Suspeito de Incêndios na Madeira Condenado a Três Anos de Prisão Efetiva VIDA DE BOMBEIRO: “Depois de uma catástrofe é possível recuperar a satisfação com a vida”

terça-feira, 4 de julho de 2017

“Depois de uma catástrofe é possível recuperar a satisfação com a vida”


Márcio Pereira, Psicólogo do CAPIC do INEM desde 2007 tem uma vasta experiência em situações de catástrofe, como acidentes de viação, incêndios e desastres naturais, e explicou, numa entrevista publicada na revista Sábado, o papel do Psicólogo nestes contextos.

É o representante português no Comité de Crise de Catástrofe da Federação Europeia de Associações de Psicologia e é um dos psicólogos de Intervenção em Crise do INEM desde 2007. Já apoiou muitas vítimas de incêndios, de tornados e de graves acidentes de viação.

Márcio Pereira não fez parte da equipa de Pedrógão Grande, mas já esteve no terreno noutras catástrofes e desastres de viação, no apoio ás vítimas e aos familiares no reconhecimento de corpos: é um dos psicólogos do INEM que intervêm em situações de crise, há 10 anos.

O psicoterapeuta. de 37 anos, que vive em Loulé há seis, confessa que os momentos mais difíceis são os que envolvem a perda de crianças. Nalgumas situações. um abraço é mesmo importante para quem está em grande sofrimento.

Em 2015, coordenou um curso de Intervenção Psicológica em Situações de Catástrofe para a Ordem dos Psicólogos Portugueses, que formou cerca de 600 voluntários para serem chamados em situações de catástrofe, quando os recursos oficiais escassearem.


Muitos dos títulos sobre os incêndios utilizavam a palavra “pânico”.
Pode o pânico provocar mais vítimas do que a catástrofe em si?

Não diria isso. Acho que muitas vezes o que existe inicialmente é uma resposta de stress associada à vivência do acontecimento, ao nível emocional. cognitivo e comportamental, com uma reação de luto ou de fuga, mas felizmente a maioria das pessoas não entra em pânico.
Ficam é mais ansiosas, mantendo-se ativas e funcionais, não chegando ao quadro de pânico do ponto de vista psicológico do termo.


Estudos indicam que, numa emergência 75% das pessoas têm um comportamento descontrolado e só 10% conseguem delinear um plano de Acão.
Concorda?

A maioria desencadeia uma resposta de stress que é transitória. Só uma minoria entra num estado disfuncional perante um cenário de catástrofe. Grande parte das pessoas age para tentar minimizar o impacto do incidente. No momento, estão incapazes de fazer um planeamento que não seja o imediato. sabem que têm de tomar atitudes, como apagar o fogo.


Numa situação de pânico, a reação de sobrevivência tende a ser mais individual do que social?

É algo que varia de cultura para cultura, mas teoricamente o valor da sobrevivência individual impera embora existam muitas pessoas que têm comportamentos pró-sociais multo fones, colocando a própria vida em risco. caso dos profissionais de socorro. Em Pedrógão Grande houve pessoas que ajudaram outras que precisaram no momento e que não conseguiram proporcionar a mesma ajuda a familiares.


Isso teve a ver com o facto de ser um melo rural?

Claro que sim. É um meio em que existe uma noção forte de comunidade e hipervalorização dos bens. São pessoas que vivem da agricultura e que dependem dos animais e das estruturas que têm.


Qual é o papel dos psicólogos no terreno?

Perante estes desastres, existem duas fases. A primeira é a de pós-impacto, em que é muito importante a presença dos psicólogos, para ajudar a estabilizar e a aconselhar. Este primeiro momento é chamado primeiros socorros psicológicos. As pessoas ficam em estados emocionais alterados durante muito tempo e existe a probabilidade de desenvolverem stress pós-traumático ou outras patologias.
A seguir, vem a fase de monitorização, o acompanhamento para perceber se as pessoas estão no caminho correto em termos de saúde mental ou se estão num processo de desenvolvimento de psicopatologia. Nestes cenários. o que mais encontramos é a resposta do luto, da ansiedade e do stress. A intervenção visa prevenir o desenvolvimento do luto patológico.


Como é que se caracteriza o luto patológico?

Caracteriza-se em termos de tempo. Alguém que perdeu um familiar tem de chorar, de ter respostas emocionais intensas, é normal que passe por um período em que pare, que não tenha energia. que conserve os bens da pessoa falecida.
Contudo, ainda que esteja num processo de luto, de tristeza, é normal que recupere a sua vida, que volte a trabalhar.
No luto patológico. o que acontece é haver alguém que mantém essas reações intensas durante um longo período.


A partir de quando é que o luto se considera patológico?

O último manual de saúde mental aponta que estes sintomas durem pelo menos um ano, ou seja só a partir daí é que se pode diagnosticar o luto patológico. O trabalho do psicólogo é perceber se a pessoa consegue seguir com a sua vida normal, mesmo com tristeza, ou se tem pensamentos suicidas, uma vontade de
ir ao encontro do ente que perdeu.


E quando se perde a mulher e duas filhas num incêndio, como aconteceu?

