parques naturais. Apenas 6% da área florestal é propriedade privada.

Como vê este convite do Governo português a especialistas internacionais?
Sinto-me honrado. A partilha de informação é importante para os dois lados. Venho falar não só de bons exemplos mas também das coisas que devemos corrigir e de como é importante aprendermos uns com os outros. Assumo que as pessoas em Portugal sabem o que é necessário fazer e como avançar e mobilizar os diferentes atores para encontrar as melhores soluções. É sempre importante manter este tema na ordem do dia para que políticos e burocratas não se esqueçam que os desafios não desaparecem.

Fonte: Expresso

Sem comentários:

Enviar um comentário