Quando decidi seguir essa carreira à alguns anos, nunca pensei que um dia fosse me arrepender ou me indagar o porque não segui outra área.
Jamais vou esquecer meu primeiro dia no Quartel, meu antigo Comandante com uma cara de bravo e todo sério, e eu cheia de medo das chamas e de sangue. Mas no final do mesmo dia, não conseguia imaginar outra coisa para minha vida. Como diz aquela frase: eu não escolhi essa profissão, foi ela que me escolheu.
Não vou mentir ou ser hipócrita e dizer que foi tranquilo, pois nunca foi e ainda não é. Como mulher, enfrentei grande preconceito por decidir seguir esse caminho, preconceito até mesmo dentro da família em casa e dos amigos. Quantos olhares tortos, quantas pessoas me viraram a cara e quantas me perguntaram como eu era"sou" capas de deixar minha filha em casa, de arriscar minha vida por pessoas que não conheço, e pior ainda, quantas que me disseram e tentavam me humilhar por eu não estar sempre de cabelo penteado e pintado ou de unhas feitas, diziam que o meu salário mal dava para alimentação. Minha resposta sempre foi: não faço isso pelo dinheiro ou glória, faço por amor, faço porque sei que é preciso fazer, faço porque quero lutar e deixar uma sociedade melhor para minha filha.
Quando me separei e tive de deixar a cidade que morava e meu Quartel, retornei para minha origem. Local onde tive oportunidade de continuar com meu trabalho. Conheci pessoas espetaculares, as quais irei levar comigo para sempre. Mas irei ser sincera, jamais encontrei aquele companheirismo, amizade, aquele sentimento entre os colegas, sentimento este que nos faz dizer que somos família.
Colegas do mesmo meio, da mesma casa, um tentando puxar o tapete do outro, não sei porque, se é por medo da pessoa ser de outra localidade, se é pela pessoa estar sempre disposta a ajudar e não ter preguiça de trabalhar, até agora não entendi o porque de certas pessoas serem tão mesquinhas.
A cerca de 3 meses, fui informada que não iriam mais precisar dos meus serviços, pois "mulheres" não estão a ser tão precisas. Apenas abaixo a cabeça e aceitei, mesmo sabendo que há coisas que faço, que muitos homens não fazem e sequer tem coragem, abaixei a cabeça e aceitei, mesmo sabendo que estava mais uma vez à ser algo de preconceito não apenas da sociedade, mas também de colegas de trabalho.
Aonde moro, já fui solicitada para prestar socorro por diversas vezes pelos vizinhos, e sempre fui prontamente ajudar, pois não sei ser indiferente a alguém que precisa de ajuda. Porém à cerca de dois meses fui aborda por dois homens na rua de minha casa, e recebi serias ameaças de morte, disseram que comandavam a região, e que não queriam bombeiro nenhum na área deles, que não queriam ninguém de Farda, independente de ser polícia ou Bombeiro.
Me deram duas opções: ou eu ia embora, ou eu pagava uma taxa por mês para manter minha filha segurança. Se eu não aceitasse eles iriam matar minha filha. No dia seguinte eu recebi o pagamento de alguns trabalhos, e na mesma hora paguei esses FDP, mas o mais importante é a segurança da minha filha. Desde então sofro ameaças.
Tive de atrasar meu aluguel, pois tive de escolher entre pagar o aluguel ou pagar esses homens. No final do mês, tive de escolher entre fazer compra do mercado ou pagar o aluguel que já estava atrasado. Mal tenho o que por na mesa para comer, muitas vezes mando minha filha comer e digo que já comi, mas quando na verdade não comi nada, mas prefiro ser eu a ficar com fome, do que minha filha. Tive de a tirar da escola, por questão de segurança, pois mesmo na escola ela corria risco desses caras fazerem mal a ela. Por enquanto ela tem estudado em casa, com apoio da professora.
A pouco tempo, descobri que estava gestante, e que é de risco, devido a problemas de saúde que já tive no passado. Mesmo assim, decidi seguir adiante. Pois minha fé em Deus não permite outra opção, e tenho orgulho da decisão que tomei. O pai do meu bebê, virou as costas e ignorou por completo o filho que está por vir. Mas mesmo assim irei seguir adiante.
Há noites que não durmo nem duas horas seguidas, pois me preocupo com a segurança da minha filha, me preocupo com o futuro desse bebê que está em meu ventre, e me preocupo com o que irei por na mesa para minha filha comer.
Tenho oportunidade de trabalhar em outra cidade, ainda como bombeira, mas muito longe de onde estou agora, graças à Deus. Mas o problema é que não tenho nem como pagar a passagem minha e de minha filha de ônibus, pois se mal tenho para comer devido as ameaças e chantagens que venho sofrendo, como irei pagar as passagens....... me sinto presa, de pés e mãos atadas.
Hoje, me pergunto porque segui essa profissão? Porque estou a passar por tantas coisas ruins, se o que faço é ajudar as pessoas? Porque sofro preconceito se meu objetivo é o mesmo que o de qualquer outro Bombeiro? Porque minha filha está em risco se nunca me envolvi com pessoas erradas? Porque não respeitam quem luta para salvar vidas?
NOTA: A pedido da pessoa em questão e para sua segurança e segurança da própria filha, não divulgamos a sua identificação.

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