É um luto muito mais difícil porque envolve filhos. É um luto anormal. As pessoas não estão preparadas para perder filhos, nem sequer existe uma palavra para classificar um pai ou uma mãe que perca um filho.
Aquele homem perdeu provavelmente as pessoas mais importantes da sua vida. Todos os contextos dele estão “contaminados com a dor. Aqui, o luto pode ser proporcional à perda, demorar mais tempo a recuperar a sua funcionalidade, o que não quer dizer que seja patológico.


As intervenções variam em função dos diferentes tipos de perdas?

O tema é sempre o luto. Tendemos a dar toda a atenção a quem perdeu familiares, mas há pessoas que têm ligações muito mais fortes com animais de estimação, com a perda da casa ou de materiais irrecuperáveis, como fotos de família. Por outro lado, nestas situações, em que está envolvida uma comunidade, existe também a perda da rotina. É um facto que não é tão valorizado, mas o certo é que todas as pessoas daquela comunidade vão viver um processo de luto pela perda do seu dia-a-dia, dos vizinhos ou de locais de trabalho.
Tendemos a negligenciar perdas que à primeira vista parecem não ser muito importantes, mas são.


Este apoio psicológico vai prolongar-se por quanto tempo?

As equipas no terreno atuam em duas grandes áreas: há o apoio imediato às populações. que é da responsabilidade do INEM, e depois o apoio de continuidade, que tem de ser garantido pela Segurança Social.
Existem muitas pessoas que podem necessitar deste acompanhamento, a monitorização das reações de quem foi afetado pela catástrofe. Uma mensagem importante a transmitir sempre é que as pessoas são muito resilientes. É possível passar pelos cenários mais difíceis e recuperar a satisfação com a vida.
Antes, havia o conceito de que quando alguém atravessava uma situação difícil nunca mais voltaria a ser o mesmo. Hoje, sabemos que há quem passe por episódios muito complicados e consiga desenvolver aspetos em si que nunca desenvolveria.


Como é que se dá a notícia da morte de alguém a um familiar?

Em primeiro lugar, é muito importante saber quem é a pessoa que vai receber a notícia e perceber se tem antecedentes clínicos, como problemas cardíacos, que justifiquem outro tipo de apoio. Os idosos e as crianças são as classes etárias a quem é difícil dar essas notícias. Os idosos pelas vulnerabilidades, pois podem sofrer uma síncope ou mesmo morrer e as crianças pelo impacto e pelo sofrimento que a notícia lhes vai causar.


No caso das crianças, como é feita a abordagem?

Havendo um pai ou uma mãe, incentivamos que sejam eles a dar a notícia. porque num momento de tanta fragilidade é importante que a criança seja informada por alguém que lhe possa dar o máximo de suporte, segurança e ternura.


Muitas vezes um abraço é importante nestas situações.
Os técnicos estabelecem contacto físico?

O contacto físico depende sempre de quem temos do outro lado, ou seja, temos de saber ler os sinais. Em Portugal, é normal as pessoas procurarem o contacto físico em zonas culturalmente aceites, como a mão ao nível do ombro ou do braço.
Se estiver a intervir com uma população nórdica, em que a bolha de espaço interpessoal é maior. vou ter muito mais cuidado com o contacto físico. Mas, tipicamente, nestas situações as pessoas estão vulnerabilizadas e elas próprias procuram esse contacto.


Costuma dar abraços?

Eu não tenho problemas em dar um abraço. Mas se não me sentir confortável, fico pelo toque no ombro. É pior dar um abraço tenso e a pessoa perceber que eu não estou ali. Cabe ao psicólogo perceber quais são os seus limites.


Em que situações de catástrofe é que já esteve no terreno?

Já estive em acidentes de viação com muitas vítimas, em tomados e em incêndios florestais, como o do ano passado em Monchique.


Qual foi a situação mais delicada por que passou?

O mais delicado é sempre ver o sofrimento humano. Para mim, a mais complicada é a perda, sobretudo de crianças. O acompanhamento dessas famílias envolve momentos muito difíceis.


Desde quando é que a Psicologia de catástrofe existe em Portugal?

Não é uma disciplina com muito tempo, mesmo ao nível internacional. Cá, as respostas oficiais, com alguns Corpos de Bombeiros. Cruz Vermelha e com o INEM, começaram sobretudo a partir do fim da década de 90. Nos seminários em que tenho participado, em diversos países europeus,
os tópicos mais batidos têm sido o terrorismo e os refugiados.


Quais as diferenças nas reações das vítimas de terrorismo e de catástrofes naturais?

Verificam-se sobretudo no que respeita ao medo. A imprevisibilidade dos atentados terroristas desencadeia uma resposta de medo mais exacerbada e que pode contaminar o processo de vivência do stress. A ansiedade tende a permanecer mais tempo. Outra das grandes diferenças tem a ver com a forma como se faz o processamento emocional.
Nas catástrofes naturais, não há um culpado. Num atentado terrorista existe intencionalidade. O que deixa às vítimas uma raiva enorme. que contamina o processo de luto, não deixando que se viva a tristeza. As pessoas ficam presas na zanga. 

INEM
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