Todos os anos, no verão, principalmente no mês de agosto, a história repete-se: os incêndios voltam a abrir os telejornais e a ocupar as páginas da informação diária. Contam-se histórias de pessoas em aflição tremenda, por verem o seu património, casa inclusive, em perigo.
Vemos imagens de pessoas que pegam em enxadas, mangueiras e baldes para combaterem as chamas ao lado dos bombeiros. Ouvimos autarcas afirmarem que todos os planos de contingência foram acionados, que todos os meios estão operacionais e que os serviços municipais de proteção civil estão a fazer tudo o que está ao seu alcance.
Para os bombeiros, fica a parte de leão, ou seja, o combate. Relativamente aos meios, também a conversa é a mesma – os meios são os necessários, sendo que o ano em causa é sempre aquele para o qual foram disponibilizados em maior número, principalmente meios aéreos. Assim que é atingido o pico dos incêndios, todos começamos a criticar a exiguidade dos meios, pois face à realidade dos sinistros parecem ser insuficientes para responder ao quadro operacional. Relativamente às causas dos incêndios, as opiniões são as de sempre.
Para os entendidos na matéria existirão muitos fogos dolosos, ou seja, com mão criminosa, mas existe um número igualmente elevado fruto de negligência.
O que ninguém duvida é que cerca de 90 por cento das ignições são causadas pelo homem, seja de forma negligente ou dolosa. A Polícia Judiciária (PJ), órgão de polícia criminal com competência exclusiva para a investigação aos incêndios, sejam em meio urbano ou rural, divulgou os dados: 65 pessoas detidas e apresentadas à entidade judiciária competente, sendo que, destes, 34 indivíduos ficaram em prisão preventiva.
Temos, assim, mais de 50 por cento dos detidos em prisão preventiva, número muito elevado já que para a aplicação desta medida os indícios apresentados ao juiz terão de ser muito fortes. Este é o quadro atual, mas poderia ser o quadro de qualquer um dos anos passados e de certeza que será igualmente o quadro dos anos vindouros.
Dificilmente este estado de coisas mudará. E porquê? É simples; tenho a certeza de que no final de setembro, a problemática dos incêndios vai sair da ordem do dia, vai deixar de ser notícia, até ao ano que vem por esta mesma altura. Dos prejuízos não se retiram lições. Relativamente a incêndios florestais, nós, portugueses, não passamos de alunos cábulas que não estudam o problema e se limitam, como bons católicos, a rezar à providência divina. No momento em que nos encontramos, não adianta muito falar e pensar sobre incêndios.
Eles estão aí e por isso, fundamental, é o seu combate. Quando o discurso sobre este tema se centra na capacidade de resposta dos bombeiros e dos serviços municipais e nacionais de Proteção Civil e na das Polícias em deter os incendiários, estamos entregues a Deus. Os bombeiros apenas são chamados quando a floresta já se encontra a arder e, por isso, numa situação de contenção de danos. As polícias porque só podem intervir depois de o ato criminoso praticado ser praticado. BOM TEMPO, MAU TEMPO Portugal tem outra condicionante – o clima mediterrânico.
Um clima com temperaturas muito quentes, com níveis de humidade muito baixos e com ventos fortes é explosivo no que a incêndios diz respeito. Os países ou as regiões com este tipo de clima são aquelas que estão mais expostas a este flagelo. Portugal, Espanha, França e Itália ou os Estados Unidos, particularmente a Califórnia, onde o clima é muito parecido ao nosso, são zonas do globo unidas pela mesma tragédia.
O que fazer? Temos que partir de uma primeira premissa: os incêndios causados de forma dolosa , ou seja, aqueles que chamamos de incêndios criminosos ou fogos postos, não têm qualquer tipo de prevenção. Quem quer pegar fogo a uma mata, acaba por fazê-lo. Podemos colocar gente nas zonas florestais, sejam civis ou militares, podemos ter vigias, porém é impossível vigiar todos os terrenos 24 horas por dia. Como vimos neste ano, muitas das ignições ocorreram durante a noite, período em que este tipo de vigilância será sempre necessariamente menor.
Os fogos de origem criminosa terão de ser sempre combatidos à posteriori pelos bombeiros, dificilmente poderão ser evitados. A perseguição a estes criminosos tem de ser tenaz e as penas pesadas e efetivas, para servirem também de dissuasão. Contudo, existem outras áreas em que é possível e necessária uma intervenção a montante.
