Deus Não Apaga Fogos e Eles Não Fazem Milagres - VIDA DE BOMBEIRO

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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Deus Não Apaga Fogos e Eles Não Fazem Milagres


Entre a agitação dos incêndios e a rotina da maior parte do tempo, os Bombeiros Voluntários de Braga vão sobrevivendo, uma hora de cada vez. Da população bracarense recebem solidariedade abundante ou, em três quartos do ano, uma indiferença dolorosa.

Na tarde do dia 15 de outubro, quase não havia bombeiros no quartel. Ali, no coração da cidade, no edifício para onde aponta o dedo da estátua de César Augusto, restavam apenas dois carros de combate a incêndios. Um avariado, nas traseiras, e outro tão antigo que só é utilizado em cerimónias. Quando, no domingo, as chamas cercaram Braga, já dezenas de homens e mulheres combatiam, há dois dias, o fogo que se alimentava do Minho.

É quarta-feira e passa pouco das dez e meia da manhã. A maior parte das ambulâncias dos Bombeiros Voluntários de Braga (BVB) estão estacionadas no parque, sem cobertura. Vão saindo ao longo da manhã, à medida que as chamadas caem na pequena receção ou se aproxima a hora de um transporte de doentes habitual. Hoje, há mais viaturas do que pessoas no quartel.

Pedro Ribeiro, subchefe dos bombeiros daquela corporação, atravessa o minúsculo corredor, ladeado pela receção e por uma outra sala com duas pessoas e poucos metros quadrados, e sobe as escadas que dão para o primeiro andar do edifício. Sentado numa cadeira, recorda o dia em que o fogo destruiu 1200 hectares do distrito de Braga. “Se me dissessem que estava a arder aquilo tudo, eu ia ficar espantado”, conta.

O combate começou na noite de sexta-feira, com um “incêndio muito grande” a surgir na Serra da Cabreira, uma área protegida em Vieira do Minho. No dia seguinte, as chamas ganharam força em São Mamede de Este e prolongaram-se para as freguesias de Santa Lucrécia, Crespos e Pousada. Finalmente, no domingo, “por volta das 16h30, 17h”, Pedro Ribeiro e os seus colegas foram mobilizados para combater o incêndio na freguesia de Morreira, em Braga, que tinha deflagrado na zona de Leitões, em Guimarães.

“Foi um fim de semana absolutamente brutal”, resume António Ferreira, presidente da Associação e conhecido por todos como “Capitão Ferreira”. Conta que, apesar da grande quantidade de corporações de bombeiros “muito bem equipadas” existentes no distrito, também elas “estavam todas ocupadas” naquele que ficou conhecido como “o pior dia do ano”. “Fomos manifestamente poucos para o fogo que tivemos”, conclui o diretor dos BVB, que, da janela daquela mesma sala, viu o avanço de um fogo “rapidíssimo”.

Apesar de admitir que, com a dispersão de meios, “a resposta não é a mesma”, Pedro Ribeiro, que esteve no terreno, não considera a falta de operacionais a principal razão para a dimensão que o incêndio tomou. O bombeiro evoca a normalmente desastrosa “regra dos três 30”. “Estamos a falar de um dia em que tínhamos temperaturas perto dos 30 graus celsius, ventos que foram verificados perto dos 30 km/h e humidade relativa inferior aos 30%”, explica.

Magro e de bigode farto, o subchefe Ribeiro elogia a atuação dos operacionais, “o pessoal redobrou-se em termos de esforço”. No entanto, nem ele nem os seus colegas escaparam a “uma sensação de muita impotência”, depois de verem arder a floresta que, nas últimas semanas, tinham andado a proteger de pequenos fogos. “Quando nascesse o dia eu já sabia o que ia encontrar, a dimensão é que é diferente. Foi demasiado”, desabafa.

Lidar com a frustração e a tristeza dos dias seguintes é uma batalha que se trava ali, no quartel. “A única forma que temos de nos sanear um bocadinho é falar uns com os outros, discutir o que é que cada um fez”. As reações, a este incêndio ou a outras situações da vida de um bombeiro que “não são de fácil digestão”, são diversas. “Há uns que falam, outros que ficam calados, há uns que choram, há uns que até ficam com alguma depressão”, enumera. Para Pedro Ribeiro, é fundamental que se reflita sobre “os pontos fortes, os pontos fracos e o que é que podemos melhorar” e ter também a capacidade de compreender que “muitas vezes não depende só de nós”. “Se Deus não apaga fogos, nós também não fazemos milagres”, remata.

Entre a solidariedade e as críticas dos bracarenses

Na corporação dos BVB há 16 estagiários, 60 bombeiros no ativo e 70 no quadro de reserva. Depois de uma catástrofe como esta, não falta quem queira fazer parte destes números. “Na nossa página de Facebook há logo um acréscimo brutal de seguidores: numa semana três mil e tal pessoas de repente começam a gostar dos bombeiros, a quererem ser sócios ou bombeiros”, diz Pedro Ribeiro, acrescentando, com uma tristeza conformada, que “depois esfriam-se um bocadinho os ânimos e volta-se logo à pacatez”.

Na noite daquele domingo, quando as chamas iluminavam a cidade, dezenas de pessoas juntaram-se para distribuir bebidas e alimentos aos bombeiros que combatiam o fogo. Apesar de admitir que não estão habituados, Pedro Ribeiro nota que “há uns dois anos para cá, há um movimento quase espontâneo de vir trazer aqui água”.

António Ferreira aponta para o cartaz em cima da mesa, que anuncia um jantar em honra da sua corporação de bombeiros voluntários, uma iniciativa que partiu de um grupo de bracarenses. “Eu acho que o paradigma da população mudou e vai mudar, porque nós temos estado aqui descansados sob o manto maternal e protetor de Nossa Senhora do Sameiro, que este ano falhou”. Há cerca de ano e meio no comando da Associação, que existe desde 1877, o “Capitão Ferreira” viu o número de sócios aumentar de 149 para quase 2000, um número que ainda considera muito baixo. “Eu estou farto de bramir em tudo o que é jornal e agora as pessoas começaram a mexer-se”, afirma, com entusiasmo contido.

A recente onda de apoio teve mais um capítulo na manifestação contra os incêndios organizada em Braga, a 21 de outubro. O presidente, acompanhado de outros elementos dos BVB, assistiu à chegada dos manifestantes à Câmara Municipal. Justifica a falta de uma “intervenção direta” com a distância que a Associação procura manter de disputas partidárias. “Embora me pareça que a manifestação genuína, silenciosa, queria manifestar um determinado sentimento, pareceu-me que depois houve algumas pessoas que quiseram tirar dividendos políticos da desgraça que foram os incêndios”.

Pedro Ribeiro não foi, mas concorda com a presença discreta. A solidariedade demonstrada recentemente não convence o subchefe dos bombeiros, para quem a frustração vem, muitas vezes, das reações da população. “A sociedade, principalmente a portuguesa ou a bracarense, gosta muito de comentar a atuação dos bombeiros, mas ainda estão muito distantes de perceber o que é realmente estar lá no meio”, atira.

Nascimento, também subchefe da corporação, está de pé ao lado de um dos portões da garagem por onde acabou de sair mais uma ambulância. No discurso, revela a mesma mágoa. “Passa o verão e deitam-nos abaixo, é o que está a acontecer agora nas redes sociais”. Talvez por isso não tenha dúvidas de que a vida de bombeiro, a sua há quase 36 anos, é mesmo “para quem gosta”.

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