Opinião: As Culpas do Tempo - VIDA DE BOMBEIRO

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domingo, 16 de agosto de 2015

Opinião: As Culpas do Tempo


O velho fixa os olhos esbugalhados lá longe, para lá dos montes e das labaredas que avançam a menos de cem metros das casas da aldeia minhota. 

Repara, e os seus gestos fazem com que muitos reparem, no rasto cinzento estorricado onde fumegam montes e montinhos de lenha em brasa – troncos e caruma. Mete dó a postura do velho, já só braços descaídos. "Isto era tão verdinho... Estragam tudo!" Por cima, o zumbido de aviões e helicópteros. Ao lado, as vozes desencontradas dos bombeiros, os gritos das mulheres, a panóplia de assalto contra os fogos que vão engolindo mata, culturas, floresta, alguns casebres. E o velho a pôr o dedo na ferida. "Gastam-se fortunas e ninguém limpa nada..." 

A ministra que manda nos bombeiros e seus dinheiros, muito séria e convicta, já explicou que a culpa é do tempo. Entenda-se do tempo quente, abafado, sem humidade, ainda por cima com ventos alevantados. Pelos picos de canículas passadas, o meu amigo Zé dos Pneus, preventivo, passava o tempo a rezingar que "os fogos apagam-se no Inverno, nunca no inferno!" Por outras palavras, o velho minhoto, apanhado pelos microfones-vampiros, disse o mesmo: "Ninguém limpa nada..." 

Por simples bom senso, seria durante o Inverno ou Primavera que se deviam limpar as florestas, os matos, os caminhos, as veredas e os subúrbios de casas, casais, quintas e quintarolas. Talvez exagerado, o Zé cuspia acusações. "Se gastassem na limpeza das matas metade do dinheiro que gastam em aviões, autotanques, fardas e mangueiras, não ardia nem um terço do que arde!" O povo-proprietário, e até o povo-bombeiro voluntário, desculpa-se com a falta de fundos, subsídios e carcanhóis  e entrega-se nas mãos do tempo e da Divina Providência. 

Azar do povo minhoto, habituado a frescuras e humidades, a água farta e verdes intensos, este ano não choveu grande coisa. Como constatou a ministra, culpa do tempo e da natureza. Porque, pela parte dos mandantes, gastaram-se os devidos milhões em equipamentos, formação, mais os carros e os aviões. Bem vistas as coisas por certos ângulos, a culpa é sempre dos especialistas em números e previsões. Exemplos: a culpa é do FMI, que prevê um défice acima dos desejos governamentais, ou do Instituto Nacional de Estatística, que prevê e aponta desemprego acima dos desígnios oficiais. 

Quanto aos incêndios, a culpa, como se vê, é do tempo e do Instituto de Meteorologia, que não conseguiu fazer uma previsão de chuva com jeito para estes meses de Verão. 

Vitor Bandarra in CM