A nossa relação com a natureza: necessitamos de campanhas de sensibilização que melhorem a forma como nos relacionamos com a floresta. Almoços com grelhados na floresta, queimadas e outros destemperos nesta altura do ano são questionáveis, para não dizer negligentes. Uma outra questão passa pela limpeza da floresta. Muitos proprietários dos terrenos – privados – recusam efetuar essa operação por, alegam, ser demasiado dispendiosa.
Os donos de áreas rurais preferem não investir, mesmo que mais tarde possam perder tudo num incêndio. Por outro lado, as autarquias não fiscalizam, nem aplicam sanções aos infratores, como deveriam. Num país em que pagamos impostos por tudo, onde até os donos dos cães são sancionados se os seus animais de estimação não tiverem um ‘chip’ identificativo, não se percebe que a negligência da limpeza das matas não seja sancionada.
Existem também outras realidades que depois do verão têm obrigatoriamente de ser estudadas, e desse estudo têm depois de se extrair consequências com vista à correção da gestão da área florestal portuguesa. Os números de incêndios e a área ardida provam que estamos a errar. Portugal tem mais ignições do que Espanha e França juntas. Esta realidade tem de nos fazer pensar, pois claramente percebemos que temos aqui um problema para o qual urge encontrar resposta. Quais as razões deste fenómeno? O que estamos a fazer de errado? ONDE ESTÃO OS FOGOS? Se observarmos o mapa de Portugal, constatamos que 54% das ignições estão concentradas em três distritos: Vila Real, Braga e Viseu.
O País tem 18 distritos, então por que motivo estes três concentram as ignições? Em que é que estes distritos são diferentes dos outros? Será que os Serviços de Proteção Civil funcionam menos bem? As autarquias correspondentes investiram menos na limpeza das matas? Os serviços de proteção e de prevenção da floresta são inexistentes? Ou será ainda que estes distritos têm, nesta altura do ano, a maior incidência de festas e romarias, com os seus foguetes, com grande presença humana, muito álcool e logo alguma negligência? É necessário encontrar respostas para estas questões de forma a melhor se poder elaborar um plano de prevenção e, simultaneamente, corrigir o que esteja errado. Temos de encontrar explicações, mas explicações que justifiquem estes números.
Por último, a reorganização da floresta. Todos os anos ouvimos os bombeiros queixarem-se de não conseguirem chegar à frente de fogo por não existirem acessos. É por essa razão que em muitos incêndios florestais, a única forma de chegar às frentes de fogo é através de meios aéreos. Aos bombeiros resta ver a evolução do fogo e esperar que as chamas cheguem a um sítio onde possa ser combatidas. É por isso chegada a hora do Instituto de Conservação da Natureza (ICN) abrir caminhos que permitam aos bombeiros e ao próprio ICN avançar na floresta com vista a reorganizá-la e protegê-la.
Não podemos ouvir as mesmas queixas todos os anos porque todos os anos não se faz nada. Os incendiários também conhecem esta realidade. Sabem que existem zonas de floresta em que depois de se fazer ignição do fogo dificilmente o combate pode ser eficaz e o sucesso dos criminosos é garantido. Este ano, os incêndios mais violentos ocorreram nos dias propícios.
Dias com temperaturas superiores a 30º graus, com ventos superiores a 30 nós e com humidade inferior a 30º graus – condições explosivas, que ajudam à propagação das chamas. Escolher estes dias para atear fogo não é uma decisão de um alcoólico ou de uma senhora que se zangou com o marido. Escolher um dia destes para atear um incêndio reflete a preparação do criminoso ou do mandante. Exige-se também ao ICN que quando proceda à reflorestação ou autorize a reflorestação, veja as espécies que são plantadas. Pinheiros e eucaliptos num país com este clima é combustível de primeira qualidade.
Aproveitemos, pois, os próximos outono, inverno e primavera para trabalharmos para que o próximo verão seja diferente, para que o flagelo dos incêndios florestais no País seja pelo menos menor do que aquele que estamos a viver em 2015. Mais do que encontrar culpados ou responsáveis pelo drama dos incêndios florestais, urge encontrar uma forma de aprender com os erros cometidos ao longo destes anos, e encarar a prevenção e os desafios da reorganização florestal com mais competência. Para que a silly season não seja dominada pela destruição das nossas florestas.
Fonte: Correio da manha
