“João” bombeiro há quase 25 anos, acorreu ao toque de sirene a um incêndio urbano.
Fez parte da equipa da ambulância de emergência, que sofreu um violento acidente a caminho do incêndio, acabando por falecer no local.
O texto abaixo descrito, foi presenciado pelos seus camaradas enquanto socorriam João, que perante a gravidade dos ferimentos, ia falando como se estivesse junto da sua mãe.
MÃE... Desculpa por não ter feito o que me pediste. Desculpa mãe. A sirene tocou, e eu lembrei-me do que me disseste.
Pediste-me que eu não fosse, mãe... Mas tu sabes que eu tinha de ir, tu sabes que alguém precisava da minha ajuda, tu sabes que foi assim nos últimos vinte e cinco anos.
Senti orgulho de mim mesmo, e do modo como me disseste que eu me sentiria quando um dia ajudasse alguém. Ao contrário do que alguns amigos me disseram, ser bombeiro é uma sensação única, uma coisa que só quem o é, consegue explicar.
Fiz uma escolha saudável, e não me arrependo nunca da escolha que fiz. E agora que a sirene parou de tocar, já estou a caminho de mais um incêndio urbano. Fui para o meu carro preferido, a ambulância de socorro, na certeza de que iria voltar para casa em paz...
Eu nunca poderia ficar em casa sem acorrer ao toque da sirene
Agora estou deitado na rua, e ouvi o GNR dizer: "O rapaz que causou este acidente estava bêbado", mãe, a voz dele parecia... Tão distante...
O meu sangue escorre por todos os lados e eu estou a tentar com todas as minhas forças, não chorar, estou a lutar para te voltar a ver... Consigo ouvir os meus colegas dizerem:
"O rapaz vai morrer"
Tenho a certeza de que a mulher não tinha a menor ideia, enquanto ela vinha a toda velocidade, afinal, ela decidiu beber e conduzir e agora... Tenho que morrer, eu que ia socorrer alguém e agora estou a ser socorrido pelos meus camaradas. Mas então por que as pessoas fazem isto, mãe? Sabendo que isto pode arruinar vidas?
Sabes mãe, a dor está a cortar-me como mil facas afiadas...
Por favor diz há minha mana para não ficar assustada, mãe, diz ao pai que ele tem que ser forte... E quando eu for para o céu, sim mãe, porque eu vou para o céu, para junto dos meus camaradas que como eu já morreram para salvar os outros, escreva "Menino do Pai" na minha sepultura...
Alguém deveria ter dito àquela mulher que é errado beber e conduzir, talvez, se os seus pais tivessem dito, eu ainda estivesse vivo.
Mãe a minha respiração está a ficar mais fraca, e eu pela primeira vez começo a ficar com medo.
Estes são os meus momentos finais e sinto-me tão desesperado, os meus colegas não me conseguem salvar, eu que já salvei tanta gente e agora não consigo que me salvem.
Mãe, gostava tanto que tu me pudesses abraçar, enquanto estou esticado aqui a morrer, eu gostaria de te poder dizer que te amo, mãe...
Então... Amo-te e adeus...
Imagem Ilustrativa
