Ao início da madrugada do dia 19 de agosto, o país dos bombeiros foi mais uma vez confrontado com a notícia que ninguém quer ouvir.
Mais uma vítima mortal a marcar o combate aos incêndios florestais e a vida de uma associação. Desta vez a tragédia bateu à porta dos Bombeiros Voluntários de Carcavelos e S. Domingos de Rana, concelho de Cascais, distrito de Lisboa.
Portugal vestiu-se de luto para homenagear mais um herói, num verão que fica mais uma vez marcado pela dor dos bombeiros e pelo negro da área ardida.
José Joaquim Mendes Moreira, 41 anos, bombeiro há duas décadas, não resistiu aos ferimentos na sequência do capotamento do autotanque onde seguia a caminho de um incêndio em mato perto de Talaíde, na fronteira entre os concelhos de Cascais e Oeiras.
Uma tarde de agosto, igual a tantas outras, acabaria por ficar registada na história pelas piores razões. As cerimónias fúnebres de José Moreira, que deixa dois filhos menores, realizaram-se no sábado, dia 22 deste mês. Num ambiente de consternação, familiares, colegas e amigos, prestaram a última homenagem ao soldado da paz que perdeu a vida ao serviço da causa dos bombeiros.
Deste acidente trágico resultou ainda um ferido. Hugo Guerreiro, de 31 anos, conduzia o autotanque que se despistou. O bombeiro foi transferido para o hospital de Cascais, de onde já teve alta encontrando-se a recuperar no domicílio. Hugo Guerreiro está "desolado", conta o comandante do corpo de bombeiros, Paulo Santos, que teve a dura missão de lhe comunicar a perda do colega.
No dia da morte de José Moreira, a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) emitiu um comunicado onde expressou publicamente as “sentidas condolências” pelo trágico acidente e solicitou às associações e corpos de bombeiros que se associassem a este momento de dor.
Cumprindo a solicitação nacional emitida pela LBP aos seus associados, todas as associações e corpos de bombeiros colocaram as bandeiras a meia haste e fizeram soar as sirenes, em todo o país, à hora em que se realizaram as cerimónias fúnebres. À porta dos quartéis, foram centenas as formaturas que durante 30 segundos, e ao som das sirenes, lembraram mais um soldado que tomba em serviço. A Câmara Municipal de Cascais decretou três dias de luto municipal.
Carcavelos perdeu um amigo
No quartel dos Bombeiros Voluntários de Carcavelos São Domingos de Rana não “há palavras” para descrever José Moreira – o “Russo” para uma grande maioria, um homem há muito ligado aos bombeiros e com familiares próximos, também eles, ligados à causa e com dois filhos menores.
“O José era um operacional a 100 por cento, dos homens em quem confiávamos e que queríamos ao nosso lado nas situações mais complicadas”, lembra um dos colegas da associação. No quartel o ambiente é de grande consternação e vários bombeiros tiveram de receber apoio psicológico.
Em todo o país, nomeadamente através das redes sociais, multiplicaram-se as palavras de apoio e solidariedade ao corpo de bombeiros e aos familiares e amigos de José Moreira, o bombeiro de olhos claros que aparece fardado na página pessoal da rede Facebook, imagem que se multiplicou pela maioria das páginas das associações humanitárias na internet em poucas horas.
Jaime Marta Soares, o presidente da Liga que acompanhou hora a hora o evoluir do estado clinico dos bombeiros acidentados, não conseguiu esconder a emoção e, ao ‘BP’, referiu que “à morte deste bombeiro na terra, acresce uma estrela no céu”.
Durante as cerimónias fúnebres do José Moreira, ocorridas a 25 de agosto, foi também lembrado o nome da bombeira dos Voluntários de Alcabideche, também do concelho de Cascais, Rita Pereira, falecida há dois anos, precisamente naquele dia, no incêndio ocorrido no Caramulo.
Civil morre no Sabugal
Os incêndios de agosto fizeram mais uma vítima. Um civil de 70 anos que, sozinho, tentou enfrentar as chamas que se aproximaram da sua casa. O homem foi encontrado sem vida, carbonizado, pelos bombeiros que procediam ao combate deste incêndio florestal que lavrou na freguesia de Sortelha, concelho do Sabugal, Guarda, no passado dia 22 de agosto. Segundo informações prestadas pelo vereador da Proteção Civil da Guarda, Vítor Proença, a vítima "estava no meio de um canavial e não conseguiu sair a tempo" quando as chamas se aproximaram. O homem estaria a tentar que as chamas não chegassem perto da zona onde estava a sua casa.
Texto: Patrícia Cerdeira
Fotos: Marques Valentim

