Opinião: Labaredas Enormes - VIDA DE BOMBEIRO

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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Opinião: Labaredas Enormes


Mais um verão e a nossa atenção andou dividida entre cartazes, futebol e incêndios.

Os cartazes foram um não assunto, mas a cada novo cartaz, uma nova polémica. Fez até uma baixa de peso no PS. Foi com pena que vi sair da Direcção de Campanha do PS Ascenso Simões, alguém que tem a grande virtude, sobretudo em Portugal, de dizer o que pensa, sem complexos, nem preconceitos ideológicos.

O futebol andou à volta dos milhões, dos reforços e do inevitável Jorge Jesus. Um abalo em território português que continua a causar várias ondas de choque.

No entanto, o que continua a ser padrão é o verão quente. Não apenas em temperatura, mas muito por causa dos incêndios que consomem o nosso território.

O jornal Público apontava, ainda esta semana, para uma área ardida, só no mês de Agosto na ordem dos 9 mil hectares. É muita área ardida.

Devemos novamente focar-nos neste assunto, porque nunca é demais regressar à lógica da prevenção, recordar a falta de um correcto ordenamento florestal, a contínua ausência de um cadastro florestal actualizado e a implementação da liberalização da plantação do eucalipto que pode não ajudar a minorar este flagelo. Todavia este não é um assunto circunscrito à flora e à natureza pois está interligado, com o problema do despovoamento humano prevalecente nos territórios de baixa densidade, sem pessoas a habitar o interior do nosso país a floresta fica mais desprotegida.

Tudo isto é verdade. Tudo isto já foi dito e repetido.

É verdade que a área ardida nos primeiros seis meses deste ano (cerca de 30 mil hectares) está abaixo da média dos últimos dez anos (2005-2014) no mesmo período. E se analisarmos a média entre 2004-2013, no período de 1 de Janeiro até 15 de Agosto, verificamos um valor de 66 mil hectares, claramente acima daquilo que se pode registar até ao momento neste ano.

Apesar de este ano registarmos valores inferiores à média dos últimos dez anos, a verdade é que em Portugal vai-se destruindo a floresta, as habitações, as pastagens e originam-se vários outros danos ambientais tremendos, ano após ano e, muitas das vezes, nem sequer é nos meses mais quentes. O problema é que os governantes já deram isto como uma inevitabilidade e aqui é que reside o grande problema. Porque, na verdade, Portugal apresenta índices de área ardida que não têm comparação com muitos países, mesmo aqueles de maiores dimensões.

Já chega de olhar para as imagens de longe, de voyeurismo mediático a correr atrás dos carros dos bombeiros, e pensar que isso é lá na aldeia ou terriola do interior. Cada pedaço de terra ardido é mais uma cruz na nossa economia, na nossa saúde, no nosso território e no ambiente.

Vamos ouvindo que existem mais meios de combate aos fogos. É certo. Mas falta começar pelo princípio, que é fazer mais prevenção, bem sei que custa mais a fazer, a implementar, no entanto é o caminho que tem de ser trilhado, não podemos estar constantemente a tomar meras abordagens reactivas, temos de planear. Qual a pedagogia a fazer com as pessoas, gizar eventuais medidas de incentivo à plantação de espécies autóctones menos combustíveis e com menores impactos nos solos e nos cursos de água, estas são soluções que devemos tratar a seguir à fase CHARLIE. Os incêndios combatem-se prevenindo-se a sua deflagração e propagação no outono e no inverno. Não podemos esperar para dividir os telejornais entre incêndios e festivais de verão.

E já agora, para quem é responsável por fogo posto, deve haver mão firme. A pena deve ser apropriada e exemplar. As vozes das pessoas a verem casas, terrenos e armazéns a arder são vozes que nos ecoam na cabeça e que nos fazem ser totalmente solidários.

Este é um tema central. Este podia bem ser um bom tema de campanha. Deixem-se lá de cartazes.

Diogo Agostinho in Expresso